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Número 831,

Cultura

Análise/Afonsinho

Meu horóscopo: Ano do Ganso

por Afonsinho publicado 25/12/2014 09h02
O ano da Copa-14 viu a esperança virar trauma, mas nem tudo está perdido
Bruno Cantini/ Clube Atlético MG
Futebol

Treinadores "gênios da estratégia" a peso de ouro já eram, e jogadores fora de órbita com ganhos estratosféricos e sem compromisso, idem

Ao fazer um apanhado, mais que um balanço, do desastrado 2014, não vamos nos esquecer de que tudo ocorre na vigência de uma era vergonhosa da humanidade, do malfadado neoliberalismo, que, embora morto como ideia insustentável, nos obriga a viver feito os personagens do livro Jangada de Pedra, do português José Saramago, vagando entre despojos, ou a caminhar entre as trevas, tirar leite das pedras, ver o tempo correr da canção de Chico Buarque.

No primeiro semestre, viveu-se a ilusão de que, depois do triunfo na Copa das Confederações, e jogando em casa com o apoio da torcida, teríamos grandes chances na Copa no Brasil, depois de 64 anos, período em que saímos do complexo de vira-lata para o maior vencedor de mundiais. Alguns poucos críticos fizeram ver que não havia um trabalho consistente alicerçado num tempo prolongado, necessário às atividades coletivas de disputa. Ruiu o castelo de cartas, deixando desnorteados os torcedores, massacrados pelo resultado acachapante do jogo contra a Alemanha.

A partir daí, a derrocada instalou-se e, estonteados, passamos a procurar em todos os cantos as razões do nosso fracasso retumbante e a louvar, às vezes de modo exagerado, as virtudes dos adversários. Baixando a poeira podemos reconhecer iniciativas que vinham lá de trás e outras que amadureceram na estufa da derrota (Atletas pelo Brasil, Bom Senso, LRF, agora o vôlei).

A Fifa anuncia o aumento do seu colégio eleitoral, reconhecendo aí uma tentativa tímida de perpetuar um sistema de funcionamento claramente medieval. A crise com a Uefa, o organismo europeu dos clubes, está explícita no pedido de renúncia sugerido pelos alemães e pela impossibilidade que o presidente da entidade, Michel Platini, tem de “tapar o sol com a peneira”.

Auspicioso o futuro que desponta nas grandes organizações e se manifesta com clareza na escala menor. O afastamento dos chefões das confederações das Américas Central e do Sul e os escândalos cada vez mais numerosos nas asiáticas, árabes e africanas afundam cada vez mais o poder vigente.

Nada que se resolva com varinha de condão, de uma hora para outra, mas como em todo processo de mudança, deslocadas as primeiras pedras a montanha vem abaixo.

Entre os clubes, o Corinthians vem se atualizando para  se incluir no calendário globalizado – conquistou um título mundial dos tempos recentes. O Inter-RS evoluiu muito, também tem sua conquista de pouco tempo, teve sorte na partida final e superou o Barcelona do Ronaldinho. Talvez seja o clube com o maior número de torcedores contribuintes. São Paulo e Grêmio-RS tradicionalmente são clubes organizados, embora atravessem suas crises. Cruzeiro e Atlético de Minas têm estruturas poderosas, mesmo que eu desconheça suas políticas internas. Mineiros e seus silêncios... estão mandando.

O Fluminense é bom exemplo a ser analisado. Vem anunciando medidas para se livrar da dependência perniciosa de empresários e patrocínios, donos das divisões de base que asfixiam os clubes. São a reedição da tradição escravista da sociedade brasileira. O patrocínio que ajudou o Tricolor a voltar da Terceira Divisão garantia o lucro dos seus investimentos com a “propriedade” de “direitos” sobre as transferências de jogadores. As revelações acabam saindo cedo do Brasil, a ponto de a última Seleção convocada ter um grande número de jovens desconhecidos dos torcedores e mesmo da mídia especializada. Aberração.

Dois técnicos da nova safra revelaram ao mesmo tempo preocupações semelhantes. Disse Marcelo Oliveira, do Cruzeiro: “Investidores migraram para o futebol”. Cristóvão Borges, do Flu, completou: “É preciso trabalhar com pessoas que entendam de futebol”. Mudanças de ideias, não somente de nomes.

São alvissareiras as eleições de inúmeros clubes nesses últimos meses, mesmo contando certas decepções que tendem a retardar nossas transformações. Esses coronéis do futebol estão debilitados, não têm mais eco seus rugidos de tigres de papel.

Treinadores “gênios da estratégia” a peso de ouro já eram, e jogadores fora de órbita com ganhos estratosféricos e sem compromisso com os clubes, idem.

Vem aí um ano de faxina no futebol e na política, na bola de cristal meu horóscopo aponta: Ano do Ganso. Boas Festas e Feliz Ano-Novo!

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