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Número 830,

Política

Análise/Wálter Maierovitch

Onde mora a corrupção

por Wálter Maierovitch publicado 15/12/2014 06h21
A máfia recém-descoberta em Roma é um bando de diletantes, comparados aos fisgados pela Lava Jato
Moyan Brenn/Flickr
Roma

Na semana passada, descobriu-se uma máfia autóctone em Roma, batizada de Mafia Capitale

Girolamo maria moretti era um franciscano capaz de inferir de um autógrafo as características psicológicas do subscritor. Moretti, no entanto, não ficou conhecido pelas suas contribuições à grafologia, mas por uma frase sobre corrupção em que usou como referência aquela já considerada Caput Mundi: “Quanto mais perto você estiver de Roma, mais distante estará do céu”.

Na semana passada, descobriu-se uma máfia autóctone em Roma, batizada de Mafia Capitale. Essa organização delinquencial desfalcou os cofres da prefeitura de Roma e estabeleceu-se mediante infiltração no poder, violências, desumanidades e uso de interpostas pessoas jurídicas nas falcatruas.

Para a mídia europeia ocorreu um vultoso assalto aos cofres públicos capitolinos e um peculiar escândalo, pois dessa vez as empreiteiras e os políticos foram os que buscaram a parceria mafiosa. Entre brasileiros isso tudo não representa novidade e, quanto aos valores monetários subtraídos por lá, caso comparados com o que foi “afanado” aqui, não passam de trocados para os alfinetes, para usar uma expressão avoenga.

O pool dirigido por Giuseppe Pignatone, procurador-chefe do Ministério Público de Roma, investigou nos dois últimos anos a administração municipal do ex-prefeito Gianni Alemanno (2008-2013), político da direita radical, berlusconiano e filofascista, investigado por suspeita de participar e acobertar o esquema de corrupção: o dinheiro foi parar no caixa da Fundação Nova Itália, que cuida do seu projeto político. Na operação de desmantelamento chamada Mondo di Mezzo foram presos 36 suspeitos, incluídos o chefão da organização mafiosa e o seu braço direito.

O capomafia chama-se Massimo Carminati e era conhecido por atuar, nos anos 70, como terrorista fascista nos Núcleos Armados Revolucionários (NAR). Depois disso, Carminati migrou para a organização pré-mafiosa romana conhecida por Banda della Magliana. Num confronto com a polícia na fronteira Itália-Suíça, perdeu um olho e ganhou o apelido de il Cecato (o Caolho).

Como muitas vezes o dinheiro promove a aproximação dos extremos, o braço direito do neofascista Carminati era o marxista Salvatore Buzzi, assassino que cumpriu a pena. Por lentes distorcidas, Buzzi, pós-cadeia, foi tido como protetor dos refugiados, empenhado na ressocialização de condenados e gestor de serviços públicos terceirizados,  cooperativas de campos de imigrantes.

A Mafia Capitale caracterizava-se por ambiguidades ético-morais. Da boca dos seus associados saía um discurso político de matriz racista e xenófoba, semelhante à linha defendida no Europarlamento por Marine Le Pen. Contemporaneamente, entretanto, mantinha-se a exploração material dos campos de refugiados da periferia (campi rom) e desfrutava-se economicamente de imigrantes e ciganos: “Dá mais dinheiro do que o tráfico de drogas”, consoante interceptação telefônica.

A Mafia Capitale corrompe e não mata e nisso se iguala às nove megaempreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato. Enquanto nesta Lava Jato calcula-se o desvio de 10 bilhões de reais saídos da Petrobras, a dupla mafiosa Caminati-Buzzi faturava, líquido e por ano, cerca de 50 milhões de euros. Numa interceptação telefônica, Buzzi não contém a euforia e diz: quest’ anno (1983) abbiamo chiuso com 40 milioni di fatturato. Só os contratos suspeitos da Petrobras somam 59 bilhões de reais. O doleiro brasileiro Alberto Youssef movimentou criminosamente 10 bilhões de reais, algo que certamente faria Caminati, no seu lugar, ser capaz de contar notas com o seu olho de vidro e sem errar com as moedas.

Enquanto a Mafia Capitale explorava o campo de nômades de Castel Romano e desviava 2,5% do valor contratual, Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras, driblava o conselho de administração da empresa de modo a fazer autorizar a compra da refinaria de Pasadena, um negócio de prejuízo superior a 1 bilhão de dólares. Das nove empreiteiras brasileiras envolvidas na fase Juízo Final da Lava Jato bloquearam-se 700 milhões de reais. Pedro Barusco, ex-gerente-executivo de engenharia da Petrobras, ofereceu devolver 100 milhões de dólares, enquanto Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento, ofertou 23 milhões de dólares que estavam depositados em conta bancária na Suíça. Ele também colocou à disposição alguns trocados, totalizando 2,8 milhões de dólares, em Cayman.

No Brasil, fala-se no envolvimento de 30 políticos no esquema de propinas e, na Mafia Capitale, temos um ex-prefeito investigado e afastado o presidente do conselho municipal capitolino.

Na verdade, os associados à Mafia Capitale são diletantes, se comparados com os gatunos da cleptocracia brasileira.