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Número 830,

Sociedade

Análise/Thomaz Wood Jr.

A USP (não) é várzea!

por Thomaz Wood Jr. publicado 19/12/2014 05h34
A mais importante instituição de ensino e pesquisa do País precisa trabalhar firme para recuperar sua boa reputação
Marcos Santos/USP Imagens
USP

A expressão "várzea" é comumente atirada contra professores relapsos, conteúdos defasados e matérias mal dadas

Toda nação tem, ou deveria ter, instituições de referência. Por suas condutas e realizações, elas conquistam o reconhecimento franco e o respeito sincero dos cidadãos. Elas são importantes por sinalizar valores e nortear comportamentos, fomentando virtudes que alicerçam o progresso social.

Para muitos brasileiros, a Petrobras foi uma instituição de referência. Desde a sua criação, no início dos anos 1950, a empresa ficou gravada no inconsciente coletivo como símbolo de realização industrial e da capacidade para desenvolver tecnologia avançada. Durante décadas foi exemplo de excelência técnica e gestão baseada na meritocracia. Com o pré-sal, a empresa passou a ser vista como passaporte para uma sociedade mais rica e socialmente mais justa. Entretanto, a interferência política e os escândalos resultantes minaram a companhia e o símbolo. Resta agora apurar responsabilidades e recuperar a reputação abalada.

Para muitos paulistas, a USP foi uma instituição de referência: um polo gerador de conhecimento e centro de formação de profissionais e cientistas. Criada em 1934, a USP teve papel notável na formação da elite dirigente do País. Nutriu processos políticos e culturais. Sofreu durante o período militar e cresceu após a redemocratização. Hoje, a instituição tem mais de 90 mil alunos e um corpo docente de cerca de 6 mil professores. É a universidade que mais forma mestres e doutores no Brasil. Nos rankings internacionais, ocupa lugar de destaque, especialmente entre as instituições ibero-americanas. Seu orçamento anual supera 4 bilhões de reais.

Entretanto, 2014 foi mais um ano trágico para a instituição. Sucessivos escândalos e más notícias macularam sua reputação. A crise veio na esteira de uma expansão acelerada, investimentos polêmicos e crescimento da folha de pagamento, que em 2014 superou seu orçamento total. Recentemente, a própria universidade divulgou seus salários. O quadro revelado é espantoso. Na base, muitos salários são modestos. Entretanto, dezenas de professores aposentados e até analistas administrativos recebem valores de fazer inveja a diretores de empresas, na ativa.

Somaram-se às más notícias greves a paralisações, eventos traumáticos de violência e, recentemente, um rumoroso caso envolvendo estupros na Faculdade de Medicina. Além do show de horrores na mídia, o boca a boca de estudantes da própria instituição contribui para conspurcar a imagem de seriedade construída durante décadas, dando conta de instalações decadentes, docentes negligentes, funcionários relapsos e sindicalistas anacrônicos.

As consequências começam a ser sentidas. Em uma escola paulistana, os alunos se preparam para o vestibular. À medida que os exames se aproximam, as escolhas são feitas. Adriana quer fazer Arquitetura. Visitou a USP, não gostou do que viu e desistiu da Fuvest. André decidiu estudar Direito, mas optou por uma faculdade com proposta mais moderna e arejada que a vetusta escola do Largo de São Francisco. Júlio vai prestar Administração, mas não quer saber das greves e confusões da USP. Clarice resume a percepção da turma: “A USP é várzea!” Todos concordam.

Na vida escolar, a expressão “é várzea” é comumente atirada contra professores relapsos, conteúdos defasados e matérias mal dadas. Vê-la aplicada, de forma espontânea e ingênua, contra a principal instituição de ensino e pesquisa do País é triste e desconcertante. E pode não ser justo, porque, embora a instituição passe por problemas graves, continua com um corpo invejável de professores, alunos brilhantes e centros de excelência em pesquisa. Entretanto, a percepção contamina a interpretação que, reforçada por seguidas más notícias, é tomada por verdade.

Para qualquer organização, a reputação é um ativo fundamental. Sua construção é lenta e exige enorme esforço, mas sua destruição pode ser rápida e irreversível. Reformar um gigante descontrolado, propenso a teorias conspiratórias, refém de grupos com interesses conflitantes, perdido em disputas retóricas, de governança impossível e coalizões instáveis, é tarefa hercúlea. Os povos dos trópicos aguardam ansiosos pelo início dos 12 trabalhos e agradecem antecipadamente os esforços.

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