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Número 829,

Saúde

Cérebro

Ratos espertos

por Rogério Tuma publicado 07/12/2014 07h11
Ratos com cérebros metade humanos são mais inteligentes e indicam um caminho para a recuperação de pacientes com lesões cerebrais
Julio César de Matos
Rato

Experimentos com ratos ajudam a entender lesões no cérebro

O cérebro é formado por dois tipos de células, os neurônios que formam as redes de conexão e são tidos como responsáveis por todas as funções cerebrais, e por células da glia, que são os outros tipos de células com o papel de manter, modular e orientar a migração e o funcionamento dos neurônios. É como se os neurônios fossem as ovelhas e as células da glia os pastores, elas fornecem a carne, o leite e a lã, mas eles as cuidam e as orientam a se posicionar no cérebro e a exercer suas funções corretamente.

Em estudo publicado na revista Journal of Neurosciense de dezembro, o cientista Steve Goldman, da Universidade de Rochester (NY), e colaboradores coletaram células da glia de fetos humanos doados e as injetaram em cérebros de filhotes de ratos recém-nascidos. As células injetadas em pouco tempo amadurecem e tornam-se astrócitos, células em forma de estrela que suportam os neurônios. Um ano após o implante, as células humanas substituíram por completo as células da glia do rato e passaram a controlar todos os neurônios do cérebro murino.

Em um ano, as 300 mil células implantadas substituíram todas as células da glia naturais e se multiplicaram para chegar à cifra de 12 milhões, ocupando todos os espaços disponíveis para esse tipo de célula no cérebro do rato. Os neurônios continuaram a ser os originais, mas os astrócitos, que são as células que modulam a condução elétrica produzida por eles, e, portanto, vitais para as funções superiores como memória, cálculo e inteligência; e como os astrócitos humanos são dez vezes maiores que os do rato e possuem cem vezes mais conexões, eles funcionaram como um turbo para o cérebro do rato.

Testes de memória e de solução de labirintos foram aplicados para os ratos híbridos com cérebro meio humano e com seus pares naturais, e em todos os testes os híbridos mostraram-se muito mais espertos.

Em outro estudo os pesquisadores injetaram células imaturas da glia em cérebro de ratos que não produziam mielina suficiente. Mielina é a proteína que recobre os prolongamentos dos neurônios e acelera e aperfeiçoa a condução elétrica produzida por eles.

Nesse caso, as células imaturas de alguma maneira identificaram a deficiência de mielina e amadureceram, transformando-se em outro tipo de célula da glia, o oligodendrócito, uma célula que produz a mielina, compensando a falta da proteína.

Esses estudos são extremamente promissores, pois abrem caminho para pesquisas na área de regeneração do tecido nervoso lesado, como na doença Esclerose Múltipla, em que a mielina é destruída por células de defesa, os leucócitos, e em casos de acidente vascular cerebral e até trauma, quando há lesão dos prolongamentos dos neurônios, interrompendo a comunicação entre si, levando à disfunção cerebral e até ao coma.

A principal descoberta dos cientistas é de que não somente os neurônios são importantes para as funções cerebrais superiores, aquelas que nos tornam humanos, como memória, crítica, iniciativa e linguagem, entre muitas, as células da glia também têm fundamental papel nessas funções, e diferentemente dos implantes com neurônios como fazemos para tratar a doença de Parkinson que não são tão bem-sucedidos, pois os neurônios implantados não resistem por muito tempo, o implante dessas outras células permite até a  multiplicação delas.

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