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Número 829,

Sociedade

Tênis

Federer Astaire

por Gianni Carta publicado 07/12/2014 06h45, última modificação 07/12/2014 08h58
O melhor de todos os tempos? Talvez. O mais elegante? Com certeza. O mais genial? Também. Por Gianni Carta
Steven Meisel / AFP
Roger Federer

Ele olha para os outros com superior distância

Lille, 23 de novembro, final da Copa Davis. Jogo decisivo para a Suíça, vencedora de duas partidas anteriores contra uma da França. A equipe francesa precisa ganhar para empatar e decidir o torneio em uma quinta disputa. Match point. Serve Roger Federer, segundo da Associação de Tenistas Profissionais (ATP), 40 a 0. Surpreendido com a alta velocidade do saque, o francês Richard Gasquet consegue fazer uma medíocre devolução curta com a direita. Federer flutua para o centro da quadra com a leveza de um Fred Astaire. Com a mesma elegância do dançarino, desfere uma sublime deixada (bola curta) de revés carregada de efeito lateral, o sidespin, na paralela. Uma das bolas mais difíceis e menos usadas em um esporte cada vez mais avesso a sutilezas. Resignado diante da genialidade de Federer, Gasquet nem sequer se move. Resultado: 6-4, 6-2 e 6-2.

Federer cai de bruços na quadra de saibro, a cabeça mergulhada entre as palmas das mãos. O suíço chora. “É para eles”, os suíços, diz o dançarino das quadras. Pela primeira vez, em 85 tentativas, o pequeno país leva a Copa.

Mas as lágrimas de Federer se devem também a um fato óbvio: aos 33 anos, a vitória da Copa Davis era uma de suas últimas chances para ganhar esse troféu. Com o recorde de 17 títulos em Grand Slams (Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open), 302 semanas na primeira posição da ATP, e mais sua presença em 18 das 19 finais de Grand Slams entre 2005 e 2010, veio à tona, mais uma vez, o recorrente debate: Federer é o melhor tenista de todos os tempos? O dilema é um divisor de águas como aquele entre Pelé e Maradona.

Semana passada, Toni Nadal, tio e treinador de Rafael Nadal, disse à radio espanhola: “Acho ele (Federer) o melhor de todos os tempos; é o que dizem os números”. A vitória na Davis Cup, emendou Toni, é mais uma para quem venceu 17 Grand Slams. Toni descartou seu sobrinho, campeão de 14 Grand Slams talvez porque Nadal, agora terceiro na ATP e a atravessar um enésimo tratamento médico, não voltará aos níveis anteriores.

Igualmente matemática é Martina Navratilova, a tcheco-americana vencedora de 18 Grand Slams. Para a ex-tenista, Federer é o melhor, devido à soma do número de títulos de Grand Slams, torneios ganhos, e mais os anos a ocupar a primeira posição no ranking mundial. Por sua vez, o mítico sueco Bjorn Borg, campeão de 11 títulos de Grand Slam, é categórico: “Roger é o maior tenista que jogou esse esporte”. O americano John McEnroe, vencedor de sete títulos de Grand Slam, agora comentarista de tênis na tevê, concorda com o ex-rival sueco.

Já Gianni Clerici, o ex-parceiro de duplas do brasileiro Armando Vieira, colunista de tênis no diário La Repubblica, rema contra a corrente. Certa vez, ele me disse em uma entrevista: “Não se pode comparar jogadores de eras diferentes. Rod Laver e Roger Federer são incomparáveis”. O motivo? “Um tênis diferente, instrumentos diferentes, bolas diferentes.” Na entrevista à rádio Cadena COPE, Toni Nadal pareceu se contradizer. Após elogiar a superioridade de Federer, disse: “Federer e Laver foram os melhores”. Acreditaria Toni, como Clerici, em eras diferentes?

É indiscutível: o australiano Rod Laver, de 76 anos, é outro gênio do esporte. Canhoto, tinha um jogo agressivo de saque e voleio. Veloz, usava top spin do fundo da quadra, ou seja, golpeava a bola de baixo para cima para produzir efeito. Seu lob com top spin era uma de suas armas principais.

Laver é o único tenista na história a ganhar o Grand Slam – os quatro grandes torneios–no mesmo ano, duas vezes, em 1962 e 1969. Mais: é o único a vencer o Grand Slam no Open Era, iniciado em maio de 1968 em Roland Garros, Paris. Naquele ano, profissionais como Laver puderam pela primeira vez participar de um torneio de Grand Slam, até então disputados apenas por amadores. Era, portanto, a transição para o profissionalismo do esporte. Em sua carreira no Open Tennis, Laver venceu 11 títulos de Grand Slam, ante os 17 de Federer. Por outro lado, Laver é o tenista que mais ganhou títulos de simples em torneios na história: 200.

Mas o que tem Laver a dizer sobre o assunto? Em seus vários depoimentos, ele se exprime com ambiguidade. Em entrevista para a agência noticiosa AFP, em outubro de 2013, Laver observou: “Federer é o maior tenista de todos os tempos, apesar de sua queda no ranking”. Acrescentou: “Só não venceu o Grand Slam porque Nadal o derrota na terra”. Para um jornal italiano, o australiano oferece outra versão: “Federer é o maior jogador de sua era”. Emendou, a recorrer a velhos craques: “Mas não é possível fazer comparações entre ele e Fred Perry, Don Budge e eu”. Talvez o romeno Ilie Nastase, vencedor de dois títulos de Grand Slam, tenha dito a melhor frase: “Roger poderá ser a salvação do tênis. Ele joga como nós jogávamos no passado”.

Em uma época em que tenistas evitam ir à rede, Federer é capaz de sacar e volear com maestria. O serviço é variado, e pode chegar a 220 km horários. O revés, com uma mão, como nos velhos tempos, pode vir carregado de top spin ou de slice, quando se golpeia por baixo da bola. A bola aterrissa baixo, por vezes sem peso, e leva o oponente a perder o ritmo, ou a cometer erros. O smash de esquerda, outro golpe difícil do esporte, é melhor do que o do americano Stan Smith, ex-especialista da bola e vencedor de dois títulos de Grand Slam. Segundo McEnroe, a direita de Federer é a melhor do que a do americano Jack Kramer, outro genial tenista que brilhou nos anos 1940 com três títulos de Grand Slam.

Hoje, a idade do tenista pesa mais. Laver diz que até os 35 anos “eu poderia jogar como quando tinha 21”. O problema era jogar no dia seguinte no mesmo nível. Ao completar 30 anos, o jogo de Federer perdeu consistência. Ele pode ser magnífico hoje, e no dia seguinte volta à quadra com um jogo errático. Mais: o suíço teve uma mononucleose e problemas nas costas. Em 2013, caiu para a sétima posição na ATP. Neste ano, se reinventou: voltou a ocupar a segunda colocação na ATP, perdeu para o sérvio Novak Djokovic, primeiro da ATP, em uma final disputadíssima em Wimbledon. Em vários momentos de brilho, a sensação é de que conquistaria seu 18º título de Grand Slam.

Ao deixar a quadra, Federer disse: “Em 2015 estarei de volta”. As lágrimas de Federer ao derrotar Gasquet, em Lille, também se deviam a outro fator: jogou como um mestre. Se mantiver esse ritmo durante um torneio, poderá ganhar outro título de Grand Slam. Mas o número de vitórias não importa. Importa o prazer que me traz ver seu tênis fluído, elegante e inteligente. Federer continua a ser o Fred Astaire das quadras porque, como diz, “gosto de jogar”.

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