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Número 827,

Economia

Análise/Paul Krugman

Ainda à espera do colapso

por Paul Krugman — publicado 27/11/2014 06h24
O absurdo do que é considerado sabedoria econômica supera até as expectativas mais exageradas
Chatham House/Flickr
Niall Ferguson

Guros econômicos como Niall Ferguson têm afirmado que as estatísticas oficiais subestimam a inflação norte-americana

Se você tem acompanhado a triste história dos paranoicos da inflação nos Estados Unidos, sabe que várias pessoas, entre milionários irritados (como o administrador de fundos de investimentos Paul Singer, o bilionário paranoico em relação à inflação que tem certeza de que os livros foram manipulados), supostos gurus econômicos como Niall Ferguson e outros, têm afirmado nos últimos anos que as estatísticas oficiais subestimam enormemente a inflação norte-americana.

Eu realmente esperava que até Wall Street considerasse embaraçosa a recente arenga sobre hiperinflação nos Hamptons feita por Singer e fingisse que ela nunca aconteceu. Mas não. Aparentemente, a carta de Singer aos investidores circula avidamente por ação de corretores e grandes figuras que pensam que ela é a coisa mais importante depois do foie gras fatiado.

Então, de que se trata? Jesse Eisinger, do ProPublica, recentemente tentou defender uma tese a respeito da raiva dos administradores de fundos. Ele afirma que, embora seja tolice alegar que os livros da inflação foram manipulados, o governo e o Federal Reserve criaram uma falsa sensação de saúde financeira, por isso a percepção geral de que é uma espécie de ilusão está certa.

Desculpem, mas não acredito nisso. Por um lado, se você quiser alegar que os últimos testes de estresse foram todos falsos e que os bancos estavam realmente insolventes, já não deveríamos ter visto uma confissão? Eu diria que, em retrospectiva, está claro que muitos ativos realmente estavam temporariamente subvalorizados por causa do pânico do mercado, e que quando o pânico passou os grandes bancos se mostraram em melhor forma do que muitas pessoas (inclusive eu) acreditavam.

Além disso, Eisinger está apresentando uma análise razoável a pessoas semelhantes a Singer sem tomar por base qualquer evidência que eu possa ver. Sugiro que quando Singer fala sobre moeda depreciada e crescimento econômico falso é porque ele realmente acredita que temos uma moeda depreciada e um crescimento falso nos EUA, e não uma metáfora de algum outro tipo de ilusão econômica.

E de onde vem essa percepção? Eu ainda penso que uma recente análise do economista Brad DeLong  acertou. O que estamos vendo aqui são corretores que examinaram as correlações históricas, enquanto desprezaram a macroeconomia, e concluíram que as baixas taxas de juro certamente subiriam, voltando às normas históricas. Quando essas taxas não subiram, eles olharam para a intervenção do Fed e lhes pareceu um grande corretor distorcendo os mercados, no estilo “Baleia de Londres”, ao fazer enormes apostas que certamente dariam errado. Então eles se sentaram e esperaram pelo colapso.

E o colapso continua não acontecendo, porque o Fed não é um corretor vilão e as normas históricas das taxas de juro não são relevantes em uma economia em desalavancagem, persistentemente deprimida. Mas, em vez de reconhecer que estavam errados, quanto mais que a macroeconomia keynesiana tem algo a lhes ensinar, eles revidam, afirmando: “É tudo falso!”

As pessoas ricas muitas vezes não percebem quando parecem ridículas. Afinal, quem em seu séquito vai lhes dizer isso?

Voltei recentemente de viagem à Argentina. Segundo os dados, o país realmente parece ter uma inflação muito mais alta do que o seu governo admite.

Então, o que está acontecendo? Basicamente, a Argentina, tendo se beneficiado enormemente de políticas heterodoxas depois do colapso de seu conselho monetário em 2001, continuou sendo heterodoxa durante tempo demais e agora experimenta problemas clássicos de país em desenvolvimento, com um persistente déficit orçamentário que está monetizando porque o país não tem acesso aos mercados de capitais, o que por sua vez leva a problemas persistentes de inflação e balança de pagamentos.

Se alguém começar a gritar que estou sendo incoerente ao dizer que o déficit orçamentário e a emissão de dinheiro são um problema na Argentina, porque essas são as mesmas políticas que eu quero para os EUA, a resposta é: sim, são porque a economia americana está em uma armadilha de liquidez, sofrendo de persistente falta de demanda, enquanto a da Argentina está superaquecida.