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Número 827,

Cultura

Livro

A exuberante simplicidade de Sophia Loren

por Rosane Pavam publicado 01/12/2014 06h30
Aos 80 anos, icônica atriz narra o estrelato contra o abandono paterno em autobiografia
Sofia Loren

Sofia Loren no auge, como Risi e Mastroiani em A Mulher do Padre, em 1970

Sophia Villani Scicolone tinha 17 anos, em 1951, quando o diretor da revista de fotonovelas Sogno lhe deu o primeiro batismo artístico. Ela seria Sofia Lazzaro pela beleza “capaz de ressuscitar os mortos”. Até que o produtor de cinema Goffredo Lombardo lhe entendesse Loren, em 1952, inspirado no nome da sueca Märta Torén, a atriz que aprendera a ensaiar sorrisos e lágrimas nas fotografias sequenciais teria de provar a habilidade em ressuscitar de outras intempéries na própria vida.

De beleza engrandecida, desinteressada de intervenções cirúrgicas sobre o nariz, ela romperia o círculo de fome e desprezo a que estivera relegada com a irmã Maria e a mãe, Romilda, para sorver desde a adolescência o sucesso quase sem escalas. As lições vieram cedo, ela que fora abandonada pelo irresponsável pai burguês e de quem, com o primeiro contracheque, ainda compraria o sobrenome negado à irmã.

Ontem, Hoje e Amanhã, uma autobiografia de escrita simples, lançada por ocasião do aniversário de 80 anos, é cuidadosa nas avaliações das pessoas de seu círculo. São sempre extraordinários os que com ela se relacionaram, exceto talvez o pai. Os seus grandes amores foram homens mais velhos. Cary Grant tinha 52 quando ela contava 22, e o próprio marido Carlo Ponti fora seu mentor senhoril. Vittorio de Sica, que a dirigiu para o Oscar por Duas Mulheres, em 1960, comunicou-se com sua alma napolitana de modo paternal. Ela atuaria como sua filha em Pena Que Seja uma Canalha, de Alessandro Blasetti, em 1954, e atrairia sua atenção em Pão, Amor e... (1955), de Dino Risi, que a dirigiria ao lado de Marcello Mastroianni em A Mulher do Padre (1970).

Sophia narra suas histórias de modo a fazer exalar o perfume das ruas e das cozinhas. Conta seus 17 dias de prisão na Itália nos anos 1980, acusada de evasão fiscal, e segreda sempre portar um fogareiro para aquecer o macarrão nas horas distantes de casa. Quer ainda atuar. Assimilou um olhar novo de Cate Blanchett ao final de Blue Jasmine. E, estrela da simplicidade e da eternidade, estuda repeti-lo.

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