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Número 826,

Política

Análise / Wálter Maierovitch

O refúgio de Donnafugata

por Wálter Maierovitch publicado 21/11/2014 05h57
De como a história de Reyhaneh, a moça enforcada no Irã por ter esfaqueado seu estuprador, me leva a reler Lampedusa
AFP
Reyhaneh Jabbari

Reyhaneh Jabbari, 26 anos, foi presa em 2007 por esfaquear o conacional Morteza Abdolali Sarbandi

Homem solitário e leitor compulsivo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa morreu em 1957 com a certeza da não publicação do seu único e histórico romance, Il Gattopardo, lançado no Brasil com o título O Leopardo. Refutado por editora do porte de uma Mondadori-Einaudi depois de parecer contrário escrito com dor de cotovelo por Elio Vittorini, a obra foi publicada um ano depois da morte de Lampedusa pela Feltrinelli, com prefácio de Giorgio Bassani (autor do romance O Jardim dos Finzi-Contini).

Sucesso póstumo, Il Gattopardo tornou-se o maior best seller na história da literatura italiana. No cinema, a adaptação de Luchino Visconti com as interpretações magistrais de Claudia Cardinale e Burt Lancaster, bateu recordes de bilheteria. Pois bem, quando o autor desta coluna é tomado por desilusões e tristezas, refugia-se na sua imaginária e lampedusiana villa de Donnafugata e busca conforto na leitura de uma página de O Leopardo: “Nós fomos os leopardos, os leões. Quem nos substituirá serão os chacaizinhos, as hienas. E todos, leopardos, chacais e ovelhas, continuaremos a nos acreditar como o sal da terra”.

Na minha última estada em Donnafugata, estive na companhia da iraniana Reyhaneh Jabbari. Reyhaneh, 26 anos, decoradora de interiores, foi presa em 2007 por esfaquear o conacional Morteza Abdolali Sarbandi. Acusada de homicídio premeditado, permaneceu presa de 2007 a 25 de outubro de 2014, quando foi executada a pena capital imposta por cinco juízes de um tribunal penal e confirmada pela Corte Suprema do Estado teocrático iraniano.

No processo, a ré Reyhaneh sustentou haver atuado em legítima defesa para escapar de um estupro, no escritório de Sarbandi, que conhecera em um café e que a convidara para conversar a respeito de um projeto de decoração.

Depois de cominada a pena capital pela Justiça iraniana, resta a qualquer condenado, pela regras da teocracia xiita, recorrer à clemência da família da vítima. No caso de Reyhaneh, a família de Sarbandi condicionou o perdão à retratação da afirmada ocorrência de violência sexual. A família de Sarbandi insistia na premeditação sob argumento de a faca, instrumento do crime, ter sido comprada três dias antes do homicídio e numa interceptada mensagem via SMS enviada a um amigo, na qual a condenada dizia: “Penso que o matarei hoje”.

Reyhaneh continuou a sustentar a tentativa de estupro. Dada a recusa a um perdão condicionado à retratação, a execução da pena capital, chamada de homicídio legal por doutrinadores do direito penal, consumou-se no subterrâneo da prisão de Gohardasht, ao norte da cidade de Karaj. Os apelos da Comunidade Europeia, das Nações Unidas e da Anistia Internacional de nada valeram, como já se pressentia.

No sábado 8 de novembro, o jornalista Massimo Gramellini, vice-diretor do diário La Stampa, de Turim, observou, em um programa de televisão de larga audiência, que seria cômodo para Reyhaneh aceitar retratar-se para manter-se viva e livre. Sua consciência falou mais alto. Reyhaneh é um desses casos raros em que o ser humano é o “sal da terra”.

O chefe do Ministério Público iraniano, em nota, procurou, sem sucesso no exterior, contornar o impacto negativo da condenação ao evocar fatos processuais. Por exemplo, Reyhaneh, em um interrogatório inicial, sustentou que uma terceira pessoa estava presente e foi o homicida. Na nota, afirma-se que a faca ensanguentada e a bainha foram apreendidas na residência da ré. Em contrapartida, omite-se ter Reyhaneh ficado, antes do interrogatório,  em isolamento celular por dois meses, sem possibilidade de contatar o advogado de defesa Mohammad Mostafaei, fato confirmado por este em seu blog.

Não bastasse, a Justiça da teocracia iraniana condenou à pena de um ano de prisão, a ser cumprida integralmente em regime fechado, a ativista Ghoncheh Ghavami, de 25 anos. A condenação deveu-se à violação de norma de proibição  ao  tentar assistir, em junho passado, a um jogo de vôlei masculino entre as seleções do Irã e da Itália. Ghavami luta pelo reconhecimento da igualdade de direitos entre homens e mulheres e está recolhida no nada recomendável cárcere de Evin, na periferia de Teerã.

No mundo sunita, mais especificamente na Arábia Saudita, a advogada e ativista Souad al-Shammary tenta se livrar da acusação de insulto ao Islã e invoca o direito natural à liberdade de expressão. Culpada por ter criticado quem usa barba e os vaidosos que se julgam ungidos pelos céus e têm a mão beijada pelos semelhantes. Ou pelas ovelhas?

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