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Número 826,

Cultura

Música

Martinho da Vila reverencia majestade de Noel Rosa

por Ana Ferraz publicado 21/11/2014 05h57
Na Vila Isabel, Noel ainda é reverenciado como o poeta que subiu o morro e consolidou o samba no asfalto também pelo músico que lança 'Enredo'
Pedro Carrilho
Martinho da Vila

"Quando vim morar na Vila, descobri que aqui Noel era Deus"

Do Rio de Janeiro

Calça branca de linho, camiseta da cor do céu carioca numa terça-feira azul e quente, sandália de couro e escapulário no pescoço. De mansinho, Martinho da Vila adentra a quadra da escola de samba que desde 1966 se instalou em seu coração. Com reverência de devoto, varre com o olhar o amplo espaço de pé-direito altíssimo. “É um templo”, define, antes de traçar um arco de tempo que o leva a recuar quase meio século, quando chegou à Vila Isabel atraído pela alma sonora do bairro que nos anos 1930 um poeta franzino e genial colocou no mapa do samba. “Quando vim morar na Vila, percebi que aqui Noel Rosa era deus. Respirava-se Noel em todo lugar. Decidi mergulhar na vida dele e descobri sua importância para a música, para o Rio de Janeiro, para o Brasil. Virei um fanático.”

Antes de Noel, o samba era coisa de negros e favelados. Mesmo o Grupo de Tangarás, a que pertencia, não gostava de samba. E ele, desprovido de preconceitos, subiu o morro, bebeu na fonte, fez parcerias e trouxe o samba para baixo. O gênero evoluiu e hoje está em todas as classes sociais”, analisa Martinho, que acaba de lançar o CD e DVD Enredo, que inclui a homenagem feita pela escola em 2010, centenário do compositor, com o tema Noel – A Presença do Poeta na Vila. Com a cadência que privilegia a emoção no lugar daquela acelerada destinada a levantar a arquibancada, o samba foi calcado na onipresença do compositor que, no dizer do ilustre parceiro Cartola, “zombou da inspiração”. De pena afiada, Martinho, que assume dia 9 de dezembro uma cadeira na Academia Carioca de Letras, driblou a dificuldade de falar sobre a morte de Noel sem deixar o samba triste, “foi um grande chororô quando o gênio descansou, todo o samba lamentou”, escreveu e encantou a avenida.

Como num inexplicável sortilégio, Noel jamais teria abandonado a Vila que sempre teve como pátria, os bares e cafés que frequentou, como o Ponto Cem Réis, hoje Restaurante Capelinha, local de peregrinação de admiradores. “Muita gente acredita que a alma dele transita pelo bairro”, diz Martinho. Satisfeito, enumera afinidades com Noel: “Temos em comum o samba, a criatividade, a poesia e um fato interessante, ele morreu em 1937 e eu nasci em 1938”. Noel imortalizou a Vila de nome de princesa, Martinho incorporou-a ao nome artístico.

João Máximo, autor com Carlos Didier da mais completa biografia do poeta, sente-se perplexo com a perenidade do personagem. “Toda vez que entro num táxi e peço ao motorista que me leve à Vila Isabel o sujeito complementa, ‘ah, a Vila de Noel’.” Credenciado por quase dez anos de pesquisas e por ter passado 75 de seus 79 anos no bairro, o escritor diz que Noel sempre andou na contramão. “Desde o início ele nadava contra a correnteza.” Ao longo de sua curta e intensa vida (26 anos), o poeta teve 56 parcerias musicais, 15 delas inter-raciais. É o primeiro branco a perceber a riqueza do morro e a transformar a música popular em algo completamente diferente. “Noel passa a abordar temas que não eram usados a não ser no carnaval, quando valia tudo. A música romântica da época é quase parnasiana, tudo rimado, direitinho. Ele pega os tipos da cidade, o João Ninguém (João Ninguém/ que não é velho nem moço/ come bastante no almoço/ pra se esquecer do jantar), a Maria Fumaça (Dez vezes por dia/ a delegacia / mandava um soldado/ prender a Maria/ mas quando se via/na frente do praça/ Maria sumia/ tal qual a fumaça), o João Teimoso, o malandro.”

O sujeito avesso ao trabalho institucionalizado usa terno de linho branco e camisa de seda, cuja textura suave é capaz de fazer deslizar o fio de uma eventual navalha, sapato bicolor e chapéu fascina o garoto de precoce vocação boêmia, artéria satírica hipertrofiada e facilidade tanto para a letra quanto para a melodia. Ele compõe em qualquer lugar, a qualquer momento, dentro do ônibus ou numa mesa de café. Anota tudo no primeiro papel à sua frente. Em minutos rabisca versos e, generoso, cede letras a desconhecidos. De compleição franzina, admira os valentões que impõem respeito e se aproxima de tipos hostilizados pela sociedade. “Terá muitos malandros entre os amigos mais chegados, fará o que puder por eles e por eles será socorrido inúmeras vezes”, escrevem Máximo e Didier em Noel Rosa, uma Biografia, lançado em 1990 e esgotado há anos. “Ele andava com pessoas que a classe de sua família abominava, era mulherengo, fumava, bebia e não se cuidava”, frisa Martinho.

Noel é o primeiro compositor a tratar os gays com simpatia. “Fez um samba para um tipo, Madame Satã, não se sabe se era ele, numa época em que havia grande perseguição aos homossexuais da Lapa”, conta Máximo. A composição é Mulato Bamba (Mulato Forte), de 1931 (Ele sempre foi o bamba/ as morenas do lugar/ vivem a se lamentar/ por saber que ele não quer/ se apaixonar por mulher).  Em depoimento ao biógrafo, Almirante (o carioca Henrique Foréis Domingues, cantor, compositor e pesquisador musical, líder do Bando de Tangarás) contou que numa viagem de navio para o Sul, Mário Reis ouve Noel cantar Mulato Bamba. Se encanta com a composição, diz que quer gravá-la e pede ao autor que não mostre o samba a Francisco Alves.

Quando Noel começa a se apresentar com o Bando de Tangarás, ao lado de Braguinha (Carlos Alberto Ferreira Braga), Henrique Britto, Alvinho (Álvaro de Miranda Ribeiro) e Almirante, o repertório ainda é influenciado por cocos, emboladas e toadas. Mas logo se dá uma mudança fundamental. “Na virada da década de 1920 para a de 1930 ocorre uma grande transformação no samba”, pontua Máximo. Desde a libertação dos escravos, há duas grande comunidades negras no Rio de Janeiro, uma de origem baiana, os iorubás, cuja condição social lhes permite comprar casas na Cidade Nova, bairro pobre na região do antigo mangue. Ali se instalam as tias baianas, “doceiras e bordadeiras aceitas pela classe média, que lhes encomedava quitutes e rendas”, cujas festas são chamadas de samba. “Depois a palavra passou a designar um gênero que engloba choro, partido-alto e um samba meio amaxixado composto por Sinhô, Caninha, Donga e João da Bahiana. É música para dançar.” A outra comunidade negra vem do estado do Rio de Janeiro e é formada pelos bantos, “que chegam sem nada e vão subir as encostas do morro. O tipo de samba que farão é diferente. Enquanto os músicos da Cidade Nova apresentavam certa cultura musical, Sinhô tocava piano, Pixinguinha, flauta e sax, os moradores da parte de cima tinham apenas cavaquinho e percussão e eram proibidos de deixar o morro, a não ser no carnaval”.

O samba da Cidade Nova é, portanto, diferente do samba do Estácio de Sá, mais nostálgico e de linha melódica mais extensa. “Estácio é o Morro de São Carlos, que cria a primeira escola de samba, Deixa Falar. É esse samba que vai pegar. O maxixe que encantou a Europa será deixado de lado e figuras como Ismael Silva entrarão em cena.” Parceiro musical de Ismael, Noel ajudará a consolidar o gênero inicialmente considerado distração de vagabundo. Ao longo de dez anos vai compor 227 músicas, em que se revelam tanto o poeta satírico quanto o descrente que extravasa mágoas de amor em canções como a pungente Último Desejo, de 1937 (Às pessoas que eu detesto/ diga sempre que eu não presto/ que o meu lar é o botequim/ que eu arruinei sua vida/que eu não mereço a comida/ que você pagou pra mim). Transcorridos 77 anos da morte do compositor, suas canções permanecem vivas e sua figura não sai da memória afetiva e musical da Vila . “Noel é estudado até hoje. É um gênio, um fenômeno que não se explica”, reconhece Martinho.