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Número 826,

Cultura

Literatura

Chega ao País 'Os Lança-Chamas'

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 04/12/2014 06h30, última modificação 04/12/2014 08h58
No livro de Rachel Kushner, finalista do Book Awards de 2013, até mesmo a arte produzida em cenário apocalíptico sucumbe ao comércio
Camilo José Vergara
Nova York

Nova York, 1970, a paisagem aterradora de "Os Lança-Chamas"

A escritora norte-americana Rachel Kushner guarda há mais de 20 anos um recorte de jornal amarelado. Sem entender direito por quê, ela se apegou a uma reportagem sobre as condições de trabalho de seringueiros na Floresta Amazônica brasileira. “Eu intuía que de algum modo esse artigo sobre a exploração dos soldados da borracha seria fundamental para o meu livro mais recente”, diz Kushner, de 46 anos. O látex das seringueiras amazônicas virou o pilar do império industrial de T.P. Valera, um dos personagens de Os Lança-Chamas (Intrínseca, 352 págs., R$ 33), a primeira obra de Kushner lançada no Brasil. Valera, magnata dono de uma fábrica de pneus e motocicletas, colaborou com a construção de Brasília.

O interesse de Kushner pelo abuso incompassível dos trabalhadores é anterior a Os Lança-Chamas, finalista da categoria de ficção do National Book Awards de 2013. Para escrever o seu livro de estreia, Telex from Cuba (2008), a ficcionista pesquisou sobre as plantações de cana-de-açúcar brasileiras no século XVIII, a mentalidade dos senhores de engenho e os tormentos dos escravos. Em Telex from Cuba, ela recriou a vida na ilha caribenha durante os anos 1950 sob as perspectivas de duas crianças norte-americanas. O avô de Kushner trabalhou para uma mineradora em território cubano.

Em Os Lança-Chamas, a autora seguiu um método diferente do de Telex from Cuba. À maneira de um Marcel, o narrador de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust (o seu escritor preferido), a narradora criada por Kushner se põe a registrar uma compilação de fatos e ideias suscitados pela própria memória. “É por meio de um engajamento com o mundo, e não de uma separação dele, que algo com significado chega a ser produzido”, acredita a escritora.

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Raquek Kushner, que segundo a crítica evoca Proust e Henry James em novo livro

Reno é tão aficionada às motocicletas quanto Kushner. Ambas gostam de dirigir em alta velocidade. O acidente quase fatal de Reno descrito no livro tem inspiração numa queda real sofrida por Kushner enquanto tirava um racha. Nas críticas a Os Lança-Chamas, os resenhistas apontaram as semelhanças entre criatura e criadora. “Mas Reno não é o meu alter ego”, refuta. “Ela é bem diferente, embora tenha certa essência extraída de mim. Todos os meus personagens são parecidos comigo apenas em nível aparente.” Reno tem 21 anos e deseja ser artista em Nova York.

Ela sai do estado de Nevada em meados dos anos 1970 e chega a uma cidade afetada pela desindustrialização. Em cenário apocalíptico, tenta produzir um trabalho para um mercado incipiente que viraria multibilionário nas décadas seguintes. Influenciada pela land art, Reno pretende transformar em obra artística o fascínio por motos e velocidade. Antes de realizar o seu projeto, conhece Sandro, criador de caixas de alumínio à Donald Judd, com quem inicia um relacionamento amoroso. Sandro é um dos dois herdeiros da Moto Valera.

Kushner explora em Os Lança-Chamas as zonas de contato entre o universo da arte e o do mercado. T.P. Valera planeja futuros diferentes para os seus filhos, Sandro e Roberto. O primeiro será artista, uma categoria que abriga, segundo o seu pai, “aqueles que são inúteis para todo o resto”. Conforme os planos do progenitor, Roberto assumirá as funções administrativas do complexo industrial. “Esses dois mundos, o da arte e do comércio, estão cada vez mais interligados. Para mim, representam um dos temas mais misteriosos do século XX”, diz a escritora.

Segundo Kushner, os ideais do modernismo exercem grande sedução, ao mesmo tempo que insinuam uma violência latente. Não à toa, ela inicia o seu romance com a descrição de um ato brutal. Combatente de um batalhão que emprega lança-chamas na Primeira Guerra Mundial, Valera mata um soldado alemão ao golpeá-lo com a lanterna de sua motocicleta. Esse ímpeto compele Valera a expandir o seu patrimônio de maneira implacável, e a exploração de seringueiros no Brasil é um dos exemplos terríveis. A existência da vida contemporânea, Os Lança-Chamas sugere, está submetida a uma tirania constante.

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