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Número 825,

Cultura

Ópera

O teatro da voz

por Ana Ferraz publicado 23/11/2014 09h00
Sob a batuta de Luiz Fernando Malheiro, o São Pedro investe em novas plateias e na lapidação de talentos
Gal Oppido
Theatro São Pedro

A temporada de 2015 oferece de assinaturas de 80 a 280 reais

Quando o maestro Luiz Fernando Malheiro anunciou o desejo de ouvir jovens cantores líricos para formar o elenco da temporada de óperas 2015 do Theatro São Pedro imaginou um cenário pouco inspirador, com meia dúzia de inscritos empenhados em trinados nada afeitos à proposta. Da descrença à perplexidade foram dois sustos. O primeiro ao ser informado de que havia 178 interessados. O segundo ao se ver diante de um celeiro de talentos. “Foram dez dias de maratona de audições, das 2 da tarde às 11 da noite. Nem todos estão 100% prontos e esta é a vocação deste teatro a partir de agora, lapidar”, diz o condutor, que assumiu em junho a direção artística e a regência titular da orquestra do teatro. “Temos um monte de trabalho pela frente.”

O premiado regente de sólida experiência no Brasil e no exterior chega para consolidar a vocação do São Pedro de casa dedicada ao canto. “Em tudo que fizermos no palco sempre haverá voz envolvida. Seja nos grandes ciclos de canções de Gustav Mahler, Johann Strauss ou música brasileira, cujo repertório é imenso, ou trechos de ópera com piano.” Para reforçar o trabalho iniciado em 2013 com a criação da Academia de Ópera, Malheiro pretende ampliar o número de profissionais de produção, “jovens maestros, pianistas, pessoal de cenografia, figurino, iluminação, artes plásticas, vídeo. O objetivo é nos tornarmos independentes na questão de construção de cenários, figurinos etc.” A formação de solistas se dá com a Academia. “Temos 20 cantores e três pianistas e isso vai triplicar no ano que vem.”

Da recém-anunciada temporada 2015, com assinaturas que vão de 80 a 280 reais, participam 109 solistas, 99 dos quais brasileiros, seis de carreira internacional. Há dez nomes bastante conhecidos, entre eles o barítono Paulo Szot, radicado em Nova York, que aceitou o convite por acreditar num projeto de formação de público em que orçamento baixo é superado com criatividade. “Teremos grandes artistas, mas não grandes cachês. Alguns cantarão por um quarto do que recebem.”

O teatro da voz fará 107 apresentações, distribuídas por seis séries: Óperas, Concertos Internacionais, Música de Câmara Brasileira (sob curadoria de Irineu Franco Perpétuo), Tardes de Canções (recitais de canto e piano), Tardes de Ópera (árias e piano) e Cortinas Líricas (trechos de óperas e orquestra). A temporada começa em março com O Amor dos Três Reis, de Italo Montemezzi, montada pela primeira vez no Brasil. Seguem-se Poranduba, de Edmundo Villani-Côrtes, “um mestre, grande compositor, e esta ópera é uma delícia”, Falstaff, de Giuseppe Verdi, Bodas no Monastério, de Sergei Prokofiev, O Homem dos Crocodilos, de Arrigo Barnabé, “uma partitura bem-feita, difícil, que me entusiasmou”, a ser apresentada em dupla com Édipo Rei, de Igor Stravinski. Os admiradores de Szot terão oportunidade de ouvi-lo dias 6 e 8 de fevereiro. No repertório, Mahler, P. I. Tchaikovski, Wolfgang Amadeus Mozart, Carlos Gomes e Richard Wagner.

Fisgado pelo mundo do canto lírico aos 10 anos, quando um primo do pai o levou ao Municipal de São Paulo assistir à La Traviata (“entrar no teatro, ouvir a orquestra ao vivo, as vozes, foi definitivo”), Malheiro primeiro teve de contentar a família. Formou-se em Direito pelo Largo de São Francisco, “mas só entrei no Fórum no meu primeiro divórcio”. Participou do coral da faculdade, estudou dez anos de canto e apaixonou-se por regência. Saber cantar e gostar de lidar com gente foram fundamentais. Independentemente da orquestra, em uma olhada decodifica cada tipo. “Há os encrenqueiros, os que dormem, os agitados...”

A obsessão por técnica vocal refinou a maestria com a batuta. Aprender a respirar com o cantor, sentir a dificuldade de cada um, se a soprano brigou com o marido, se o barítono está indisposto, se os hormônios da solista estão alvoroçados. “São condições que mudam a cor, a elasticidade, o brilho da voz. Minha função é facilitar as coisas para o intérprete manter o padrão. Música é isso, tem de convencer aquela massa de gente de que sua visão da obra é a mais adequada e, mesmo que o sujeito não concorde, que se deixe levar. É uma mágica.”

Afeito a desafios, Malheiro trocou carreira sólida na Europa, nos anos 1990, pela oportunidade de reger em Manaus uma orquestra de músicos do Leste Europeu formada pela mão do acaso. “Movido por Fitzcarraldo, que vive no inconsciente europeu até hoje, um violinista alemão propôs à Secretaria de Cultura um festival de ópera. O governo topou e formou uma fantástica orquestra de tchecos, russos, búlgaros. Assumi o posto de regente em 2000.” Poder experimentar repertório foi saboroso. Assim como é lidar com público jovem, cuja primeira vez em contato com uma ópera é experiência determinante. “Não podemos nos permitir fazer nada mais ou menos. Mesmo sem tradição de frequentar concertos, o brasileiro tem uma sensibilidade impressionante.”

Malheiro prefere o público singelo a uma plateia elitizada e sonolenta. “Não me interessa aquele que pega o avião e vai ao Metropolitan e depois nem sabe dizer o que assistiu.” Em Manaus, num espetáculo que reuniu 18 mil espectadores do lado de fora do teatro, percorreu as fileiras para ouvir depoimentos. “Era gente simples, que nunca tinha visto nada parecido. Alguns, entre lágrimas, agradeciam a oportunidade e diziam jamais ter ido ao teatro por achar que fosse coisa só para doutor. Isso compensa tudo.”