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Número 824,

Internacional

Entrevista - Hatem M’Rad

"Diálogo civilizou o jogo político na Tunísia"

por Gianni Carta publicado 02/11/2014 09h37
O professor Hatem M’Rad fala da vitória do Nidaa Tounès, partido laico e anti-islamista, nas eleições de 26 de outubro. Por Gianni Carta
Fethi Belaid / AFP
Tunísia

As esperanças nascidas em 2011 feneceram pelo caminho

Berço da chamada “Primavera Árabe”, a Tunísia elegeu no pleito legislativo de domingo 26 o partido laico e anti-islamista Nidaa Tounès. O vencedor terá de formar um novo governo de coalizão para obter maioria de 109 cadeiras no Parlamento, o que somente se dará por obra de uma aliança: a bancada do

Nidaa não passa de 85 cadeiras.

Quase quatro anos após terem derrubado o ditador Zine el-Abidine Ben Ali, em janeiro de 2011, os tunisianos levaram ao poder a legenda islâmica Ennahda, eleita nas primeiras legislativas pós-Ben Ali, em outubro de 2011. Hatem M’Rad, cientista político da Faculdade de Ciências Jurídicas, Políticas e Sociais de Túnis, elenca os erros do Ennahda, maioria até janeiro deste ano, quando, sob pressão, entregou o governo a tecnocratas.

“Houve amadorismo político, colapso econômico, insegurança, violência, terrorismo e assassinatos”, diz M’Rad. Sem falar na “ambígua” relação entre uma ala do Ennahda e os salafistas. Segundo a nova Constituição, de promulgação recente, o Nidaa tem duas semanas para formar um governo, mas o mais provável é que espere o resultado do escrutínio presidencial, marcado para 23 de novembro.

Entre os favoritos se sobressai o líder do próprio Nidaa, Béji Caïd Essebsi, o qual, caso eleito, terá ainda maior peso nas negociações para formar uma aliança parlamentar. Premier interino após a queda de Ben Ali e três vezes ministro do ex-presidente da República Tunisiana, Habib Bourguiba, Essebsi, diz M’Rad, “aglutina as opiniões dispersas e protege a população com sua experiência, que inspira confiança. Evocam sua idade avançada, ele vai completar 88 anos, mas gostaríamos de ter o seu vigor”.

CartaCapital: A Tunísia é o berço da “Primavera Árabe”, terminologia não apreciada pelo senhor, mas estaríamos diante de uma consolidação democrática na Tunísia?

Hatem M’Rad: Não aprecio essa expressão criada pelo Ocidente, “Primavera Árabe”, porque é muito generalizante.  Até agora houve somente uma Primavera, a da Tunísia. Todos os outros países a atravessar revoluções estão enredados em guerras civis. Mais: não têm um mínimo de cultura política, partidos políticos críveis, ou uma sociedade civil robusta, como a existente na Tunísia. Em relação à consolidação da democracia, prefiro responder-lhe com maior certeza dentro de duas ou três outras eleições legislativas e presidenciais. No entanto, a criação do “Diálogo Nacional” (em outubro de 2013, com o objetivo de tirar o país da crise política) já civilizou o jogo político e resolveu questões espinhosas. Uma Carta foi promulgada, e eleições marcadas com o objetivo de fomar um governo de união nacional.

CC: Apesar de a legenda islâmica Ennahda ter provado ainda ser capaz de amealhar considerável número de votos, por que tanta surpresa com a vitória do Nidaa Tounès?

HM: Enquanto o Ennahda governou, houve amadorismo político, colapso econômico, insegurança, violência, terrorismo e assassinatos. Mesmo assim, nessas legislativas o Ennahda provou ainda ser um partido tão forte quanto antes, mesmo que tenha obtido 69 cadeiras, ou 21 a menos em relação às legislativas anteriores. O Ennahda é o segundo maior partido da Tunísia após um desastroso governo. O partido ainda mobiliza porque tem boa implantação sociológica. Esse segundo lugar é uma espécie de vitória do Ennahda, pois seus líderes esperavam resultado pior. Isso não diminui o avanço do Nidaa Tounès. Lembre-se que o Nidaa foi criado em meados de 2012. E conseguiu obter maioria em um escrutínio de tamanha importância. A liderança do fundador e presidente do Nidaa, Béji Caïd Essebsi, tem de ser levada em consideração. Trata-se de um aglutinador dotado de cultura e experiência política.

CC: Que tipo de governo pode formar o Nidaa?

HM: Esse tema ainda é prematuro. O Nidaa precisa de 24 cadeiras para obter maioria absoluta, ou 109 cadeiras, exigida para um voto de confiança no Parlamento. A legenda pode aliar-se a partidos laicos similares, ou mais ou menos próximos, como o liberal Afek Tounès, a Frente Popular, ou o centrista Moubadara. O Nidaa Tounès obteria 25 cadeiras. Mas a Frente Popular é uma coalizão ancorada à esquerda e talvez demasiado distanciada do liberalismo do Nidaa. Outra opção é se aliar à terceira força (depois do Afek Tounès), a União Patriótica Livre (UPL), do empresário Slim Riahi. Angariou 17 cadeiras. Trata-se de um partido secular e liberal. No entanto, é populista e próximo ao Ennahda. A última opção é se aliar ao Ennahda. Seria uma aliança contra a natureza, uma espécie de compromisso histórico que pode assustar não apenas seus habituais aliados, mas também os próprios eleitores do Nidaa.

CC: Mais de 45% de jovens com diplomas universitários estão sem emprego. Quatro quintos da força de trabalho estão empregados em setores de baixa produtividade. Numerosas famílias têm dificuldade para sobreviver. Que tipos de reformas são necessárias?

HM: O Nidaa não tem muitas escolhas diante dessa crise econômica excepcional. Deve restaurar o equilíbrio econômico, resolver o desemprego, reduzir o déficit orçamentário e o custo de vida para as famílias, promover o crescimento econômico e o desenvolvimento de regiões pobres, praticando discriminação positiva a favor das pessoas com maiores dificuldades financeiras. A Revolução de 2011 teve início nas regiões mais pobres e abandonadas. A política econômica geral consistirá em implementar o liberalismo social, incontornável para tranquilizar todos, trabalhadores e o mundo dos negócios.

CC: O governo poderá gerar uma situação com os salafistas e, sobretudo, com o Batalhão Okba Ibn Nafaa, ligado à Al-Qaeda e ativo na fronteira da Tunísia com a Argélia?

HM: Pretende restaurar a autoridade do Estado e, provavelmente, o fará, já que isso estava sendo feito pelo governo de tecnocratas. O Ennahda sempre teve uma posição ambígua com os salafistas.

CC: Mas o Ennahda não fez coisas boas?

HM: Seus líderes se revelaram tão oportunistas quanto os empresários do regime de Ben Ali, contra os quais lutaram. Deixaram o país em estado desastroso. Os eleitores não se enganaram ao afastá-los do poder. Foi uma fase histórica do Ennahda no poder. Será lembrada como um contramodelo, ou aquilo que não se deve fazer quando a maioria assume o poder. O Ennahda aceitou, porém, compromissos como a Constituição e se retirou do governo em favor de tecnocratas. Mas sempre agiu sob pressão. Agora, se o Ennahda quer se modernizar, deve abandonar suas etiquetas islamizantes como a Sharia e o salafismo. Fundamental é romper com a Irmandade Muçulmana para mostrar que seu compromisso nacional com a Tunísia supera os elos com a cultura Wahabi da Irmandade Muçulmana, na Arábia Saudita e no Catar. Deve provar seu compromisso com a democracia.