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Número 824,

Economia

Análise/Paul Krugman

Objetivos destrutivos

por Paul Krugman — publicado 07/11/2014 05h06
Os críticos do déficit são insaciáveis e só um prejuízo grave à seguridade social e ao Medicare os satisfará
BRENDAN SMIALOWSKI / AFP
Obama

O presidente Barack Obama tem proposto um caminho moderado e sensato para lidar com o mal-estar econômico nos EUA

Eu realmente concordo com grande parte do que David Brooks escreveu em uma recente coluna no New York Times sobre o mal-estar econômico (nyti.ms/1rpFaFu). Mas o mesmo faz um sujeito chamado Barack Obama, o que me leva a um dos aspectos persistentemente estranhos de nosso atual discurso analítico: os constantes pedidos por um caminho moderado e sensato supostamente situado entre os extremos dos dois partidos, mas que na verdade é exatamente aquilo que Obama vem propondo.

Brooks escreve que: “O governo federal deveria obter empréstimos a taxas de juro atuais para construir infraestrutura, inclusive melhores redes de ônibus para que os trabalhadores possam ir até seus empregos distantes. O fato de o governo federal não ter aprovado leis importantes de infraestrutura é inacreditável, considerando existir um grande apoio dos dois partidos”.

Bem, a administração Obama adoraria gastar mais em infraestrutura. O problema é que uma grande conta de gastos não tem chance de ser aprovada pela Câmara dos Deputados. E esse não é um problema dos “dois partidos”, pois o republicano está bloqueando a lei. Exatamente quantos republicanos você acha que estariam dispostos a assumir um déficit para expandir as redes de ônibus? Lembre-se, são pessoas que consideram a disponibilização de bicicletas para aluguel um exemplo de regime “totalitário”.

Veja também isso de Brooks: “O governo deveria reduzir sua generosidade com as pessoas que não estão trabalhando, e aumentar o suporte às pessoas que estão. Isso significa reduzir os benefícios de saúde para os idosos afluentes”.

Hum. A Lei de Acesso à Saúde subsidia prêmios de seguro para trabalhadores de baixa renda, e paga por esses subsídios em parte eliminando os pagamentos excessivos do Medicare Advantage. Então os conservadores estão comemorando ambas as pontas desse negócio, certo?

É uma coisa incrível. Obama é essencialmente o que costumávamos chamar de republicano liberal, que enfrenta oposição implacável de uma direita muito dura. Mas a moderação de Obama está “escondida” à plena vista, aparentemente invisível aos comentaristas.

O Times publicou recentemente uma pesquisa muito simpática sobre os resultados até hoje da Lei de Acesso à Saúde, também conhecida como Obamacare, ou também “tribunal da morte” e “equivalente moral à escravidão”.

O veredicto? Está indo bem. Houve uma grande expansão da cobertura, acessível para a grande maioria dos americanos. As principais exceções parecem ser as pessoas optantes pela cobertura mínima permitida, que mantém os prêmios baixos, mas deixa grandes copagamentos. E nenhuma das previsões de desastre se tornou minimamente real.

No início deste mês, o Departamento de Orçamento do Congresso nos disse que o déficit federal dos Estados Unidos estava bem baixo – menos de 3% do PIB. No Washington Post, o economista Jared Bernstein comentou que o presidente Obama parecia não levar crédito por essa redução.

Alguém poderia perguntar: o que você esperava? Mas, na verdade, alguns anos atrás muitos analistas afirmavam que Obama teria grandes recompensas políticas por ser o sujeito adulto e responsável e fez o que tinha de ser feito. Pior, algumas reportagens disseram que a equipe política da Casa Branca acreditava nisso.

É claro que era um absurdo, em diversos níveis. Os analistas podem gostar de escrever psicodramas elaborados sobre a percepção dos eleitores, mas as percepções reais não têm relação com esses scripts. A maioria dos eleitores acredita que o déficit aumentou no governo Obama, enquanto só uma pequena minoria sabe que ele diminuiu.

E os críticos do déficit são insaciáveis, nada que não envolva prejudicar gravemente a Seguridade Social ou o Medicare, ou ambos, os satisfará. Ora, é como se destruir a rede de segurança social, e não reduzir o déficit, fosse o seu verdadeiro objetivo.

A obsessão pelo déficit foi imensamente destrutiva como questão econômica. Mas também envolveu grandes erros políticos.