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Número 824,

Política

Segundo mandato

"É crescer ou crescer. Não há saída", diz Delfim Netto sobre economia

por Sergio Lirio publicado 05/11/2014 04h56, última modificação 04/12/2014 14h25
Ex-ministro avalia que não será mais possível continuar o processo de inclusão social na velocidade anterior a menos que o País retome o crescimento
Pedro Revillion / Palácio Piratini

O ex-ministro Delfim Netto já viu e viveu muitas situações em décadas de vida pública. Altos e baixos, euforias e depressões em relação ao Brasil. A experiência, além da inteligência incomparável, faz dele um analista privilegiado e raro da realidade brasileira. Delfim paira acima das paixões ideológicas, acirradas neste pós-eleições, o que lhe permite uma visão acurada da realidade. Ele continua a apostar no País, mas alerta: “É crescer ou crescer. Não há outra saída. Se a presidenta Dilma Rousseff não restabelecer a confiança no setor econômico, vai perdê-la no campo social”.

CartaCapital: O que esperar de 2015?

Delfim Netto: O Brasil vai precisar de um ajuste. Estamos em uma situação desagradável, mas não à beira do Apocalipse, da tragédia. O risco é o seguinte: se não fizermos esse ajuste, o País vai perder o grau de investimento estabelecido pelas agências de classificação de risco. E isso teria um efeito muito grave no fluxo de capitais. Está nas mãos do governo impedir que aconteça.

CC: O mercado falava em tempestade perfeita, o misto de queda do grau de investimento do Brasil e aumento dos juros nos Estados Unidos, mas ela não aconteceu.

DN: Não houve a tempestade perfeita por causa da ação do governo. Quando surgiu a ameaça de rebaixamento da dívida, Dilma Rousseff prometeu, mão na Bíblia, fazer um superávit primário de 1,9%. E os juros nos EUA de fato não subiram. Agora ela terá de agir de novo, como fez naquela ocasião. As coisas pioraram bastante na parte fiscal, consequência, inclusive, da recessão. Ninguém pode esperar um superávit primário de 2% em uma fase de estagnação. E não se pode mais usar políticas fiscais compensatórias, pois o nível da dívida subiu muito e as medidas não têm mais eficácia. O déficit na conta corrente está próximo de 4%, deveria estar perto de 2,5%. E o nosso superávit primário é baixo neste momento.

CC: Qual o ideal?

DN: Não tem mais o ideal. Um superávit maior aumentaria a recessão. O ponto é: temos de voltar a crescer. Não existe outra alternativa. Há sinais desagradáveis na economia, entre eles um aumento da dívida em relação ao Produto Interno Bruto, mas eles podem ser corrigidos. Faz tempo a inflação namora com o teto da meta, na casa dos 6,5%. Mas a meta é de 4,5%, não de 6,5%. Nos últimos meses, caiu, no entanto, a diferença de reajustes entre os preços livres e aqueles administrados pelo governo. Portanto, vejo um rumo de correção. É desconfortável? Sim. Trágico? Não. Complicado, no meu entender, é o déficit em contas correntes. Nos quatro anos do governo Dilma, ele chegou a 270 bilhões de dólares. Uma parte converteu-se em investimento, mas o problema é que o câmbio esteve muito mais valorizado do que deveria. Neste caso, da moeda, o mercado tem feito o ajuste necessário de uns meses para cá. Dilma perdeu a credibilidade no setor econômico por ter sacrificado o equilíbrio fiscal e ter sido um pouco leniente com a inflação. Tudo isso para conservar a inclusão social. Mesmo sem o apoio do setor econômico ela ganhou a eleição, por causa do suporte social, pelo fato de manter os empregos e a melhora dos salários. Aécio Neves teve o apoio do mundo econômico, mas o PSDB continua associado ao descaso com as demandas sociais.

CC: Por que ela não conseguiu manter o ganha-ganha dos tempos de Lula?

DN: Lula é uma coisa diferente, um animal de outro mundo, uma inteligência absolutamente privilegiada. É um diamante bruto. Sempre brinco: se tivesse frequentado a USP, ele estava perdido. Ia conhecer um tal de Aristóteles e começar a pensar que dois mais dois não pode ser cinco. Mas ele tem uma intuição poderosa, e foi beneficiado por um vento de cauda muito grande. Quando começou o governo Lula, a China tinha entrado na Organização Mundial do Comércio. O mundo crescia, os preços da agricultura subiam. Houve um ganho enorme nas relações de troca entre o Brasil e o resto do planeta. Em 2003, 1 tonelada de exportação comprava 1 tonelada de importação. Em 2010, 1 tonelada de exportação comprava uns 1,4 mil quilos de importação. Ou seja, 400 quilos foram o presente externo e Lula teve a inteligência de usar essa benesse para distribuir renda. Quando Dilma assumiu, o vento de cauda tinha se transformado em vento de frente. Ela fez o ajuste em 2011. Depois viu que a economia ia crescer muito pouco e esqueceu o programa que a elegeu. Ela falava em fazer mais com menos. A ênfase era na produtividade. Mas o governo demorou em promover as concessões na área de infraestrutura. Demorou, porém parece ter aprendido.

CC: Então se trata de sacrificar um desses lados, o econômico ou o social?

DN: A questão é avançar sem perder o que foi conquistado. Continuar, no entanto, o processo de inclusão na velocidade anterior não será mais possível, a não ser se o Brasil retomar o crescimento. Não tem outra saída, é crescer ou crescer.

CC: Por que o Brasil parou?

DN: Por ter sacrificado o setor industrial. A desvalorização cambial realizada por Arminio Fraga em 1999 permitiu uma expansão das exportações industriais. Mas o câmbio passou a ser usado como instrumento de combate à inflação, no lugar dos tradicionais mecanismos de política fiscal, monetária e salarial. A partir de certo ponto, a exportação morreu e a importação começou a crescer. A demanda de bens industriais não diminuiu, ela continuou por causa da política de Lula e de Dilma de incluir mais brasileiros no sistema bancário e do aumento da renda. O problema é que o poder de competição da indústria foi destruído. O consumo interno acabou suprido pelos importadores. Depois da recuperação rápida de 2009, a indústria estagnou. E você manteve o consumo por meio do déficit em contas correntes. Como o crescimento dos serviços é ligado àquele da indústria, também foi puxado para baixo. O Brasil ficou mais dependente do desempenho da agricultura.

CC: A indústria tem salvação?

DN: O Brasil abandonou o setor externo desde 1984. Naquele momento, nossa participação no comércio internacional equivalia a 1,3%. Hoje, está no mesmo patamar. A China, em meados dos anos 80, tinha os mesmos 1,3%. Agora chega a 12%. Fizemos coisas importantes no caminho, a estabilização, a inclusão... Mas nunca nos preocupamos com as exportações. Dá para recuperar? Sim. Dois terços do comércio internacional são realizados entre as 500 maiores empresas do mundo. Dessas, 400 estão instaladas no Brasil. Temos de voltar a conversar com essas companhias, discutir maneiras de incluir a nossa economia nas cadeias globais. O câmbio é importante, mas não é tudo. Temos um enorme mercado interno, é fato. Precisamos, porém, do mercado externo para ganhar escala.

CC: O senhor, não é de hoje, defende um diálogo mais ativo entre o governo e o setor privado. Como a presidenta deveria agir?

DN: No discurso de posse ela falou em diálogo. Portanto, a iniciativa precisa partir dela. Se quiser conquistar a confiança do setor privado, precisa se comprometer com uma política fiscal responsável. À medida que o Brasil crescer, é necessário restabelecer as políticas adequadas nas áreas monetária, cambial e de salários. A maior lição do Plano Real era o fato de ter começo, meio e fim. Se a sociedade absorve a ideia, age na direção de realizá-la, as expectativas vão na direção correta. O governo precisa de um programa absolutamente transparente e começar a honrar os compromissos. Se essa abertura ao diálogo permanecer, se houver uma clara disposição de ser transparente, as condições de cooptar o setor privado estarão criadas. Os empresários querem o mesmo do governo, a volta do crescimento.

CC: Por que todas as pontes construídas com o setor privado durante o governo Lula parecem destruídas?

DN: Roubaram da indústria a demanda externa e em seguida a demanda interna. Dilma não vai conquistar a confiança do setor apenas na base da conversa. Vai depender de um programa coerente que envolva uma coordenação mais adequada e uma harmonização entre a política de inclusão e o desenvolvimento. Qual o receio? Se o governo será capaz de levar a cabo um programa que priorize um razoável equilíbrio fiscal. Sem isso, como disse no início desta nossa conversa, corremos o risco de perder o grau de investimento. E aí tudo piora. Há dois anos a desconcentração de renda no Brasil está estável. E estamos perto do ponto em que, pela primeira vez nos últimos anos, quem está na base da pirâmide teria de descer em vez de subir. Se acontecesse, seria uma tragédia. Se não recuperar a confiança do setor econômico, ela vai perdê-lo no flanco social. Está nas mãos dela. Tenho pela Dilma uma grande admiração. Ela tem uma virtude extraordinária, é absolutamente honesta. Talvez desagradavelmente honesta para alguns. O governo tem se aperfeiçoado. Na área de concessões isso é claro. Além disso, o Brasil tem programas magníficos, projetos monumentais, com taxas de retorno gigantescas. Nenhum outro país tem um portfólio tão impressionante. Com um mínimo de inteligência o Brasil vai voltar a crescer.