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Número 824,

Cultura

Cinema

Animação ainda esbarra no orçamento

por Ana Ferraz publicado 09/11/2014 10h17
Apesar de contar com talento e técnica reconhecidos, estúdios esbarram no alto custo de produção de longa metragens
Letícia Moreira

Quatro décadas depois de sair de cena, o sujeito mais encardido da tevê brasileira está de volta. Os muito jovens não o conhecem, mas por certo ouviram falar dele, cujo nome foi parar no dicionário como sinônimo de péssimos hábitos de higiene. Sujismundo, o anti-herói avesso a banho, coroado por moscas atraídas pelo eterno bodum exalado pelo desleixo, foi criado na década de 1970 por Ruy Perotti para ilustrar uma campanha da ditadura em favor da limpeza. Guilherme Alvernaz, filho do animador e sócio da produtora Oca Filmes, reabilitou o personagem e desenhou outros para conviver com a simpatia escatológica que paradoxalmente dele emana, numa série de 26 episódios.

O mercado da indústria de animação vive um bom momento embrionário, avalia Alvernaz, com o entusiasmo de quem herdou o talento do pai, que contava histórias aos filhos com lápis e papel na mão para ilustrar as proezas dos personagens. Prova disso é a estreia nos cinemas do longa Até Que a Sbórnia nos Separe, do gaúcho Otto Guerra, depois de oito anos de trabalho e ao custo de 4 milhões de reais.

Enquanto na Oca os negócios não se concretizam, 95% da receita do estúdio provém da publicidade. A equação é simples, um filme publicitário de 30 segundos ou 1 minuto de duração é resolvido com uma equipe de 20 profissionais, o que resulta na média de 30 minutos de conteúdo ao mês. Um episódio de curta de animação de 12 minutos demanda quatro meses de trabalho e equipe  maior. “Uma temporada de Sujismundo custa cerca de 4 milhões de reais.”

Há várias formas de captar recursos para viabilizar a produção, mas o início do processo depende de parceria com uma emissora de tevê disposta a investir, explica. “O mercado norte-americano é tão forte que você compra um lote de filmes e ganha uma série de animação. Então, por que o sujeito vai colocar dinheiro num produto nacional custoso e demorado?”, pergunta, enquanto olha os personagens de novos seriados criados pela Oca à espera de saltar da bancada para as telas de tevê.

Com reconhecida experiência em efeitos especiais e pioneira no uso de 3D, a Vetor Zero, principal estúdio de animação da América Latina, enfrenta o dilema de desenvolver um produto competitivo que não extrapole o orçamento. A caminhada exige planejamento e, por enquanto, a empresa fundada em 1986 por Alceu Baptistão dedica-se principalmente a comerciais de curta duração. “Nos anos 1980, quem atuava na área tinha formação técnica e eu tinha formação de arte. Fazíamos coisas inacreditáveis e começamos a nos impor pela qualidade”, conta o diretor, remanescente de uma época em que fissurados por computador ainda não tinham destaque suficiente para receber a alcunha de nerds.

No auge do uso publicitário de personagens digitais, em 2000, a Vetor Zero viveu uma era de ouro. Entre os trabalhos de destaque, o comercial em que formigas correm pela sala e em seguida passam voando, impulsionadas pela potência de um aparelho de som, e a tartaruga sedenta que ao  deparar com uma latinha de cerveja caída do caminhão de transporte dá um olé no motorista, faz embaixada, toma a gelada e sai comemorando. “O sucesso foi tanto que todo mundo começou a fazer filme com personagem digital. Hoje há muitos estúdios e uma situação esquizofrênica, ao mesmo tempo que se precisa muito de efeitos digitais, estúdios no exterior estão quebrando. Exemplo clássico é a Rhythm & Hues, que fez o tigre de A Vida de Pi (Ang Lee, 2012). Ganharam o Oscar de Efeitos Visuais e faliram no dia seguinte. Concorrência e pressão para gastar menos pesam no bolso de quem é mais frágil. A força de trabalho é muito cara nos Estados Unidos e por isso muita gente vai fazer na China, onde é mais barato, e no Canadá, que tem muito subsídio.”

“A Agência Nacional do Cinema e órgãos como o BNDES têm interesse em animação, e o mais complicado é fazer um produto competitivo de qualidade que caiba no orçamento”, analisa Sérgio Salles, produtor-executivo da Vetor Zero. “Estamos começando alguns projetos de séries para tevê. Com as leis de incentivo e a reserva de mercado na tevê a cabo é possível captar dinheiro. Produzir uma série de 13 capítulos leva um ano, com custo entre 2,5 milhões e 4 milhões de reais. Temos mercado grande, mas ainda insuficiente para justificar esse tipo de produção.”

Há 35 anos na ativa, a Otto Desenhos Animados, de Porto Alegre, enfrenta com obstinação os percalços do mercado. “Vivo de animação desde 1977. No início, apenas de publicidade, mas queria fazer cinema, portanto, escolhi uma vida monástica e tratei de aplicar recursos na compra de uma truca 35 milímetros e na produção de curtas de ficção e depois num longa-metragem, Rocky & Hudson, os Caubóis Gays. Naquela época sempre havia pequenos aportes da extinta Embrafilme e dos governos estaduais e municipais. Essa escolha nos legitimou para produzir longas e séries atuais”, conta o gaúcho Otto Guerra.

Até Que a Sbórnia nos Separe, totalmente digital, foi produzido com patrocínio e financiamento de diversas instâncias governamentais. “O Brasil é um dos países onde as leis de incentivo à cultura estão muito avançadas. O Fundo Setorial do Audiovisual é a fonte de recursos do nosso cinema.” O longa dirigido por Guerra e Ennio Torresan Jr. é inspirado na peça Tangos & Tragédias e narra as desventuras de dois músicos que fogem de um país chamado Sbórnia depois da chegada do rock. “Dei uma volta ao mundo com o filme, inclusive em países com culturas bem diferentes da nossa, como Armênia e República Tcheca, e ele funciona muito bem.”