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Número 823,

Internacional

Oriente Médio

Os defensores de quem os enganou

por Gianni Carta publicado 28/10/2014 05h51
Impedidos de criar um Estado pelo conchavo anglo-francês, os curdos agora são a única força de terra a proteger o Ocidente contra o ISIS
Aris Messinis/AFP
Curdos

França e Grã-Bretanha disseram não ao sonho curdo

De Paris

Há mais de um mês, o futuro da Síria e do Iraque depende daquele de Kobane, a se defender de jihadistas do fanatismo de um fundamentalista Estado Islâmico (ISIS). No entanto, a cidade curda nas proximidades da fronteira turca ao norte da Síria, resiste bravamente com a ajuda de bombardeamentos dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais contra os jihadistas. “Os curdos vão vencer, embora possa levar mais tempo, visto que os jihadistas estão bem armados”, garante Kendal Nezan, presidente do Instituto Curdo de Paris, a CartaCapital.

Nesse meio-tempo, perderam a vida mais de 700 pessoas, sem incluir as vítimas dos ataques aéreos, de acordo com uma ONG com sede em Londres, o Observatório Sírio de Direitos Internacionais. O destino exerce sua ironia em Kobane e em relação aos curdos. Estes, na linha de frente contra o Estado Islâmico, são a esperança do Ocidente. Pois estes mesmos curdos foram traídos pelo mesmo Ocidente. Trata-se de 26 milhões de curdos, quase um terço da população da França, espalhados por quatro países, Iraque, Síria, Turquia e Irã. Os curdos, em suma, são o povo mais populoso do planeta sem um território. Segundo o semanário francês Le Nouvel Observateur, há 10,5 milhões de curdos na Turquia, 5 milhões no Irã, 3 milhões na Síria e 4,6 milhões no Iraque.

Houve os conchavos para impedir o nascimento do Curdistão no pós-Primeira Guerra Mundial, quando os estadistas ocidentais redesenharam em guardanapos o futuro do Oriente Médio. Deixaram o Curdistão fora do mapeamento executado alegremente entre goles de uísque e baforadas de charuto. Nem por isso, os envolvidos na tertúlia deixaram de ser glorificados nos livros de história. Tal gênero de derrapadas repete-se com a canhestra participação dos Estados Unidos, especialista em tragicomédias. Na quarta-feira 22, remessas de armas e munições despejadas por três C-130 americanos e destinadas aos curdos caíram na zona ocupada pelos jihadistas. Nos vídeos e na internet vemos armas americanas nas mãos do ISIS. Satisfeitíssimo, imagina-se. De fato, entre outras armas e munições, granadas, incluindo as de propulsão por foguete.

O Pentágono culpa o vento, a evocar a desculpa do tenista quando não acerta a bola. Supõe-se que em uma guerra, a previsão do tempo deva ser levada a sério. Houve, segundo o tenente-coronel Steve Warren, porta-voz do Pentágono, 28 lançamentos, e apenas um (graças a Deus, diz o oficial) caiu nas mãos dos jihadistas. Resumiu Warren, para a mídia internacional: “Esse pacote de equipamentos não é suficiente para dar ao inimigo qualquer tipo de vantagem. É uma quantidade relativamente pequena de material. Este material o ISIS já tem”. Mas não é bem assim.

As palavras de Warren reconfortam os despreocupados com a vida de milhares de curdos atingidos por granadas lançadas por jihadistas. Questão muito grave. Demonstra-se como os chamados efeitos colaterais podem matar centenas de civis, no caso curdos. Mais: revelam a incompetência do Pentágono. E muito além das autoridades militares. Óbvia é a ausência de planos e programas para o Oriente Médio. Como disse recentemente a CartaCapital Vali Nasr, reitor do Departamento de Relações Internacionais da Johns Hopkins University: Obama não tem uma política para o Oriente Médio. E como. A política de Obama não parece discrepar daquela dos seus antecessores: defender Israel, custe o que custar.

O cenário talvez se afigure incompreensível para Obama, especialmente no caso do Estado Islâmico, a englobar Síria e Iraque. Para o presidente americano, bombardear é a única solução. E o diálogo? Por que não? Valeria recordar alguns exemplos significativos. Por que o Reino Unido e a Espanha negociaram com o IRA e o ETA?

Inversamente, por que não bombardear a Síria de Bashar al-Assad, como quer a Turquia? Não era esta a única opção de Obama? “Ficou difícil tomar tal decisão”, me diz Nezan, presidente do Instituto Curdo de Paris. As razões? Nezan: “Os EUA não querem o colapso de Assad”. O motivo? Fazia sentido o Exército Sírio Livre (ESL), três anos atrás, a lutar contra o despótico regime de Assad. Mas, e agora? O ESL foi substituído pela Al-Qaeda e suas vertentes. Eis a questão: o que é melhor? Curdos ou extremistas islâmicos? Nezan rebate: “Os EUA preferem Assad à Al-Qaeda”.

Assad recebe ajuda dos EUA, em parceria com o Irã, por incrível que pareça. Eram inimigos de longa data. Amad Saremi, analista político iraniano, diz a CartaCapital: “É incrível, mas Al-Assad se deu conta de que o Irã estava a seu favor”. Claro que estava. O Hezbollah, partido e movimento armado do Líbano financiado pelo Irã, lutou a favor de Al-Assad, que pertence à seita alauita, de fé xiita (como no Irã). Em suma, a geopolítica e a religião fazem com que os inimigos se unam. E, no momento, Washington alia-se a Teerã. Washington mais Irã e mais Síria. Viva a realpolitik.

Nezan fala dos curdos com autoridade. Levavam vida nômade. Atualmente, são unidos por raça, cultura e língua, embora tenham dois dialetos. São um povo, uma comunidade. Como diz Nezan: “Graças aos acordos franco-britânicos Sykpes-Picot, os curdos acreditavam que viriam a ser um país. Os acordos garantiriam, em tese, a existência do Curdistão. No entanto, os impérios não aprovaram o acordo. Preferiram uma divisão entre a Turquia, a Síria, o Iraque e o Irã. Para resumir: o Ocidente nunca quis o Curdistão. E o Curdistão nada tem a ver com Estados fundamentalistas”. Embora de maioria sunita, os curdos têm várias religiões: “Mas a identidade curda – diz Nezan – é mais forte, as religiões não influem nas decisões políticas”.