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Número 823,

Cultura

Cinema

Katharine Hepburn, a mulher do século

por Orlando Margarido — publicado 31/10/2014 05h42
Com 52 filmes na carreira, atriz foi modelo da mulher liberal e autônoma

As longas pernas sempre cobertas por calças e inquietas quando tolhidas por exíguo espaço, a ponto de retirar ela mesma uma pequena mesa de um cenário de tevê para espalhá-las, pareciam inadequadas a Katharine Hepburn. Mas, ao fim da carreira de 52 filmes, a atriz havia feito delas e de outros atributos talvez desfavoráveis a um tipo em vigor no estrelato de Hollywood suas marcas autênticas. Apoiada nelas, com uma altura maior do que fazia supor seu 1,71 metro, tirou proveito mais da atitude irreverente e nem tanto de uma beleza que na adolescência era de proposital androginia. Foi modelo da mulher liberal e autônoma cultivado desde a origem na família esclarecida, o pai médico e a mãe suffragette. Isso até o ponto em que uma ou outra paixão pudesse vergar seu tipo atlético, a principal como sabemos por Spencer Tracy.

É dessa personalidade irrequieta e autoritária que procura dar conta o documentário Katharine Hepburn - A Grande Kate, de Rieke Brendel e Andrew Davies. Consegue o intento mais no material de entrevistas, compromisso a que a protagonista era avessa, do que nos depoimentos apenas curiosos, como o de um sobrinho em tom histriônico. Mas há passagens de suficiente personalidade para encantar e rir, como o momento em que volta a Nova York para um musical e consegue que a construção ao lado paralise os trabalhos no horário em que ensaia. Mulher de um século que foi até morrer em 2003, aos 96 anos, sua voz se fazia ouvir e não afugentou a audiência acostumada nos anos 1930 a musas silenciosas.