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Número 823,

Economia

Análise/Luiz Gonzaga Belluzzo

Cosmopolitismo selvagem

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 29/10/2014 05h47
As classes “cosmopolitas” têm sido decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica a uma melhor distribuição de renda
Andréa Farias Farias/Flickr
Apartheid Social

A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos das almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptos

Em seu rastro de contundências, as eleições presidenciais deixam no caminho os despojos do processo civilizador. Não falo das objurgatórias trocadas entre os articulistas da chamada grande imprensa, ataques que apenas mimetizam os sacolejos e grosserias perpetradas nos Facebooks da vida.

O apetite voraz de muitos brasileiros ricos e bonitos por preconceitos de todos os matizes chegou ao ponto do regurgitamento. Na onda recente de mastigação de impropérios racistas, homofóbicos e regionalistas, tal voracidade encontrou auxílio nos maxilares que proclamavam as virtudes da “meritocracia”.

A prática de negar a boa-fé dos outros, dando a própria como garantida, é dogmatismo da inteligência e farisaísmo moral. A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos daquelas almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptos. A rejeição é mais profunda porque atingiu, de forma devastadora, os sentimentos de pertinência à mesma comunidade de destino, suscitando processos subjetivos de diferenciação e des-identificação em relação aos “outros”, ou seja, à massa de pobres e miseráveis. E essa des-identificação vem assumindo cada vez mais as feições de um individualismo agressivo e antirrepublicano. Uma espécie de caricatura do americanismo.

A rejeição também foi mais ampla porque essas formas de consciência social contaminaram vastas camadas das classes médias: desde os “novos” proprietários, passando pelos quadros técnicos intermediários até chegar aos executivos assalariados e à nova intelectualidade formada em universidades estrangeiras ou mesmo em escolas locais que se esmeram em reproduzir os valores e hábitos forâneos. Isso para não falar do papel avassalador da mídia nacional e estrangeira.

É ocioso dizer que tais expectativas e anseios não são um desvio psicológico, mas enterram suas raízes nas profundezas da desigualdade que há séculos assola o País. Produtos da desigualdade secular e daquela acrescentada no período do desenvolvimentismo a qualquer preço, as classes cosmopolitas têm sido, ao mesmo tempo, decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica ao uso da política fiscal para promover uma melhor distribuição de renda. Isso para não falar dos ataques à redução da pobreza absoluta, acoimada de “assistencialismo”.

Examinado à luz de um projeto nacional capaz de integrar os mais pobres, o cosmopolitismo das classes endinheiradas e de seus clientes revela o seu caráter parasitário e antirrepublicano. Parasitário, sim, porque amparado na internacionalização e na financeirização da riqueza e da renda dos estratos superiores, implica uma modernização restrita da economia, com seu séquito de destruição de empregos e exclusão social.

A dimensão individualista dessas formas de consciência, por outro lado, vem produzindo a desconstituição dos poderes e funções do Estado. Isso vai desde sua incumbência essencial, a de garantir a segurança dos cidadãos até o bloqueio sistemático da universalização das políticas de saúde, educação e previdência, marca registrada da “modernidade”, tão proclamada pelos Senhores da Terra.

Nas confrontações que hoje assolam a política brasileira, nada mais velho do que o novo.  Há um empenho edificante na troca de máscaras, enquanto o rosto do poder real permanece esculpido em sua pétrea solidez. O disfarce de maior sucesso no momento foi confeccionado por mãos hábeis. Os artesãos do cosmopolitismo selvagem ensaiam esculpir com novos cinzéis as formas petrificadas do velho arranjo oligárquico.  Os escultores altamente qualificados nos ofícios da mesmice secular encaixam, sem ajustes nem atritos, a persona da mudança nos rostos dos velhos donos do pedaço.

O cosmopolitismo abstrato, e não raro vulgar, mal consegue esconder a ferida que Nietszche desvendou nas profundezas da alma das sociedades massificadas: a diferenciação de atitudes, estilos, modos de ser são tão semelhantes entre si que, afinal de contas, não há nenhuma diferença entre eles. Condenados ao ciclo infernal do “eterno retorno do mesmo”, os “modernosos” da globalização tiveram os seus dias de glória ao proclamar o Fim da História. Hoje, o que vemos são cadáveres boiando na maré vazante da crise financeira global. Quanto mais crédula a adesão às torrentes da mercantilização universal, mais rasa a poça d’água em que terminam por se afogar os profetas do passado. Que São Pedro tenha piedade.

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