Você está aqui: Página Inicial / Revista / Especial Eleições / A poesia de Murilo Mendes ganha belas reedições
Número 823,

Cultura

Literatura

A poesia de Murilo Mendes ganha belas reedições

por Rosane Pavam publicado 02/11/2014 09h38, última modificação 03/11/2014 05h59
'Poemas', 'Convergência', 'A Idade do Serrote' e 'Convergência' abrem a série de obras que serão relançadas pela Cosac Naify
Reprodução
murilomendes.jpg

Retrato de Murilo Mendes, de Guignard (1930)

Ninguém tira de Murilo Mendes (1901-1975) o título que se dá aos melhores. Um desses melhores com o tempo sempre a favor. Talvez não pareça tão exato como agora que tivesse recebido em 1972 o Etna-Taormina, prêmio que agraciara Giuseppe Ungaretti ou Dylan Thomas. Pois tudo o que nesse poeta parecia raro no outro século, a sua capacidade de se estender do surreal àquilo que era duro e moderno, pode ser saborosamente comprovado pelo novo leitor, do mesmo modo que cruelmente exigido de um poeta presente (a crueldade em pedir que se repita o feito por Murilo Mendes de maneira tão exclusiva).

Chegam quatro dos volumes nos quais são luxuosamente reeditadas as palavras desse universal brasileiro, entre as demais que virão no decorrer dos meses pela Cosac Naify. Sob a exata organização de Júlio Castañon Guimarães, Murilo Marcondes de Moura e Milton Ohata, seu desenho surge mais fino a cada vez.

Em Poemas (128 págs., R$ 32,90), o primeiro livro, a herança cultural veste ácido do humor (Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturamos de Veneza. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista.) No último livro, Convergência (256 págs., R$ 36,90), o tom paródico reaparece, banhado nos metais da polifonia (No meio do caminho da poesia selva selvaggia/ Território adrede/ Desarrumado/ Onde palavras-feras nos agridem/ Encontrei Carlos Drummond de Andrade/ esquipático fino flexível ácido lúcido até o osso). A Alberto Guignard, que lhe pintara o retrato, o Mendes evocativo da paisagem faz lembrar, em Antologia Poética (288 págs., R$ 99): Dorme, Ouro Preto, dorme teu sono de solidão.

A maravilha é que nem se importasse em colocar poesia na prosa, como no memorial A Idade do Serrote (192 págs., R$ 36,90). “Fazia escuro, fazia medo no corpo de Etelvina”, diz sobre a ama de leite. Ou sobre Teresa (tantas as mulheres retratadas pouco a pouco): “Não posávamos para nenhum filme, nem para a eternidade. Não éramos somente animais: também vegetais. Confundíamo-nos com as folhas, comíamos folhas; sedentos, disponíveis um para o outro”.

registrado em: , ,