Você está aqui: Página Inicial / Revista / Dilma com a palavra / As novas emoções de Roberto Alvim
Número 822,

Cultura

Teatro

As novas emoções de Roberto Alvim

por Alvaro Machado — publicado 25/10/2014 06h39
Versão do dramaturgo para 'Terra de Ninguém', do britânico Prêmio Nobel Harold Pinter, fica em cartaz na cidade até o domingo, 26
Edson Kumasaka
Roberto Alvim

Em nome da "densificação", Alvim promove cortes radicais de texto, reduz iluminação e elimina cenários

Ao transferir-se do Rio de Janeiro para São Paulo, em 2006, o dramaturgo carioca Roberto Alvim, de 41 anos, encontrou terreno sólido para implantar em definitivo o estilo teatral que chama noir, nome do clube-teatro mantido na região do Baixo Augusta. Depois de amargar 15 textos demolidores de Bárbara Heliodora, a temida decana da crítica, Alvim ganhou prêmios da Pauliceia. Neste ano, a cidade franqueou-lhe teatros fora do circuito cult, como o Sesc Vila Mariana, que recebe sua montagem mais ambiciosa, Terra de Ninguém, do britânico Prêmio Nobel Harold Pinter, em cartaz até o domingo 26. Até a ópera passou a cortejá-lo, em setembro dirigiu Artemis, em temporada de homenagem aos 150 anos do compositor Alberto Nepomuceno, no Theatro São Pedro.

Suas peculiares encenações recebem adesão de público, sobretudo, na casa dos 30 anos, mas irritam mestres como o diretor Antunes Filho, que o chamou publicamente de “moleque” ao assistir montagem de 2006, quando acusou-o de deturpar os clássicos. Em nome de “densificação”, o carioca, autor de 18 peças encenadas, promove cortes radicais de texto, o que reduz espetáculos para uma média de 40 minutos, diminui ao máximo a iluminação e abole cenários. Em vez de contracenar, os atores dirigem-se ao vazio à sua frente. O gosto pela mecânica interna do drama, a prevalecer conceitos filosóficos sobre ilusão e fantasia, vem em parte da formação na Casa das Artes de Laranjeiras, orientada pelo crítico Yan Michalski.

Em pouco tempo, Alvim tornou-se referência em dramaturgia e passou a lecionar em todas as instituições de formação teatral brasileiras, bem como na Bélgica, Alemanha, Suíça, França, México, Uruguai e Argentina. Promove mostras de novos dramaturgos, cujos textos publicou em 2012 em oito livros para a Editora 7 Letras, incluído um volume com suas teorias, Dramáticas do Transumano, em tradução para o espanhol e o alemão.

Seu teatro “noturno” enraíza-se na admiração pelos contos góticos de Edgar Allan Poe, lidos a partir dos 8 anos, e numa introspecção inata, que culminou em 1995 em uma mudez tão irredutível quanto a da diva interpretada por Liv UIlmann em Persona, de Ingmar Bergman, Alvim saiu do palco carioca para isolamento voluntário de 21 dias, em uma cabana de fazenda abandonada no Piauí. “Em estado meditativo, eu não operava mais linguisticamente.” Não teve a assistência de enfermeira, como no filme sueco, mas o apoio esclarecido do pai, Roberto Alvim, cientista, ex-vice-presidente do Clube de Astronomia do Rio, e da mãe, Iara Pinheiro, de origem maranhense, professora de Teologia, que chegou a se corresponder com o papa Bento XVI. “Em meu problema, mamãe viu esperança de santificação para o filho ateu.” Com as bênçãos do firmamento sertanejo, em todo caso, Alvim Jr. retornou ao convívio social e à carreira, aplaudida em especial por colegas como Enrique Díaz. Aos 27 anos, assumiu a direção artística da sala experimental do Teatro Carlos Gomes, no Rio, e em 2005 criou, no Teatro Ziembinski, o Centro de Referência da Dramaturgia Contemporânea e o movimento Nova Dramaturgia Carioca.

O teatro de pesquisa de linguagens do Rio encontrava-se parcialmente em suas mãos, mas no ano seguinte, ao ver Juliana Galdino em Antígona, durante turnê carioca de Antunes Filho, razões do coração e uma intensa admiração artística determinaram a mudança para São Paulo. “Fiquei hipnotizado pela capacidade da atriz de transfigurar tempo e espaço. Não só lhe propus trabalho, mas a pedi em casamento.” Ao encarar o reinício, enfrentaria a ira de Antunes, notoriamente ciumento de seus atores principais. “Quando vai festejar a Juliana ele faz gestos e diz ‘tirem esse chato daqui’.”

Em 2012, veio o sucesso unânime de crítica e prêmios APCA e Governador do Estado pelo ciclo completo das tragédias de Ésquilo, uma delas encenada em 19 minutos. Juliana tem estrelado várias montagens do marido, entre elas O Quarto, de Pinter, com o qual Alvim se correspondeu em 2008, a fim de liberar cortes e mudanças em rubricas: “Meses antes de morrer, ele entendeu meus pontos e disse-me para seguir minha intuição”.

A exemplo do elogiado Tríptico Beckett, em turnê nacional, Alvim tem cacife para valer-se de estrelas da tevê. No novo Pinter, reúne Luís Melo, Edwin Luisi, Caco Ciocler e Pedro Henrique Moutinho. Na única peça do autor a abordar caracteres homossexuais, o diretor enxerga paralelos com Francis Bacon: “Além de semelhanças biográficas, o pintor tem aqueles rostos instáveis, dentro de arquiteturas tortas, na direção de um transumano”, ou seja, conforme seu projeto de substituir paulatinamente, na arte, “emoções catalogadas, como ciúmes, ternura ou raiva, por outras novas”.

registrado em: ,