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Número 822,

Política

Rio de Janeiro

Crivella x Pezão, o fiel e o “plebeu”

por Miguel Martins publicado 21/10/2014 05h31
O governador Luiz Fernando Pezão coloca-se como homem do povo e ataca a Igreja Universal, de Marcelo Crivella
Lucas Figueiredo/ Pezão 15 e Antonio Cruz/ Agência Brasil
Rio de Janeiro

Pezão tem 56% e Crivella, 44%, diz o Datafolha

Botão Eleições 2014No primeiro debate do segundo turno para o governo do Rio de Janeiro, o controverso pastor Silas Malafaia foi convidado a fazer uma pergunta ao candidato Marcelo Crivella, do PRB. Tratou de adiantar a relação entre a sua intervenção e “a nossa dimensão de fé”. Após criticar a posição de Crivella em se definir como bispo licenciado, Malafaia lembrou o fato de o candidato ser sobrinho do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, e atacou o império midiático controlado por seu tio. À frente do ministério Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus, Malafaia reclamou do cancelamento por Macedo de concessões de tevê antes sob controle de outras igrejas evangélicas. “Se você não considera seus irmãos de fé, como integrantes de outros segmentos religiosos vão acreditar em você?” A resposta veio em tom de contra-ataque. “As pessoas conhecem suas relações com este governo e seus interesses”, devolveu o candidato.

O governo a que se refere Crivella é o de Luiz Fernando Pezão, do PMDB, seu opositor no segundo turno. Vice-governador nos dois mandatos do correligionário Sérgio Cabral, que renunciou ao cargo em abril deste ano, Pezão tem adotado desde 5 de outubro a estratégia de vincular Crivella à Universal para desestimular o voto de eleitores de outros credos. A julgar pelas pesquisas, a tática parece surtir efeito. Um levantamento do Datafolha divulgado na quarta 15 coloca Pezão à frente com 56%, ante 44% de Crivella. A alta na rejeição do ex-ministro da Pesca de Dilma Rousseff impressiona: 43% dos eleitores afirmam não votar no candidato do PRB de forma alguma. No primeiro turno, o mesmo instituto apurou uma taxa de 15%.

A estratégia do PMDB é, contudo, arriscada. Os ataques à Universal levaram o mesmo Malafaia, antes propenso a apoiar Pezão, a xingar o marqueteiro do pemedebista de “idiota” em sua conta no Twitter. “Sempre fiz críticas a Edir Macedo, jamais à Universal.” Em um estado no qual mais de um quarto da população declara-se integrante de algum culto cristão protestante, a comunidade evangélica, apesar das divisões internas, costuma votar em bloco quando um dos candidatos é um “irmão”. A aliança de Crivella com o ex-governador Anthony Garotinho, do PR, terceiro colocado no primeiro turno com 19,7% dos votos, reforça essa tendência.

A fidelidade política dos evangélicos não é, porém, suficiente para dar a vitória a Crivella. O candidato tem feito o possível na campanha para se mostrar defensor do Estado laico e procura desidratar o discurso de ódio contra homossexuais comumente propagados por neopentecostais da estirpe de Malafaia e do deputado Marco Feliciano, o terceiro mais votado em São Paulo. Na campanha, Crivella afirma possuir um parente gay e defende a criminalização da homofobia.

Sua aliança com o petista Lindbergh Farias, quarto colocado no primeiro turno, estimula Crivella a abraçar uma campanha ainda mais ecumênica. O cientista político da PUC Antonio Alkmim lembra que a tradição trabalhista inaugurada no estado após a eleição de Leonel Brizola, em 1982, foi a principal força até a eleição de Cabral em 2006. Os ex-governadores Marcello Alencar e Garotinho prosperaram à sombra do PDT de Brizola. “O governo Cabral ‘zerou’ a política no Rio”, comenta. “O ex-governador obteve um alinhamento político entre União, estado e capital e tirou do campo popular o tema da segurança pública. Ele é a força que acaba com o ciclo brizolista.” Os apoios de Garotinho e Lindbergh a Crivella poderiam, contudo, resgatar a tradição popular no estado, avalia Alkmim.

Enquanto associa seu oponente à Universal, Pezão também tem seu calcanhar de aquiles. Aprovado por apenas 20% da população no fim do ano passado, Cabral é quase invisível na campanha do PMDB. No horário eleitoral, Pezão é retratado como um homem simples e hábil no diálogo com a população mais pobre. O objetivo é distinguir-se do antecessor, cuja imagem está associada a farras em Paris em companhia de Fernando Cavendish, empreiteiro ligado ao bicheiro Carlinhos Cachoeira, e ao uso pessoal de helicópteros do estado em meio aos protestos cariocas de junho do ano passado, os maiores do País. Deu certo. O atual governador terminou na liderança após passar boa parte da campanha espremido entre os dois candidatos evangélicos. No levantamento recente do Datafolha, a aprovação do governo fluminense saltou de 24% para 33%.

Forte na zona sul carioca e em regiões interioranas do estado como o Vale do Paraíba, onde fez sua carreira, Pezão tem a preferência de 71% do eleitorado mais rico, segundo o Datafolha. A força de Aécio Neves entre a elite carioca o coloca em uma situação delicada. Apesar de declarar voto em Dilma, Pezão convive em harmonia com o chamado “Aezão”, grupo liderado pelo vice Francisco Dornelles, do PP, favorável ao candidato tucano à Presidência. “Pelo perfil social e geográfico, o Pezão tenderia a ir para o lado do Aécio”, afirma Alkmim. “Mas ele não pode ignorar o maior potencial de crescimento de Dilma no Rio, pois o voto de Marina Silva no estado pertencia ao campo popular.”

Pezão precisa driblar outra dificuldade. Embora afável, não costuma sair-se bem em debates. Crivella é articulado e harmoniza com talento sua filiação cristã ao discurso laico. Sobre sua experiência como ministro em sabatina ao jornal O Globo, Crivella mostrou-se um estadista e um fiel. “O peixe é um animal fantástico. Basta um quilo e meio de comida para engordar um quilo. Não à toa Jesus multiplicou os peixes.” Resta saber se a fé, que aparentemente move montanhas e multiplica peixes, é capaz de garantir uma vitória nas urnas. Para multiplicar votos, Crivella precisa ir além da religião.