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Número 822,

Sociedade

Análise / Afonsinho

O dilema e o tempo

por Afonsinho publicado 20/10/2014 05h24
As Olimpíadas vêm aí. A Seleção se apresentará com a mesma concepção atrasada ou deve mudar em cima da hora?
André Borges GDF
Futebol

A seleção sub 23 do Brasil venceu os Estados Unidos em amistoso no último dia 13 de outubro

A diferença de um time treinado por quem tem grande vivência dentro do campo e principalmente quem tem longa experiência no ambiente da Seleção é o que se pode aproveitar dos jogos contra Argentina e Japão. Dunga não entra naquela de longo prazo para renovação e o rosário de detalhes de “estrutura” que os “professores” precisam para trabalhar. Todos são necessários, mas nada de misturar as estações, “cada macaco...” Não basta, nem é obrigatório, ter sido jogador, ainda que tenha sido destacado. São funções diferentes, que exigem aptidões distintas.

Embora tenha tempo de casa suficiente, tempo de menos como treinador e saiba que precisa ser “político” no trato com os interesses à sua volta, Dunga foi novamente traído pelo temperamento. É um cowboy que não enjeita paradas. Cartolas adoram usar isso. Os resultados se prestam como trégua, podem servir para atrasar ainda mais a recuperação do futebol brasileiro. Melhor ganhar do que perder, claro: desanuvia o ambiente. Depressão não ajuda em nada. O gaúcho estimula a coesão entre os jogadores, a confiança que ele representa, o fator principal num trabalho coletivo que aguenta o repucho nas horas difíceis. Nada a ver com famiglias.

Individualmente, a mesma coisa: Neymar terminou mal a Copa de 2014 em todos os sentidos. Agora, apesar da irregularidade, graças à sua criatividade extraordinária, faz muitos gols e tem a oportunidade de um fôlego enquanto se recupera e volta à melhor forma. Vida de jogador é assim: “Enquanto descansa, carrega pedras”.

No jogo contra a Argentina, destaque para o momento especial do Tardelli. Acompanhar os momentos que antecederam o arremate do primeiro gol e admirar o elevado grau de acuidade do jogador no auge da forma. Antes mesmo de a bola chegar aos dois adversários que bateram cabeça à sua frente, deu dois passos atrás e se ajeitou para finalizar. Lance para se admirar e estudar a percepção apurada. Instinto? Participou bastante das ações defensivas, outro sinal do espírito coletivo incentivado pelo técnico.

Do lado “hermano”, assim como durante a Copa, dá gosto ver o ponto mais alto da maturidade de um jogador como o Mascherano. Sem ter os atributos que se requer de um craque, faz tudo com a simplicidade que só a qualidade pessoal, associada ao tempo de estrada, pode conferir. É um prazer. Já a volta do Pirlo à seleção italiana e a atitude do selecionador da Azzurra correspondente ao nosso. O grande maestro não vai chegar à próxima Copa, mas seu papel na construção de um novo trabalho é imprescindível. Agradecemos aos deuses do esporte por estenderem um pouco mais o tempo da sua arte.

Isso tudo ajuda a entender as convocações do Dunga. O técnico escolhe o que pensa ser o melhor para o momento; vencer o adversário da vez enquanto vai testando um ou outro de acordo com seus conceitos. PC Caju solta marimbondos com a não convocação do Ganso, chamou de “o Gansinho feio” da Seleção do Dunga. A intimidade do meia são-paulino com a bola é outro caso a ser pesquisado, tamanha a interação entre os dois. Tornam-se uma coisa só, coordenação absoluta. Claro que o técnico da seleção reconhece a genialidade do craque. São os tais critérios.

Por outro lado, perdemos um tempo de que não dispomos. As Olimpíadas vêm aí. Vamos com a mesma concepção atrasada ou vamos mudar em cima da hora? Vivemos esse dilema. O esporte brasileiro precisa de muito mais que isso, a cada dia outras marcas de descontrole, verdadeiros absurdos tornam a situação caótica.

Contradições se chocam a todo o instante. Louvamos a extinção do elitista “Clube dos 13” e vem a notícia de cinco reuniões para a criação de um grupo de equipes sul-americanas com objetivos semelhantes. Retrocesso. Romário anuncia que vai insistir na CPI da CBF, como presidente vai ter no América do Rio a chance de pôr em prática suas concepções. Aumentam os comentários de pressão por parte dos patrocinadores sobre os (des)organizadores do esporte brasileiro.

O crescimento do futebol norte-americano pode ser de grande influência na administração da Fifa. A Índia inicia seu primeiro campeonato depois da formação de uma liga nos moldes modernos e vem aí com sua população extravagante. Vai levar algum tempo, Zico está lá, outra vez a veia lusitana de desbravador. Mercados.

P.S. 1: Os programas do tipo sócio torcedor promovem o pagante ou são apenas mais uma fonte de renda?

P.S. 2: A CBF esvazia o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil, pontos perdidos.