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Número 822,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Curandeiros da economia

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 22/10/2014 05h37
Os mercados desabaram, mas os “cientistas” nativos seguem em seu labor de reencantamento do universo

Leio com interesse os manifestos dos economistas lançados ao público no fragor da batalha eleitoral. Na efervescência cívica, 164 economistas desfilaram críticas e sugestões de política econômica, abstendo-se de declarar a intenção de voto.

Ao manifestar suas preferências eleitorais os indivíduos portam-se como cidadãos, ao negá-las os cidadãos economistas se consomem nos desvarios que, não raro, acometem os “indivíduos racionais”.  Seria bem-vinda a conversão republicana dos que ousam abandonar, ainda que temporariamente, os confortos da razão tecnocrática.

A leitura do manifesto dos 164 ligou minhas antenas em Jorge Luís Borges, gênio da crítica à razão instrumental, aquela que seduz economistas e quejandos. Borges falava obsessivamente do enigma do texto e de sua inevitável reconstrução pelo leitor.

Nas pegadas de Borges, releio o texto do Independent  Evaluation Office (IEO), órgão do FMI incumbido de decifrar os enigmas embutidos nas análises e projeções macroeconômicas da instituição. Na posteridade da crise, o IEO soltou os cachorros nas previsões dos macroeconomistas do Fundo. Assim como os signatários do manifesto, os sábios do FMI não tugiram nem mugiram quando já eram ensurdecedores os ruídos da crise que se avizinhava. Hoje, os economistas do Fundo reconhecem a persistência da crise.

Na visão do comitê independente, os erros crassos e as omissões bizarras, decorreram do “aprisionamento dos grupos homogêneos e coesos nos paradigmas convencionais sem questionar suas premissas básicas” . A crença na baixa probabilidade da eclosão de crises já está inscrita nas premissas dos modelos utilizados por instituições de prestígio nacional e internacional. O que está suposto no início é concluído no fim, um típico ritual tautológico da inteligência econômica contemporânea. O ritual e os salamaleques são celebrados em todos os templos do planeta encarregados de assegurar as crenças nos dogmas da Ciência Triste. Encantados com o mito dos modelos Dinâmicos Estocásticos de Equilíbrio Geral (DSGE, em inglês), os sacerdotes submetem-se aos ritos do rigor formal para encobrir as fragilidades teóricas e conceituais. Na interpretação do relatório do IEO, esses modelos “incluem o dinheiro e os mercados de ativos financeiros de uma forma rudimentar... mas talvez seja mais preocupante a sobreutilização pelos economistas de 'modelos' como únicos instrumentos válidos para analisar processos econômicos muito complexos”.

Nem mesmo a dinâmica nada estocástica da crise financeira convenceu os crentes recalcitrantes a mudar suas premissas a respeito das inter-relações entre mercados financeiros, crédito e moeda no – cruz-credo, saravá treis veis, xô palavra mardita – capitalismo moderno.

Na aurora da crise financeira, Willem Buiter, hoje economista-chefe do Citigroup, apontou as armas da crítica na direção dos sistemas financeiros “intrinsecamente disfuncionais, ineficientes, injustos e regressivos, vulneráveis a episódios de colapso”, um exemplo de “capitalismo de compadres”, sem paralelo na história econômica do Ocidente. “É uma questão interessante, para a qual não tenho resposta... Não sei se os que presidiram e contribuíram para a criação e operação (desse sistema) eram ignorantes, cognitivamente e culturalmente capturados ou, talvez, capturados de forma mais direta e convencional pelos interesses financeiros”.

Captura intelectual é uma expressão eufêmica para designar as genuflexões diante do pensamento dominante, numa prova de que o entendimento iluminista sucumbe a seus próprios mitos. Na Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer espantam-se diante da “disposição enigmática das massas tecnologicamente educadas a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo qualquer.” A recaída do esclarecimento na mitologia não deve ser buscada nas mitologias singulares, “mas no próprio esclarecimento paralisado pelo temor da verdade”.

As crises financeiras multiplicaram-se desde os anos 1980. A despeito dos sucessivos episódios de falência múltipla dos órgãos da economia global, não há sinais de autocrítica ou de contrição nos falanstérios do solipsismo econômico Não há “choque de realidade” suficientemente “robusto” para comprometer o prestígio dos curandeiros dos mercados desimpedidos. Tampouco, as sociedades massacradas angariam forças para contestar o poder dos patrões da finança e de seus aliados, nos bancos centrais e na academia.

Os mercados desabaram, na quarta-feira, 15 de outubro, desencantados com os dados da Europa, dos Estados Unidos e da China. Enquanto isso, os “cientistas” nativos prosseguem em seu labor de reencantamento do mundo. É cedo para celebrar as exéquias dos mitos da economia pseudocientífica.

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