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Número 821,

Política

Análise / Mauricio Dias

Sururu no ninho tucano

por Mauricio Dias publicado 11/10/2014 08h56
A reeleição separa os projetos do mineiro Aécio Neves e do paulista Geraldo Alckmin
JF Diorio/Estadão Conteúdo
Tucanos

Alckmin e Aécio veem de forma distinta a regra da reeleição criada por FHC

A obrigatoriedade de acabar com a reeleição, imposta por Marina Silva a quem buscar o seu apoio para o segundo turno, pode criar um sururu na convivência política entre os tucanos, caso Aécio Neves ganhe o combate contra a petista Dilma Rousseff.

Nem tudo é incoerência na cabeça da candidata do PSB derrotada no primeiro turno. A imposição é coerente com a declaração da candidata ao entrar na disputa à Presidência. Marina antecipou o tema ao aceitar disputar a eleição e propôs simultaneamente um problema para os adversários, caso perdesse na primeira fase, como de fato aconteceu.

A ex-ministra afirmou que “não disputaria a reeleição”, caso ganhasse. Com a voz mansa apresentou-se então como simples passageira na disputa pelo poder. Exibiu aparentemente um despojamento de maiores ambições políticas ante o eleitor. Para ela bastava a Presidência apenas uma vez. Cautelosa, não prometeu reconstruir o Brasil em quatro anos.

Aécio Neves evitou, dias atrás, assumir esse compromisso de não se candidatar à reeleição, se ganhasse o páreo. Tangenciou o tema. Meses atrás, garantiu que iria propor, em qualquer circunstância, o fim dos dois mandatos. Preferia esticar o governo de quatro para cinco anos. Parecia uma declaração vã e inútil, quando, na verdade, era um aceno firme dirigido ao governador paulista Geraldo Alckmin, àquela altura já sustentado por um porcentual de intenções de votos capaz de finalizar a disputa no estado no primeiro turno. E assim ocorreu.

O nome de Alckmin era cogitado, agora ainda mais, como o candidato do PSDB à Presidência em 2018. Uma aspiração em princípio inarredável. Caso Aécio vença, o projeto do governador paulista reeleito e o presidente eleito entram em rota de colisão.

Por que o paulista Alckmin botaria café no leite do mineiro Aécio em 2014? A eliminação da reeleição presidencial com extensão do mandato para cinco anos não é de tão fácil execução. Cinco anos a partir de quando? Do fim do mandato atual de quatro? O presidente, eleito agora para quatro anos, proporia a extensão do próprio mandato em um ano para acabar com a reeleição? Ou seja, trocaria três anos por um? A Presidência seria descolada dos quatro anos do Congresso?

O tempo político não coincide com os interesses em jogo. Alckmin sairia do poder em São Paulo um ano antes de o presidente vitorioso em 2014 deixar a Presidência? Os governadores eleitos agora e os prefeitos preparados para disputar a reeleição em 2016 aprovariam a mudança?

O senador mineiro é conhecido como um político de palavra. O avô dele, Tancredo Neves, dizia que o desejo de trair é o primeiro sentimento a brotar no coração de quem ocupa a cadeira do poder.  A reeleição nasceu quando o PSDB precisou dela para prolongar o mandato de FHC e esticar o poder tucano por 20 anos. O que teve um começo com os tucanos pode acabar, se Aécio Neves ganhar, para evitar que o partido se esfacele.

Política, como se vê, também é feita assim. Mistura ambição, votos, régua e compasso.