Número 821,

Internacional

China

O gigante não acordou em Hong Kong

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 17/10/2014 03h36
Os protestos de Hong Kong não devem ser confundidos com um movimento chinês
Alex Ogle / AFP
Hong Kong

O confronto tem sido civilizado, por parte da polícia e dos manifestantes

Após uma semana dos protestos estudantis iniciados em 27 de setembro, ficou evidente a perda de fôlego dos manifestantes e a falta de apoio popular, escasso na própria cidade e quase inexistente no restante do país. Não seria surpresa, não fosse a disposição da mídia ocidental a se iludir sobre desafios a qualquer regime com más relações com Washington.

A simpatia por jovens que se rebelam contra um governo autoritário é natural, mas não dispensa analisar a realidade. A disposição de comparar o que se passou no Leste Europeu ou mesmo na Praça Tiananmen em 1989 com a chamada “revolução dos guarda-chuvas” (abertos nos primeiros dias para proteção contra gás lacrimogêneo e depois transformados em símbolos) ignora o fundamental: econômica e socialmente, Hong Kong não é a China. Embora o controle político da ex-colônia britânica tenha sido devolvido em 1997 a Pequim, como previa o tratado de arrendamento por 99 anos assinado em 1898, a cidade é desde então uma região autônoma especial com suas próprias leis, moeda e sistema econômico.

Chineses do continente precisam de visto para entrar no território e são malvistos pelos honcongueses tradicionais, que veem os turistas como “gafanhotos” mal-educados que fazem os preços subir com suas compras alucinadas e responsabilizam os imigrantes pelo aumento da criminalidade, queda dos salários e sobrecarga dos serviços públicos, que pouco a pouco reduziram os “nativos” a minoria. Em 1985, quse 60% dos moradores se identificavam como honcongueses, dez anos depois, 50%, e em 2005, só 39%. Sua história, problemas e aspirações pouco têm a ver com aquelas das massas do continente e, mesmo que a rebelião fosse mais ampla, teria poucas chances de empolgar a maior parte da China.

Como relatou a revista estadunidense Foreign Policy, insuspeita de simpatias pró-Pequim, a mídia oficial do continente praticamente silenciou sobre os eventos na região especial, mas os cidadãos nas redes sociais viram os manifestantes como “alarmistas”, “mimados” e “vira-latas ingleses”. Reclamam de que os impostos de Hong Kong não ajudam o resto do país e desconfiam de suas pretensões separatistas.

Embora o separatismo não tenha um papel declarado nos atuais protestos, essa corrente de fato existe e tem apoio de um quarto da população, segundo pesquisa de 2007. Em 2012, manifestantes que agitavam bandeiras coloniais inglesas exigiram que os chineses voltassem para a China e cantaram “somos honcongueses, não chineses”. Os fundadores da campanha “Occupy Central with Love and Peace”, organizadora dos protestos, mantiveram encontros com partidos e ativistas separatistas de Taiwan.

Mesmo na ex-colônia, viu-se pouco entusiasmo fora da juventude estudantil. Os manifestantes pró-China que atacaram o acampamento do Occupy Central enquanto a polícia olhava para o outro lado foram acusados por um jornal local de integrar a máfia chinesa conhecida como Tríade e serem pagos pelo governo, mas a correspondente do El País relatou que tanto as classes mais ricas, que têm contatos com Pequim, quanto boa parte das trabalhadoras, imigrantes do continente, são partidárias da República Popular, têm pouco interesse pelas eleições diretas sem restrições exigidas pelos manifestantes e estão mais preocupadas com estabilidade e desenvolvimento. Para esses grupos é satisfatória a reforma proposta pelo governo, pela qual a eleição do governador, hoje local e indireta, passaria em 2017 a ser direta dentro de uma lista tríplice indicada por Pequim. As principais associações patronais condenaram as manifestações, assim como vários empresários e executivos poderosos.

A HKCTU, central sindical liberal de Hong Kong criada em 1990, convocou greves na terça-feira 30 de setembro em apoio aos protestos e 10 mil de seus 160 mil filiados chegaram a parar. Entretanto, a HKFTU, central comunista fundada em 1948 com 341 mil filiados e seis representantes no Legislativo da região (a rival tem só um), alinhou-se com Pequim. Quando o Occupy Central organizou um referendo em favor do sufrágio universal e disse ter recebido 800 mil votos, a Aliança para a Segurança e Democracia, pró-Pequim, respondeu com outra votação no mês seguinte e alegou 1,5 milhão de adesões.

Enquanto a classe média tradicional, de formação ocidental, luta por distinção e se ressente da dissolução de seu antigo senso de superioridade pelo desenvolvimento do continente e ascensão social dos imigrantes, a elite receia ver cassado por Pequim o estatuto especial que ainda dá a Hong Kong vários privilégios. O acordo de 1997 previu sua manutenção até 2047, pelo menos, mas, se o regime chinês decidisse revogá-lo, não haveria muito a fazer. Hong Kong depende do continente para 70% da água potável e 90% dos alimentos.

Nas primeiras décadas da abertura pós-maoista, a cidade foi uma ponte vital para atrair investimentos capitalistas na China e intermediar o comércio com o resto do mundo. Hoje, o país tem vários centros comerciais e financeiros importantes e negocia diretamente com o mundo. A economia de Xangai tornou-se maior que a de Hong Kong, que dentro de mais alguns anos poderá ser um centro de segunda linha.

Aparentemente, os secundaristas do movimento Scholarism, cujo porta-voz ante a mídia é Joshua Wong, de 17 anos, recuaram da rigidez da primeira semana, na qual exigiam a renúncia do atual governador Leung Chun-ying e ameaçavam tomar prédios do governo se não fossem atendidos. Nos primeiros dias de outubro, aceitaram desmontar parte das barricadas, permitir que as escolas e a sede do governo retomassem atividades e iniciar conversações formais com o governo atual na sexta-feira 10. Estas foram, porém, suspensas no dia 8 por recusa dos estudantes a encerrar  as ocupações, e estes ameaçaram recrudescer o movimento. O risco de massacre persiste. A tradição do PC chinês é  acomodar concessões discretas quando necessário, mas não ceder sob pressão.

Os estudantes mostram-se organizados e disciplinados. Coordenaram a entrega de suprimentos aos participantes das ocupações, preocuparam-se com a limpeza, separaram materiais recicláveis e espalharam cartazes de “desculpem o transtorno”. E também a polícia se portou com contenção. Mesmo consideradas as agressões de “pró-chineses”, até agora os manifestantes sofreram menos com a repressão do que seus colegas do #Occupy nos EUA ou dos protestos brasileiros de 2013, para não falar do México ou do Egito. Foram evitadas as balas de borracha, apesar das denúncias de que a polícia as recebeu na quinta-feira 30. Nos dois primeiros dias foi usado gás lacrimogêneo (pela primeira vez na cidade desde 2005) e registrados alguns feridos sem gravidade dos dois lados, mas depois só houve breves detenções e uso ocasional de spray de pimenta.

Provavelmente, a situação se estabilizará sem vítimas e com um pequeno progresso. Hong Kong continuará longe de uma democracia plena, mas certamente não mais do que quando era colônia britânica. Só em 1994, quando havia concordado em devolver a cidade, Londres concedeu algumas reformas democratizantes no Legislativo até então formado na maioria por conselheiros nomeados pelo governador ou por grupos empresariais para embaraçar os chineses, revogadas com a reanexação de julho de 1997. Desde então, o número de conselheiros eleitos aumentou gradualmente e hoje é exatamente a metade do Conselho.

Para reais mudanças na China, a médio e longo prazo indispensáveis, será preciso esperar pela mobilização gradual das massas de Xangai, Pequim, Tianjin, Cantão e outras grandes cidades do continente onde de fato se expressa o sentimento nacional.

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