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Número 821,

Cultura

Refô

Língua longitudinal

por Marcio Alemão publicado 19/10/2014 11h46
O segredo do preparo: tem de ter maciez, mas sem perder a textura
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Vaca

A língua pode vir a sofrer do mal de se transformar em chiclete. Não era o caso da que eu estava comendo

Pedi uma língua em um restaurante no estrangeiro. É uma carne de que gosto muito e que rende pouco. Tenho de admitir que o comentário do rendimento possa ter entrado de maneira prematura neste Refô, mas vocês verão que procede.

A língua que pedi veio em fatias grossas, mais que as habituais, que costumamos encontrar, e não só aqui, mas também mundo afora. Apresentação caprichada, aspecto interessante e mando meu primeiro ataque. Maciez absurda, sem perda da textura.

Vale uma pausa para um fruto do mar? A lula. Salteada rapidamente não se transforma em chiclete. Na pressão parece um humano torturado que perde feições e personalidade. A língua pode vir a sofrer desse mal. Não era o caso da que estava comendo.

Com certeza, por conta da idade e também pelo encantamento que o prato me trouxe, demorei a notar que eram fatias retangulares. Como assim? Língua retangular? Sim. Cortaram a língua no sentido longitudinal (é assim que se diz “de comprido”?). E foram além: depois de cozida, ela passou por brasas e ganhou aquele sabor do fogo na madeira.

Pego a última palavra e aproveito para lembrar que a língua no molho madeira é apenas uma das muitas possibilidades. Curioso, não é? Língua voltou a aparecer em cardápios bacaninhas não faz muito. Era comida que se fazia e se comia em casa. E nem sempre em todas.

Mas, como disse lá no alto, ela rende pouco. E nos restaurantes custa muito. Pegue, pois, essa ideia da língua feita na longitude e você terá não muitos retângulos. Não paguei caro e me foi servida como entrada. Quanto a isso tive dúvidas. Não só a língua compunha o prato. Um osso de 22 cm, cortado ao meio, de comprido, com seu perfeito tutano coberto com leve gremolata. Forte, não acha? Também achei, mas me fartei. Lembrei até dos tempos escuros da “vaca louca” pela Europa. Esse prato teria outro nome: “ticket to heaven”.

Passando a régua, finalizo recomendando: cozinhe a língua em caldo, tire a pele, corte de comprido, um dedo de homem de largura, sal, azeite e brasa por alguns minutos. Uau!

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