Você está aqui: Página Inicial / Revista / Futuro vs. Passado / A destruição dos marcos de uma cidade na Oca
Número 821,

Cultura

Exposição

A destruição dos marcos de uma cidade na Oca

por Rosane Pavam publicado 15/10/2014 05h37
Mais de 200 fotos do acervo da Casa da Imagem, realizadas entre 1862 e 1972, recriam conexão entre São Paulo e seus habitantes
Coleção de Fotografia Iconográfica do Museu da Cidade de São Paulo
Memória Mutante

A demolição do Belverdere Trianon (1957)

Nos últimos três anos, Henrique Siqueira e Monica Caldiron têm percorrido o acervo da Casa da Imagem para compreender a conexão entre os principais fotógrafos de São Paulo ali representados. Os curadores de cerca de 130 mil imagens digitalizadas descobriram a partir do pioneiro Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) um olhar atento ao princípio motivador da urbanização paulistana, que é o de “destruir para construir sobre”. Desde que passou a receber as migrações, na segunda metade do século XIX, São Paulo pareceu destinada a fechar os olhos aos espaços livres rumo a elevar-se, hierarquizar-se.

Como observa Siqueira, quando essa lógica de sobreposição apaga a antiga arquitetura, destrói as marcas da rua e compromete a identificação do morador com a cidade. Eis por que as 210 imagens selecionadas para a exposição, realizadas entre 1862, quando a urbanização inicia a arrancada, e 1972, no momento em que os espaços se abrem para as marginais, procuram justamente refazer a cidade diante de seus habitantes. A exposição Memória Mutante, explica Siqueira, só poderia dar-se naquele primeiro andar da Oca. O amplo cinturão, além de possibilitar a visualização do grande número de fotos, sugere a circularidade, a eterna atualização de um violento pensamento urbanístico.

exposiao.jpg
Benedito Junqueira Duarte e Antônio Muller. Rua Japurá, 1942

São fotógrafos das linhas e das geometrias da luz aqueles que registram a ação dos construtores dessas novas pirâmides urbanas. De Militão a Aurelio Becherini, passando por Ivo Justino e Chico Vizzoni, a cidade é vista eminentemente a partir de cima, entrelaçada de concreto, resumida a desenhos distantes de novas avenidas ou a pátios fechados de convivência, como aquele visto por Benedito Junqueira Duarte na Rua Japurá, em 1942. Ao nível do chão, as construções são ora verticalmente inacessíveis, ora se prestam à ruína, como registra autor desconhecido no Belvedere Trianon, em 1957.

Coleção de Fotografia Iconográfica do Museu da Cidade de São Paulo
Sebastião Ferreira de Assis. Estação Norte do Largo da Concórdia, 1942

Coleção de Fotografia Iconográfica do Museu da Cidade de São Paulo
Ivo Justino. Marginal Tietê, 1972

Coleção de Fotografia Iconográfica do Museu da Cidade de São Paulo
Estúdio Chico Vizzoni. Construção da Praça Roosevelt, 1970