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Número 821,

Economia

Análise / Paul Krugman

Ainda não saímos do mato

por Paul Krugman — publicado 17/10/2014 03h36
É preciso um período longo de mercados de trabalho mais rígidos apenas para voltarmos para onde estávamos
Danilo Bandeira/Flickr
Emprego

Por que a queda do índice de desemprego não significou um aumento mais rápido do salário nos EUA?

Logo após a divulgação do mais recente relatório sobre o emprego, indicador de que as coisas estavam melhores do que se esperava, minha caixa de entrada começou a se encher com pedidos para o Federal Reserve acelerar o ritmo da “normalização” e com previsões de que o fará em breve. Mas a tese do esperar para ver na verdade continua tão forte como sempre, e talvez até um pouco mais.

Como tentei explicar antes, existem dois pontos-chave na política do Fed. Primeiro, não sabemos quanta folga existe no mercado de trabalho americano. Segundo, as consequências de superestimar essa folga e esperar demais para aumentar as taxas de juro seria relativamente menos grave, enquanto os custos de subestimar a folga e aumentar as taxas cedo demais poderiam ser enormes.

Sobre o primeiro ponto, realmente não sabemos quanta folga existe. Não me mostre o seu novo método de estimativas e afirme que ele prova que “existe x% de folga”. Há muitas pessoas inteligentes por aí fazendo estimativas inteligentes. Elas não concordam, e ninguém realmente acredita na econometria de qualquer modo, a menos que os números digam o que elas querem escutar. Desculpem, mas essa é a realidade. Realmente não sabemos muito sobre a folga até depois do fato, se e quando finalmente virmos uma retomada notável da inflação, e em particular nos salários.

Sobre o segundo ponto, se o Fed esperar demais, a inflação poderá se acelerar por algum tempo, e reduzi-la novamente para a meta seria duro (embora, na verdade, a meta devesse ser mais alta). Mas tem importância menor comparado ao cenário alternativo de aumentar os juros cedo demais e depois descobrir que entramos em uma armadilha deflacionária da qual é realmente difícil sair. Se você estiver no Fed, preferiria acordar e descobrir que a taxa da inflação básica aumentou 3% ou que você se tornou o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi?

E se você estiver confuso porque a queda do índice de desemprego não significou um aumento mais rápido do salário, bem, isso apenas confirma a tese de que realmente não sabemos quanta folga existe. Alguém pensa que o crescimento do salário foi loucamente excessivo antes da crise financeira de 2008? Se você não pensa, então deveria acreditar que precisamos de um período prolongado de mercados de trabalho mais rígidos apenas para voltarmos para onde estávamos.

Não há nada no novo relatório de emprego que sugira que faz sentido aumentar as taxas tão cedo. Na verdade, acho muito difícil entender por que alguém pensa que as taxas devam subir mesmo em 2015.

Punidos pela virtude do dólar?

Eu raramente discordo do economista Jared Bernstein, e na verdade concordo com a maior parte de uma postagem recente dele em um blog no início deste mês sobre a conexão entre o pleno emprego, os déficits comerciais e o dólar como moeda de reserva. Sim, concordo que o persistente déficit comercial dos Estados Unidos é um problema para se atingir o pleno emprego, e que deveríamos ter uma política de dólar fraco, e não forte.

Mas a posição de moeda de reserva do dólar é a raiz do problema? Há muito tempo afirmo que a posição de moeda de reserva é um fenômeno supervalorizado – não é realmente um benefício significativo para o país que emite a moeda, deixando de lado as questões de emprego. Mas também não estou convencido de que seja algo tão importante quando tentamos compreender os persistentes déficits comerciais. Afinal, não somos o único país que tem déficits externos duradouros.

Temos coisas que fazem o excesso de poupança global vazar para os Estados Unidos, como um grande e profundo mercado financeiro, com muitos atores dispostos a criar o que parecem ativos seguros, juntamente com uma sensação geral de que os EUA são o último refúgio, e assim por diante. Mas a Grã-Bretanha oferece muitas dessas coisas, e na verdade tem um registro comparável de influxos de capital e déficits persistentes, enquanto a Austrália administra déficits externos realmente grandes há muito tempo.

Como questão de políticas, não penso que isso importe muito. Deveríamos buscar um dólar mais fraco.

Mas não creio que seja útil frasear o problema em termos de posição de moeda de reserva.

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