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Número 821,

Cultura

Cinema

Mostra Internacional enfatiza olhar histórico

por Orlando Margarido — publicado 11/10/2014 08h56, última modificação 11/10/2014 10h23
Vetor na recuperação de preciosidades, 38a edição terá ainda os vencedores da Palma de Ouro, 'Winter Sleep', e do Leão de Ouro, 'Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência'
Divulgação

Marin Karmitz aprendeu com a adversidade e a resistência. Emigrado na infância para a França, o romeno fundou sua primeira produtora e exibidora em 1967, após perceber a falta no circuito tradicional de um espaço para seus filmes. Da pequena MK surgiria nos anos 1970 a MK2, um conglomerado de produção e salas de exibição dedicado ao cinema independente. O impulso à realização do segundo filme de Jean-Luc Godard ou Claude Chabrol estendeu-se mais tarde ao apoio a uma geração de nomes como Krzysztof Kieslowski, Abbas Kiarostami e os irmãos Taviani. Desta e de outras trajetórias reveladoras nos lembra todo ano a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e será assim mais uma vez ao abrir sua 38ª edição na quinta-feira 16.

A homenagem a Karmitz, com sua presença em uma master class e um Prêmio Humanidade, valida a mostra como vetor na recuperação de preciosidades, igualmente formadora de um novo público. Para este, talvez, o ciclo dedicado ao produtor possibilite o acesso à trilogia das cores do polonês Kieslowski, aos filmes da família Makhmalbaf, o pai Mohsen com Gabbeh e a filha Samira com A Maçã, ou ainda ao impressionante A Noite de São Lourenço, de Paolo e Vittorio Taviani. Conta Karmitz, aliás, que o sucesso dos irmãos, como em Pai Patrão, o ajudava a investir em ao menos outras duas produções. Mesmo um brasileiro figura na lista, Ruy Guerra, com sua Ópera do Malandro.

Tais títulos dos anos 1980 e 1990, contudo, tiveram ressonância razoável no circuito brasileiro e para uma geração anterior será mais instigante redescobrir clássicos como Salto no Vazio, de Marco Bellocchio, e, claro, conhecer o franco-romeno na direção. No período conturbado das manifestações políticas, o homem de esquerda ligado a um movimento maoista refletiu sobre o drama de classes em Sete Dias em Outro Lugar e em seguida confrontou o Maio de 1968 em Camaradas e Golpe por Golpe. Com este filme de 1972, Karmitz encerrou a breve carreira de diretor e se dedicou a produzir, o que fez até recentemente em relação a filmes do jovem canadense Xavier Dolan ou do francês Olivier Assayas. Há dois anos, depois de 120 títulos, 30 deles na programação, anunciou a suspensão temporária dos trabalhos da produtora por não se reconhecer na atual cinematografia francesa, para ele pouco original. Um balanço desta opção, assim como o fato de ter se tornado um dos empreendedores mais ricos da França, não escapam ao documentário Marin Karmitz – Uma vida nos filmes, de Felix von Boehm.

De novo a expressão maratona se aplica ao calendário da mostra, que até a quarta 29 acolherá 331 longas-metragens, além de 4 programas de curtas, distribuídos em 35 salas. Desses filmes, os frequentadores habituais sabem, há as possíveis pepitas a serem garimpadas em meio a um montante desconhecido do cinema atual, em torno de 80 títulos. A seu modo, diga-se extenuante, a mostra faz escola e cobra a atenção de seus alunos devotos e principiantes. Um caminho direto para o espectador está na acolhida aos premiados internacionais.

A maior atração neste caso recai sobre Winter Sleep, do turco Nuri Bilge Ceylan, Palma de Ouro no Festival de Cannes, seguida de perto pelo sueco Roy Andersson com Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência, Leão de Ouro no Festival de Veneza. Deste saiu com o prêmio de melhor direção o veterano russo Andrej Konchalovsky com As Noites Brancas do Carteiro. Ainda reconhecidos pelo evento francês estão FoxCatcher – Uma História Que Chocou o Mundo, prêmio de melhor direção para Bennett Miller, As Maravilhas, de Alice Rohrwacher, Grande Prêmio do Júri, e Leviatã, melhor roteiro para o diretor russo Andrey Zvyagintsev. Para fechar o ciclo dos três maiores festivais internacionais, Berlim está representado pelo tocante A Pequena Casa, do mestre japonês Yoji Yamada, que rendeu o Urso de Prata de atriz a Haru Kuroki.

Premiações, assim como a seleção extensiva da mostra, não são infalíveis e vale a pena buscar o que os júris deixaram passar sem a devida atenção nos concursos oficiais. Almas Negras, do italiano Francesco Munzi, é uma aproximação diversa em seu trato psicológico ao tão recorrente tema da máfia. Dispensam apresentações Assayas (Acima das Nuvens), Robert Guédiguian (Au Fil d’Ariane), Jean-Pierre e Luc Dardenne (Dois Dias, Uma Noite), Lisandro Alonso (Jauja), André Téchiné (O Homem Que Elas Amavam Demais), Naomi Kawase (O Segredo das Águas), Atom Egoyan (The Captive), Amos Gitai (Tsili) e Laurent Cantet (Retorno a Ítaca). Do mesmo pode-se falar da Seleção Brasileira em seu caráter sintético, que vai do multipremiado Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, ao nome resistente de uma geração, Ugo Giorgetti, com A Cidade Imaginária. A memória tem papel também aqui, e a cópia restaurada do esquecido Antes, o Verão, direção de Gerson Tavares de 1967 sob livro homônimo de Carlos Heitor Cony, sugere uma redescoberta.

Se na trajetória a mostra formou discípulos, soube igualmente lançar ou se fazer próxima de quem dá lições. Desde o início a iniciativa de Leon Cakoff, morto em 2011, reiterada por sua viúva e atual diretora Renata de Almeida, tem a característica de agregar os chamados amigos da mostra, realizadores revelados ao público e habituais na programação. O chinês Jia Zhang-ke é um deles e não por acaso acontece aqui a estreia mundial do documentário que Walter Salles dirigiu, ao acompanhar o colega num roteiro pela China. Jia Zhang-ke – Um Homem de Fenyang, o filme, vem acompanhado do volume lançado pela CosacNaify O Mundo de Jia Zhang-ke, no qual o crítico francês Jean-Michel Frodon descreve sua trajetória. “É o mais importante e consistente realizador do momento”, disse Frodon a CartaCapital durante um encontro no Festival de Veneza, em setembro. “Ninguém tem uma percepção tão dura e arguta de sua própria sociedade como ele.”

Da mesma forma costumam se suceder as retrospectivas, com nomes alinhados à história do evento, e a mais estelar neste ano cabe ao espanhol Pedro Almodóvar. Na expectativa de sua vinda, dependente de uma melhora da saúde, será possível ver ou rever títulos de diferentes fases, em lugar de uma íntegra. Sua liderança no panorama espanhol ofusca, porém, outros tesouros de uma cinematografia diversa que o evento quer iluminar. Pode ser pequena como a de Victor Erice, com três longas-metragens de reconhecimento internacional em cinco décadas de carreira. O Espírito da Colmeia, O Sul e O Sol de Marmelo se somam a coproduções atuais entre a produtora dos Almodóvar, o realizador e seu irmão Agustín, com a Argentina. De lá vem o filme oficial de abertura, Relatos Selvagens, de Damián Szifrón, sucesso de bilheteria no país.

O mesmo foco determinante aos de língua espanhola ontem e hoje recai também sobre Luis Buñuel em duas frentes. Uma exposição na Cinemateca Brasileira de 85 fotos de autoria do cineasta dá conta de suas produções na fase mexicana, a exemplo de Os Esquecidos (1950), enquanto um duplo programa recupera sua estreia de marcado acento surrealista na virada para os anos 1930 em Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro, restaurado. Também para o encerramento se valorizou a produção latina. Dólares de Areia, de Laura Amélia Guzmán e Israel Cárdenas, leva na República Dominicana um drama protagonizado por Geraldine Chaplin, atriz de estreitos laços com o cinema deste sotaque, como deverá confirmar na sua vinda a São Paulo. A filha de Charlie Chaplin será a anfitriã da homenagem ao pai no centenário de Carlitos, com a exibição do curta Corrida de Automóveis para Meninos (1914) e do longa O Circo (1928).