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Número 820,

Cultura

Música

300 horas de Jacob do Bandolim

por Ana Ferraz publicado 08/11/2014 02h33
Museu da Imagem e do Som recupera acervo, partituras e digitaliza mais de 5 mil arquivos de áudio de um de nossos pioneiros do choro
Acervo Instituto Jacob do Bandolim
Jacob do Bandolim

Com o bandolim número 1, incorporado ao acervo do MIS

Jacob Pick Bittencourt, Jacob do Bandolim, tinha 20 anos quando começou a garimpar partituras dos pioneiros do choro. Músico incomparável e compositor inspirado, que deu ao mundo as inefáveis Doce de Coco e Noites Cariocas, ia pessoalmente buscar com os chorões ou herdeiros preciosidades que revelam parte do repertório tocado ao longo de oito décadas, em especial no Rio de Janeiro.

Esse material riquíssimo para a memória musical brasileira, constituído por cadernos com mais de mil partituras manuscritas, muitas em estado precário, foi localizado pelo Instituto Jacob do Bandolim em 2002. Os 1.508 documentos que estavam sob a guarda da família Bittencourt, cuja catalogação e digitalização acabam de ser concluídas, foram doados ao Museu da Imagem e do Som.

Após dez anos de trabalho, a instituição fundada por iniciativa do poeta e compositor Hermínio Bello de Carvalho para ajudar o MIS a recuperar o acervo festeja também a digitalização de 5.366 arquivos de áudio, num total de 300 horas. Além do gênero que o imortalizou, Jacob preservou gravações de samba, jazz, frevo, bossa nova, pontos de macumba, música regional e clássica. Depois que passar para o banco de dados, o MIS vai disponibilizar o acervo sonoro ao público.

O virtuose do bandolim entendeu cedo que o gênero nascido em sua terra era patrimônio nacional a ser preservado. Em 1968, um ano antes de tombar nos braços da mulher, fulminado por um infarto aos 51 anos, recusou proposta do MIS para vender o acervo de 10 mil itens. “Meu arquivo é minha vida. Lá havia um sofá, uma garrafa com café e outra com água. Aí minha mulher tirou o sofá, porque eu estava dormindo dentro do arquivo”, declarou ao apresentador Blota Júnior, da TV Record.

Após sua morte, a coleção a que se dedicou de forma obstinada de 1936 a 1969, madrugadas inteiras enfurnado no estúdio erguido no fundo do terreno de sua casa, ficou sob a guarda do MIS. O garimpo tinha 122 rolos magnéticos, 1.401 discos de 78 rotações, 142 LPs, 1.209 livros, revistas e catálogos, 10 álbuns de fotografia e 5.458 partituras.

Entre o material reincorporado ao museu estão troféus, cartas, a máquina em que Jacob datilografava as fichas, fotos e o principal bandolim, de 1935. “A diversidade do que ele registrou é incrível”, atesta o músico e pesquisador Sérgio Prata, presidente do instituto. “Há mais de 200 faixas de gravações de orquestra da Rádio Nacional e do sexteto de Radamés Gnattali, 704 faixas do programa Pessoal da Velha Guarda, que ficou no ar de 1947 a 1952, e orquestrações de Pixinguinha, em que tocavam Raul de Barros, o Grupo dos Chorões e o Regional de Benedito Lacerda.”

A odisseia do Jacob preservador começou em 1955, quando comprou gravadores de rolo, que passou a carregar para todo lado. Entre os registros históricos, a festa de 70 anos de Pixinguinha numa churrascaria e os míticos saraus na casa de Jacarepaguá. Foi lá que em 1959 recebeu um grupo de chorões do Recife. A turma liderada pelo violonista Francisco Soares de Araújo, Canhoto da Paraíba, viajou de jipe de Pernambuco até o Rio de Janeiro e passou 15 dias nos domínios de Jacob tocando choro sem parar. Com a característica voz grave, o anfitrião registrou a impressão que o violonista lhe causou: “O homem tem o diabo no corpo. Nunca o vi errar uma nota”.

Reza a lenda que ao ouvi-lo Gnattali não conteve o entusiasmo, soltou um sonoro palavrão e num gesto de júbilo jogou para cima o copo de cerveja. Para perpetuar o arroubo sublime, Jacob proibiu a limpeza do teto, onde uma nódoa permaneceu como lembrança.

Dono de temperamento “puramente emocional”, como definiu o filho, Sérgio Bittencourt, o músico ia das lágrimas à ira em segundos. Tocava com o bandolim contra o peito, em êxtase. “Jacob era o trovão. Onde estivesse, o espaço era totalmente ocupado por sua voz, seu olhar ou sua música”, definiu certa vez o violonista Turibio Santos.

“Em seu programa na Rádio Nacional, Jacob tanto elogiava quanto espinafrava. Tinha resistência aos tropicalistas, achava que nossa música tinha qualidade suficiente para abrir mão dessas experiências”, conta Prata.

Discípulo de Jacob, Izaías Bueno de Almeida pincela de delicadeza o temperamento difícil do mestre, que conheceu em 1952, quando o bandolinista paulistano tinha 16 anos. “Era personalíssimo, exigente e caprichoso. Mudou o jeito de tocar bandolim e foi o primeiro a adaptar Ernesto Nazareth para o instrumento.”

A relação entre Jacob e Almeida se estreitou em 1954, quando trabalharam na TV Record. Ambos frequentavam a tradicionalíssima casa de instrumentos musicais Del Vecchio, no centro paulistano. A camaradagem sofreu sério revés quando o discípulo imberbe deu à loja a ideia de fabricar um bandolim “modelo Jacob”. “O bandolim, originário da Itália, é oval. Jacob usava um modelo português redondo, que mandou fazer e se tornou exclusivo. Eu queria um igual e ele ficou bravo quando soube. Me acusou de roubar as medidas.”

Déo Rian, bandolinista que sucedeu Jacob no conjunto Época de Ouro, tornou-se amigo do virtuose em 1961. “Eu tinha 17 anos e tocava numa roda de choro de Jacarepaguá feita num açougue. Depois que o dono lavava tudo, fechava a porta e ficávamos lá.” Um amigo de Jacob apresentou-o ao mestre. O gosto por choros antigos os uniu. Rian, que preside o Instituto Jacob do Bandolim, descreve o músico como exigente, disciplinado e perfeccionista. “Era um gênio de grande sensibilidade.”

Almeida relembra ainda o bom fotógrafo amador que Jacob foi, a retratar figuras históricas que participavam de seus saraus. E ajuda a entender por que não existe vídeo algum de Jacob ao bandolim. “Quando tocava não permitia que gravassem. Numa roda informal ocorrem falhas e ele não queria que os erros aparecessem.”

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