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Número 819,

Política

Eleições 2014

Luciana Genro: nanica, uma ova!

por Cynara Menezes — publicado 01/10/2014 12h44, última modificação 02/10/2014 16h36
Advogada e gaúcha de Santa Maria, a candidata do PSOL, de 43 anos, é a grande surpresa da corrida presidencial. Por Cynara Menezes
Gustavo Luz
Luciana Genro

Ela se destaca nas entrevistas e debates e atrai o voto dos jovens de esquerda

Botão Eleições 2014Início da noite de terça-feira 23 em São Paulo. A candidata do PSOL, Luciana Genro, é recebida na porta de um espaço cultural na Vila Madalena por algumas garotas na faixa dos 20 anos. A presidenciável vai participar de uma conversa com mulheres e, logo na entrada, uma das garotas lhe dá a notícia: uma página criada no Facebook por seus fãs (os lucianetes) bateu a marca de 1 milhão de visitantes. Os frequentadores querem saber até a marca do creme usado por Luciana para domar os cachos. “É o mais baratinho possível, custa 8 reais”, ela ri.

No centro cultural, cerca de 300 mulheres, todas muito jovens, de óculos e vestidos coloridos, batom vermelhíssimo e cortes de cabelo modernos, a esperam para o debate ao lado da cantora Marina Lima e da filósofa Marcia Tiburi, entre outras. Todas declaram voto na representante do PSOL. A “diva fiel aos cachos” é aplaudidíssima no fim do evento, ao espetar as rivais Dilma Rousseff e Marina Silva. “Não basta ser mulher, é preciso estar do lado certo. E elas não estão.”

Com no máximo 1% nas intenções de voto, segundo as pesquisas, Luciana Genro tornou-se a musa dos descolados, principalmente após ter soltado uma frase no debate organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que se espalharia como rastilho de pólvora na internet. Ao ser acusada por Aécio Neves de ser uma “linha auxiliar do PT”, saiu-se com essa: “Uma ova, candidato Aécio”. A reação espontânea agradou e a frase tem sido usada inclusive como toque de celular entre jovens de extrema-esquerda que torcem o nariz para o PSDB, mas também para o PT.

Aos 43 anos, a advogada, gaúcha de Santa Maria, tem consciência do fato de, paradoxalmente, uma “gíria idosa” tê-la levado a cair no gosto dos meninos e meninas de 20 anos que adoravam interagir com Plínio de Arruda Sampaio, o candidato do PSOL em 2010, nas redes sociais. “É uma expressão que uso, embora meio antiquada, eu sei disso”, diz. “Acho que ouvia a minha avó falar, não sei. Mas uso muito, pois não gosto de falar palavrão.”

No primeiro debate entre os candidatos, na TV Bandeirantes, a presidenciável foi ofuscada pelo candidato do Partido Verde, Eduardo Jorge, cujas caras e bocas conquistaram (e causaram risadas) em muitos jovens eleitores. Jorge e Luciana têm muitas propostas em comum, entre elas a legalização das drogas e do aborto. Ciente de que talvez disputem o mesmo eleitorado, a candidata do PSOL tem se dedicado a desconstruir sutilmente o adversário.

No debate da CNBB, ela fez questão de lembrar a passagem de Jorge pelo staff do ex-prefeito Gilberto Kassab, de quem foi secretário. Na palestra para as mulheres, alertou que sua defesa do aborto não é incondicional. “Ele diz ser favorável ao aborto enquanto não houver uma política de planejamento familiar, enquanto eu digo que métodos contraceptivos falham e que o aborto precisa ser legalizado independentemente de planejamento familiar. Vejam a diferença”, pontuou, para delírio geral. A cantora Karina Buhr, presente na plateia e “indecisa” até então, fez questão de levantar novamente para dizer: “Adeus, Eduardo!”

Filha de Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, Luciana iniciou-se na política ainda na adolescência, sempre à esquerda do pai. Em 2003, deputada federal, acabaria expulsa do PT após se unir ao grupo que votou contra a reforma da Previdência. Hoje sua família vive uma relação sui generis: enquanto ela enfrenta a candidata do pai na eleição à Presidência, seu ex-marido, Roberto Robaina, também do PSOL, enfrenta o ex-sogro na disputa para o governo gaúcho.

A candidata parece se divertir muito, sobretudo com a briga entre o pai e Robaina, que têm se provocado mutuamente nos debates estaduais. No último deles, é a própria Luciana quem conta, às gargalhadas. O governador petista virou-se para o ex-genro e disse: “Você devia fazer que nem a Luciana e não ser quinta-coluna da direita”. Robaina nem titubeou: “Ainda bem que você citou a Luciana. Ela vota em mim”.

É com o ex-marido, e não com o pai, que Luciana se prepara para os debates. “Ele me deu a dica de ouvir tudo o que os outros dizem em vez de me prender tanto ao script”, conta. Em suas primeiras aparições, presa ao roteiro revolucionário, falou tantas vezes em “capital financeiro” que virou alvo de gozação.

“Entrei na disputa com a preocupação de não me tornar caricata, de não ficar estigmatizada como a candidata da maconha ou do aborto. Depois do primeiro debate, recebi vários comentários me alertando para o uso de muito economês e com sugestões de simplificar para os eleitores entenderem. Tenho tentado fazer isso”, diz. “De fato, a economia é uma discussão difícil e até por isso acaba não tão relevante como deveria ser. Agora tenho usado mais exemplos, falado dos ‘gêmeos siameses’, das semelhanças que existem entre os três, Marina, Dilma e Aécio.”

Além dos elogios às respostas afiadas, Luciana Genro tem se surpreendido com os galanteios. Em uma entrevista publicada na internet, o escritor Xico Sá declarou que, entre as três candidatas, seria a do PSOL quem “convidaria para sair”. Divulgada pela própria presidenciável, a reportagem causou a fúria de feministas, que se revoltaram com a frase. Ela gosta de se declarar detentora do “título de primeira candidata feminista”, mas, apesar de reclamar que esse tipo de questão não se faz aos concorrentes do sexo masculino, gostou da resposta de Sá. “Fiquei lisonjeada. Não se pode ser tão radical, senão daqui a pouco ninguém vai poder nem dizer que uma mulher é bonita.”

Sobre eventuais surpresas para o debate que aconteceria no domingo 28, na Rede Record, ela emendou: “Tenho pensado em algumas coisas. Mas acho que depois do ‘uma ova’ vai ser difícil me superar”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 819 de CartaCapital, com o título "Nanica, uma ova!"