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Número 819,

Cultura

Protagonista

Memórias do subsolo

por Alvaro Machado — publicado 04/10/2014 06h13
A professora Elena Vássina sofreu a interdição soviética ao pesquisar a censura às artes na ditadura brasileira
Marcos Méndez
Elena Vássina

"A realidade de Plínio Marcos comparada à de Gorki, pareceu-me água com açúcar", diz a professora Elena Vássina

Jovem estudante na década de 1980, a moscovita Elena Vássina quis contar aos compatriotas que a ditadura brasileira censurava peças teatrais e fazia presos políticos, mas o governo da então União Soviética não autorizou seu pronunciamento, em uma atitude estranhamente esperada. Durante as pesquisas de doutorado, concluído em Moscou quando ela contava 25 anos, a atual professora de Letras Russas na Universidade de São Paulo fora fichada pelo serviço secreto, a KGB, obrigada a calar sobre as informações contidas em acervos especiais. “Estarrecida, eu encontrara ali os livros de Augusto Boal com os relatos das torturas que sofreu e os de Fernando Peixoto com as perseguições ao Teatro Oficina, bem como as obras de Plínio Marcos e coleções da revista Veja, que falava das atrocidades da ditadura.”

A restrição das bibliotecas russas e a falta de notícias em jornais mantinham o clichê de um Brasil paradisíaco, como ela conta a CartaCapital em sua residência paulistana. “Jamais romperam relações com o Brasil, ao contrário do ocorrido com o Chile, e não se sabia do asilo soviético a guerrilheiros e à família Prestes.” Vássina menciona um “efeito espelho”: “O Brasil espelhava a Rússia, na qual não se podia falar dos crimes de Stalin, do Gulag e de prisioneiros políticos. No teatro russo havia estreita vigilância, de maneira semelhante à censura ao teatro brasileiro”.

Seu doutorado analisava a maneira como Leilah Assumpção, Consuelo de Castro e Antônio Bivar, autores integrantes do Novo Drama, contornavam os mecanismos da repressão brasileira nos anos 1970. Do mesmo modo que a pesquisa jamais encontraria eco em seu país, ela ouviria um redondo “não” ao propor à editora estatal Progresso sua tradução da peça Patética (1977), de João Ribeiro Chaves Netto, sobre o assassinato de Vladimir Herzog. “Mesmo com o ingênuo protagonista a enxergar no sovietismo uma âncora de salvação, me disseram ser impossível publicar peça com falas sobre tortura a um preso político no Brasil.” A longa correspondência de Vássina com o teatrólogo Fernando Peixoto (1937-2012), então no comitê central do PCB, deu-lhe detalhamentos sobre essa censura. E foi ela a informá-lo (como a Boal, em 1990) sobre a restrição soviética à sua pesquisa: “Um choque muito grande para eles, e também para o dramaturgo Chaves Netto”.

Choque semelhante Vássina sofreu ao acompanhar o drama do marido Aron Erofeev, do qual se separou em 1998, ano em que emigrou para se tornar docente na USP. Curador da mostra Arte Proibida no Museu Sakharov de Moscou, em 2007, Erofeev sofreu processo por incitação ao ódio religioso movido pelo governo do então primeiro-ministro Vladimir Putin. A exposição fazia contemplar itens do pop russo como a Virgem do Caviar, de Aleksandr Kossolápov. A absolvição deu-se somente após dois anos em prisão domiciliar. Apesar da personalidade conservadora, fundada no cristianismo ortodoxo, Elena assim descreve a Virgem pop: “É uma crítica ao ‘novo homem russo’, que adora dinheiro e luxo, simbolizados no país pelo caviar”. Na última viagem a Moscou, em julho, escandalizou-se com os 87% de aprovação ao governo Putin, segundo ela “um novo stalinismo combinado ao pior do imperialismo americano”.

Mais do que clarificar aos brasileiros aspectos de sua própria história, Vássina promove traduções e organizações literárias em torno de seus amados Tolstoi, Dostoievski e Tchekhov, além de promover colaboração estreita com festivais e grupos teatrais, com a obtenção de prêmio da APCA em 2010 por O Idiota, da Mundana Cia. Empenhou-se para visitas ao Brasil dos mais importantes diretores russos da atualidade: Anatol Vassiliev, Adolf Shapiro e Sergei Zemtsov, “este brilhante no sistema Stanislavski, alfabeto de qualquer ator”, afiança a professora, hoje envolvida em nova tradução de escritos do encenador. Na infância, ouvia histórias sobre seu tio-avô Suren Khachaturian (irmão do compositor Aram), assistente do Teatro de Arte de Moscou, criado por Stanislavski.

A memória do pai, Nikolai Vássin, embarga-lhe a voz. Ferido e preso em batalha na Segunda Guerra Mundial, ele sobreviveu a quatro anos em campo nazista, até um dia desmaiar de fome. Seria fuzilado, mas à passagem de um oficial alemão foi esquecido à beira da estrada. Escondido por camponeses até a libertação, Nikolai sofreria, no entanto, o “ódio aos sobreviventes da Guerra”, fenômeno assim explicado: “Stalin pregava ser melhor morrer do que tornar-se prisioneiro e papai foi perseguido como ‘espião’ pela agência militar Smersh”.

Fervorosa de São Nicolau, classifica a sobrevida do pai como “milagre”, assim como considera “chamado divino” sua transferência ao Brasil. Orienta até dez discípulos brasileiros a um só tempo, entre eles tradutores, por ela coordenados em publicações como Liev Tolstoi – Os últimos dias. É entusiasta do autor de Guerra e Paz: “Se os últimos cem anos de guerras e revoluções sangrentas foram influenciados por Dostoievski, o novo século está sob a égide de Tolstoi, com cenário mais harmônico, de religação com terra, natureza e universo”.

Talvez só mesmo o messianismo dos últimos anos de Tolstoi possa confortá-la diante de realidades brutais. Em 1983, escalada como intérprete para candidatos russos ao concurso de canto Villa-Lobos, no Rio, teve a bolsa tungada enquanto sacava fotos na calçada do Hotel Glória. Ao lavrar boletim em delegacia, assistiu a policiais chutarem um mendigo suspeito de furto, por este ousar sentar-se no recinto. “Entendi assim a realidade da qual falava meu admirado Plínio Marcos, comparada à qual a ralé idealista de Gorki passou a me parecer água com açúcar.”