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Número 819,

Cultura

Teatro

Femininos indômitos

por Alvaro Machado — publicado 01/10/2014 03h38
Vidas extremas de Sylvia Plath e Rosa Luxemburgo ainda inspiram
Kleyton Guilherme

Ilhada em Mim - Sylvia Plath
Sesc Pinheiros, SP
Até 1º de novembro

Rózà
Casa do Povo, SP
De 2 a 19 outubro

Baleada após fuga de prisão berlinense, Rosa Luxemburgo foi jogada às águas geladas de um rio. A revolucionária polonesa, “a vermelha”, teve a voz calada em 1919. A norte-americana Sylvia Plath, grande expressão da poesia confessional de seu país, encerrou luta contra a depressão ao ligar o gás e pôr a cabeça no forno, em 1963.

Quase um século passado do primeiro fato e 50 anos após o segundo, ambas continuam a inspirar estudos teóricos e criações artísticas. Em Rózà, a diretora e atriz Martha Kiss Perrone dramatiza cartas que a pensadora marxista escreveu na prisão. Sua encenação multimídia tira grande partido de projeções de filmes sobre paredes do cubo branco que abriga também o público, bem como de metal rock executado ao vivo, por ela e duas intérpretes. A par de filigranas da sensibilidade dos anos 1910, a montagem arrisca contribuições, a citar protestos de rua brasileiros e o feminismo da banda russa Pussy Riot. A proposta ocupa a Casa do Povo, histórico prédio no Bom Retiro em quase abandono e, na melhor das hipóteses, em via de recuperar condição de centro cultural.

Ilhada em Mim dramatiza a última produção de Plath, paradoxalmente brilhante. O texto de Gabriela Mellão é base para voos do casamento, legal e teatral, de Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes, após incursões da dupla em Jean Cocteau e August Strindberg. Como a autora de Ariel, Djin tem chance de aprofundar dons expressivos, emoldurados não só pelo semblante de camafeu, mas por figurinos de Fause Haten, impiedosamente ensopados no tablado-piscina: os furacões na Baía de Massachusetts depositavam às vezes tubarões no jardim da autora. André encarna o marido inglês, o poeta Ted Hughes, de dimensão castradora justamente enfatizada. Assinada por ele, assim como a direção, a cenografia é terceira voz, a transpirar formalismos hauridos de Bob Wilson, do qual o paulista foi assistente no Brasil.

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