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Número 818,

Cultura

Cinema

Uma joia do cinema indie americano de 1953

por Orlando Margarido — publicado 23/09/2014 05h18
"O Pequeno Fugitivo", filme único do pós-Guerra americano que inovou na técnica e influenciou gerações, entra em cartaz
Divulgação
O pequeno fugitivo

Joey (Richie Andrusco), retrato da inocência possível

Cabe toda uma América no olhar de Joey, o garoto de 7 anos protagonista de O Pequeno Fugitivo, joia do cinema independente americano de 1953. Não apenas pela alternância entre o exultante e a tristeza, mas no que seus olhos mostram das situações entre um Brooklyn nova-iorquino ainda calmo e suburbano e a eufórica praia de Coney Island, onde viverá experiências idílicas a alguém de sua idade. Naquele um dia e meio em que o caçula perambula solitário depois de fugir por crer ter matado o irmão, há a diversão no carrossel, a pose de caubói para o fotógrafo, os repetidos passeios de pônei e a cata de vasilhames de refrigerante que lhe garantem os trocados para a farra.

É um painel da infância e inocência ainda possível num momento próprio do pós-Guerra, embalado pela retomada do progresso. Mas principalmente da certeza sensível do trio de diretores Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin, estes dois um casal de fotógrafos que experimentava o cinema, em capturar um período incomum.

Também inovadora foi a concepção do filme que influenciou a nouvelle vague francesa, inspirou François Truffaut a Os Incompreendidos e conquistou John Cassavettes e Martin Scorsese. Engel, então um renomado fotógrafo da vida americana, desenhou com Charlie Woodruff, inventor e parceiro no front, uma pequena câmera de mão de 35 milímetros que lhe garantiu a mobilidade para acompanhar as travessuras de Joey e ao mesmo tempo registrar os inúmeros figurantes involuntários sem ser notado.

A engenhoca se tornaria um modelo para a futura steadicam. Tão refinado surge o preto e branco de forte contraste que na escola fotográfica americana lembra o trabalho de colegas como Walker Evans e Dorothea Lange. Acima de tudo, o diretor de obra única deve ao achado de Richie Andrusco, o cativante ator não profissional de olhar inocente, o triunfo do filme, tanto quanto Antoine Doinel foi para Truffaut.

Confira o trailer abaixo: