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Número 818,

Cultura

Culinária

Um japonês japonês

por Marcio Alemão publicado 20/09/2014 09h22
Murakami faz para o paladar o que o Ukiyo-ê faz para a arte
Peu Reis
Japonês

Guindara no missoyaki: sabor suspenso na boca

Foi assim: há mais de um ano estive no Kinoshita com várias pessoas. Ficamos felizes, mas não completamente. Faltou alguma coisa.

Voltei a fita, reexaminei as cenas e percebi que não rolou, naquele dia, uma integração entre nós e o restaurante. Mundos separados. Calados. Distantes.

Acho que deixei passar um ou dois dias e falei com Murakami. Nada a fazer a não ser tentar uma nova rodada.

E as folhas do calendário saíram voando até que mais de um ano depois perguntei: “Rola neste sábado?”

Desta vez no balcão, de frente para Murakami e para Thaís Pepe, uma menina encantadora, hábil, precisa e com a humildade de quem sabe muito. Tsuyoshi é sempre um anfitrião extraordinário. Um mestre do haicai gourmet. E partimos para a degustação:

Sugaki (salada de ostras baby): o mar chegando perto. Você acha que não passa da canela, mas a onda de sabor te cobre.

Maguro onsen (ovo da Fazenda Yamaguishi com atum, tipo mebachi, ao molho ponzu e yuzu): o tal ovo perfeito com gema perfeita e que se integra com o peixe e os molhos da mesma maneira...  perfeita.

Umi karashi missô (vieira, polvo e camarão ao molho de missô picante e mostarda karashi): um dos pratos que dá vontade de ficar olhando sem tocar. E pode ser uma experiência.

Maguro toro tataki (barriga de atum mebachi ao molho de gengibre, alho e shoyu Kinoshita): esse momento chega a ser assustador. O sabor desse peixe, a textura e a maneira como ele desaparece na boca e deixa um enorme vazio.

Kappo sashimi sushi Kinoshita: neste momento, quem nunca foi ao Kinoshita pode fazer a comparação direta com os demais japas da cidade.

Tyawamushi truffle  (flan de ovos com frutos do mar e sobrecoxa Korin coberto com concentrado de trufas): um exemplo maravilhoso do que pode ser a comfort food japonesa. Um parto que te ampara, que te restaura, que te emociona.

Guindara no missoyaki (sablefish do Alaska marinado no missô e resíduo de saquê grelhado e teriyaki caseiro).

Nasubi sara udon (berinjela japonesa com macarrão extrafino crocante e dashi Kinoshita).

Com esses dois últimos pratos terminamos a noite, desta vez com alegria, com encanto. Murakami nos conta que a cada novo menu, volta mais para as suas origens. Seu restaurante está cada dia mais japonês. Isso, em São Paulo, é um diferencial significativo.