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Número 818,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

The Bang Bang Club

por Thomaz Wood Jr. publicado 24/09/2014 04h05, última modificação 25/09/2014 10h55
Filme conta a história real de quatro fotógrafos que cobriram o fim do Apartheid e ilustra o sentido mais profundo do trabalho
Divulgação
The Bang Bang Club

Cena do filme The Bang Bang Club

A distribuição de filmes tem suas peculiaridades. Grandes produções movidas a estrelas, pirotecnias e verbas de marketing têm mercado certo. Disputam o restante das salas produções de nicho, filmes europeus e obras de origem diversa que eventualmente caem no gosto dos distribuidores.

The Bang Bang Club, produzido em 2009, parece não ter se encaixado em nenhuma categoria. Se o filme foi exibido em algum cinema local, talvez tenha sido por cortesia de algum organizador de festival. A película foi baseada em livro homônimo, escrito pelos fotógrafos Greg Marinovich e João Silva, que formavam o clube do título, com Kevin Carter e Ken Oosterbroek.

A história se passa no final do regime de Apartheid, na África do Sul, nos anos 1990. Nelson Mandela havia sido libertado de um longo período nas prisões da Ilha Robben e de Pollsmoor. Os guetos negros estavam em convulsão, com lutas frequentes entre partidários do Congresso Nacional Africano, de Mandela, e seus rivais do Partido da Liberdade Inkatha. Os quatro fotógrafos capturaram a violenta transição do país em direção ao regime democrático.

Eles arriscaram a vida na linha de frente. Oosterbroek foi mortalmente atingido por fogo amigo em abril de 1994, enquanto cobria um conflito em Thokosa, perto de Johannesburgo. Tinha 31 anos. Carter, o mais sensível e turbulento dos quatro, cometeu suicídio em julho de 1994, ligando o escapamento à cabine de seu carro. Tinha 33 anos.

As imagens dos fotógrafos do Bang Bang Club provocaram polêmica, pela violência crua que revelaram. Eles foram cultuados e criticados. O filme transita entre temas pesados: os conflitos étnicos da África do Sul e os dilemas éticos dos fotógrafos diante da sordidez humana. O roteiro é centrado na história dos dois fotógrafos que ganharam o Prêmio Pulitzer: Marinovich e Carter.

O filme tem o ritmo marcado por sucessivas cenas de ação, reconstituindo as incursões dos fotógrafos nos conflagrados guetos negros sul-africanos. A única cena de evasão dura menos de um minuto e ocorre no meio do filme, quando os fotógrafos e suas companheiras relaxam em um lago encravado nas pedras, ao som de Pale Blue Eyes, cantada por Lou Reed, do Velvet Underground.

O filme começa com uma entrevista radiofônica de Carter, realizada em abril de 1994, após o fotógrafo ter ganhado o Pulitzer, por uma foto feita no Sudão. A entrevistadora pergunta: ­ ­“Kevin, o que você acredita que faz uma grande fotografia?” Segue-se um longo silêncio. A resposta vem apenas no final do filme: Carter responde, testando as palavras: “Eu não sei, realmente... você tira a foto e vê o que você obteve... Mas talvez o que torne uma foto excepcional é que ela também questiona, sabe? Não é apenas espetáculo. É mais que isso (...) você sai a campo e vê coisas ruins, horríveis, e você quer fazer algo a respeito. Então, o que você faz é tirar a foto que mostra isso. Mas nem todo mundo vai gostar do que vai ver. É preciso entender que eles podem querer matar o mensageiro”.

Uma grande fotografia pode conter uma narrativa completa, concentrando signos, significados e imagens que se materializam diante do fotógrafo, são capturados em uma fração de segundo e depois reinterpretados por quem a vê. O fotógrafo é o agente capaz de compreender o contexto, postar-se diante da configuração exata de luz, sombra, objetos e pessoas, e definir o momento exato no qual a intensa e complexa bricolagem toma forma. O processo pode ser ao mesmo tempo intencional, intuitivo e aleatório. Frequentemente, para o próprio fotógrafo, o resultado parece mágico, uma epifania.

Os fotógrafos do Bang Bang Club ilustram o que pode ser o trabalho em seu sentido mais profundo de realização, um trabalho que cria algo marcante e provoca impacto social; que é recompensador, gera intenso prazer e sentimento de rea­lização; que provê experiências humanas recompensadoras; que estrutura o dia a dia, de forma flexível, sem transformar a rotina em repetição mecânica; que sustenta e garante a autonomia do indivíduo; que é moralmente aceitável e vai além, questionando o status quo e possibilitando novas interpretações e visões da realidade. Não é pouco e parece ser cada vez mais raro.