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Número 818,

Economia

Análise / Paul Krugman

O reformismo errado

por Paul Krugman — publicado 25/09/2014 04h49
A recuperação da Espanha, revelam os dados, não significa uma vitória da reforma estrutural
Marc/Flickr
Espanha

A Espanha sofreu uma depressão em grande escala quando sua bolha da habitação estourou

O Financial Times publicou, recentemente, um artigo decente sobre a doutrina emergente da “draghinomia”, muito parecida com a “blanchardnomia”, que muito se parece com a “krugmanomia” – ora, todos estudamos macroeconomia no MIT em meados dos anos 1970.

Mas fiquei impressionado com o trecho “outra autoridade graduada da Zona do Euro que participou do fórum italiano que reúne criadores de políticas, empresários e acadêmicos disse que ‘as reformas estruturais são cruciais. Os países que fizeram esses esforços estão se saindo melhor: Irlanda, Espanha e Portugal. A Itália e a França deveriam pensar um pouco nisso’”.

Para quem não participa do culto à reforma estrutural, a história da Espanha é esta: o país sofreu uma depressão em grande escala quando sua bolha da habitação estourou. A depressão levou a uma gradual e dolorosa “desvalorização interna” conforme os custos da mão de obra caíam, tornando a Espanha mais competitiva com o resto da Europa. Em consequência,  a Espanha finalmente começa uma ligeira recuperação, com um índice de crescimento nos últimos trimestres maior que o da França.

Ver isso como uma vitória da reforma estrutural exige preconceitos tão fortes que é difícil ver por que se importariam em examinar os dados.

Quando a crise econômica de 2008 começou, quem soubesse um pouco de história tinha pesadelos com uma repetição da década de 1930 – a profundidade da Depressão e o redemoinho político descendente para a ditadura e a guerra.

Mas agora foi diferente: a crise bancária foi contida, o mergulho na produção e no emprego foi nivelado e a cultura política democrática da Europa moderna mostrou-se mais resistente que a dos anos entreguerras. Tudo claro! Ou talvez não.

Uma reação efetiva à crise foi seguida de uma opção errada pela austeridade e, na Europa, uma combinação de má política monetária com um sistema monetário que de certa maneira se revela pior que o padrão-ouro. O resultado é que, apesar de os primeiros anos desta crise terem sido muito melhores que os da década de 1930, o desempenho econômico da Europa está na verdade pior que em 1935.

E o cenário político está desmoronando. A Hungria já atingiu o ponto em que seu líder declara intenção de pôr fim à democracia liberal; graças à austeridade, partidos extremistas ganham terreno nas eleições, a Suécia sendo o último choque; e, é claro, os movimentos separatistas assustam todo mundo.

Estamos longe da década de 1930 do ponto de vista político. Mas começa-se a perguntar se eventualmente a autocongratulação sobre a condução política da Depressão 2.0 parecerá tão boa quanto o otimismo econômico de alguns anos atrás.

Charles Kindleberger,  meu antigo professor no MIT, dizia que quem passa tempo demais pensando no dinheiro internacional enlouquece. Começam a ficar obcecados com o papel internacional do dólar como a coisa mais importante do mundo, quando é bastante trivial.

Algo semelhante ocorre com quem pensa demais no dinheiro em geral, tentando decodificar a sua verdadeira importância e encontrar a verdadeira medida da sua oferta. Acabam por acreditar que tudo na economia depende de acertar essa medida, quando na verdade quase nada depende.

Uma variante particular dessa loucura é a posição de que, como não podemos definir claramente o dinheiro, e como não há um multiplicador fixo para ele, a política monetária não importa. É tão errada quanto a visão simplista de que “imprimir dinheiro” leva diretamente à inflação.

A irrelevância da base monetária não é uma questão genérica; acontece quando se está em uma armadilha de liquidez – quando as taxas de juro estão no limite inferior a zero. Em 1998, previ essa desconexão em um trabalho de pesquisa.

Pode-se ver por que fico tão incomodado por declarações de que ninguém poderia ter previsto o fracasso de uma expansão da folha de pagamento para causar inflação, como por afirmações de que esses economistas convencionais como eu simplesmente não entendem que o dinheiro é endógeno. Expus tudo isso 16 anos atrás.

E quanto à ideia de que a ausência de uma clara definição de dinheiro, mais o fato de que a  sua maior parte é criada pelas instituições financeiras, significa que os BCs não importam, o economista James Tobin lidou há mais de 50 anos. Em seu trabalho de 1963, Tobin previu praticamente todas as peças do debate atual.

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