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Número 818,

Economia

Análise / Delfim Netto

Nunca é o cidadão...

por Delfim Netto publicado 26/09/2014 03h44
O capitalismo é o instante de um processo evolutivo que constrói instituições para viabilizar uma sociedade civilizada
Surizar/Flickr
Capitalismo

Até há não muito tempo, houve o mito de que só o socialismo pode acabar com a desigualdade

"O socialismo é a forma mais adequada de organizar a sociedade.” Até há não muito tempo foi um dos grandes mitos indutores da crença de que só ele era capaz de produzir a felicidade geral. Não existiu pensador de alguma expressão que não tenha construído a sua utopia, onde um rei-filósofo, desinteressado de si e preocupado apenas com o bem-estar dos seus súditos, organiza racionalmente a sociedade. A figura do rei varia. Pode ser o proletariado ou sua vanguarda de intelectuais escondidos em alguma igreja secreta. Pode ser o partido que se assume como seu representante. Nunca é o cidadão, o ser individual que se entristece ou se alegra, quem determina como deseja viver. É o rei quem decide o que ele precisa para ser feliz. Por construção, o rei sabe mais do que ele. O rei é bom. É racional. É impessoal. É justo. O rei pode até ser a vontade da maioria desinformada na urna.

A juventude, vivendo num mundo cruel sujeito às leis da escassez, assiste a um quadro de desigualdades exageradas e reage indignada. É levada a acreditar que tudo isso é produto do “miserável capitalismo” e aceita sem crítica o mundo do “maravilhoso socialismo”. Compara o miserável capitalismo real com o perfeito socialismo ideal. Não demonstra preocupação em tentar saber se o programa que o socialismo ideal promete sem custo (liberdade, igualdade, justiça e felicidade) foi alguma vez, na história, capaz de produzir uma sociedade civilizada.

Os homens mais sofridos que já viveram aquela esperança comparam o miserável “socialismo real” que a história lhes revelou com o maravilhoso “capitalismo ideal”, no qual todas as condições que encantam alguns economistas são satisfeitas. Nele, o rei mercado realiza automaticamente o máximo de eficácia produtiva, com plena liberdade individual e uma distribuição de renda aceitável. Pois bem, nem o “capitalismo ideal” nem o “socialismo ideal” existem. São apenas sedutores entes metafísicos.

O paleoliberalismo exacerbado do rei mercado e o voluntarismo extremado do rei burocrata são, ambos, produtos de cérebros peregrinos. Ignorando-os, os homens que vivem do trabalho honesto foram encontrando ao longo da sua história, por tentativa e erro, por meio de um processo seletivo quase biológico, instituições que levaram a uma organização social apoiada na liberdade de iniciativa. Entenderam que a liberdade de iniciativa estimula a criação e a apropriação de conhecimentos tecnológicos, o que engendra uma crescente eficiência produtiva. Em larga medida, os “mercados” são o produto da cooperação natural espontânea entre os homens. A divisão do trabalho aumentou a eficiência produtiva e coordenou as necessidades de cada um com a capacidade dos outros para atendê-las. Mas os “mercados” não são o “capitalismo”.

O “capitalismo” é o velho “mercado” da antiguidade, somado a mais um – “o mercado de trabalho” – e à instituição da propriedade privada. Ele separou a sociedade em duas classes: os detentores do capital e os que lhes vendem a sua força de trabalho. Isso aumentou ainda mais a eficiência produtiva, mas criou dois graves problemas: por um lado, produziu uma exagerada desigualdade de renda e, por outro, aumentou as incertezas do trabalhador com a aleatoriedade do seu emprego. É por isso que o “capitalismo” só funciona quando protegido por um Estado forte, constitucionalmente limitado, capaz de garantir a propriedade privada e de regulá-lo para reduzir seus inconvenientes.

O “capitalismo” é um instante de um processo evolutivo que constrói instituições que vão tornando viável a sociedade civilizada ao combinar valores não inteiramente compatíveis: a plena liberdade de iniciativa que cria o homem, a construção continuada da igualdade de oportunidade para todos, que dá estabilidade à sociedade, e o estímulo ao funcionamento eficiente do sistema produtivo.

O “socialismo real” morreu. Não foi o estágio superior do capitalismo como se esperava. Foi apenas seu medíocre substituto. Um quarto de século depois não deixa de ser cômico assistir, na atual propaganda eleitoral, à indecente desonestidade intelectual de um dos lados e a indigente ausência de ideias do outro. Competem à altura com a triste figura de uma “verdadeira esquerda nacional” que se classifica a si mesma de “progressista”, mas retrógrada, porque sugere repetir experiências fracassadas. E “democrática”, porque acredita piamente ser portadora de uma visão privilegiada do mundo.

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