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Número 818,

Política

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Expectativas irracionais

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 28/09/2014 07h48
Anotações sobre o debate econômico tolo e medíocre encabeçado pelos gurus da velha e da nova política
Chico Bela
Ilustração

Quais seriam as origens intelectuais da recente e persistente crise financeira?

A disputa eleitoral aquece corações e mentes. Os assessores econômicos dos candidatos deitam falação: ensinam aos mortais as verdades da boa, saudável e correta política macroeconômica.

Nas últimas semanas, recostado nas desconfianças de minhas incertezas, entreguei-me à leitura e releitura de livros e artigos sobre as origens intelectuais da recente e persistente crise financeira. Entre tantos, sugiro os trabalhos mais recentes de Claudio Borio, economista do BIS (The International Monetary and Financial System: its Achilles Heel and what to do about it). A leitura de Borio encontra complemento instigante na peregrinação de Martin Wolf narrada em seu livro The Shifts and Shocks: What we learned from the Financial Crisis.

Melhor ainda: para danar neurônios sensíveis a desenganos teóricos gravemente afetados pela anestésica macroeconomia das últimas décadas, recomendo, a seguir, uma mezinha suave, sem efeitos colaterais.

O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, das alturas de seu pedestal ortodoxo, escreveu uma crítica incômoda para crentes e adjacências dos modelos que inspiram as políticas macroeconômicas contemporâneas na revista Finance and Development. No texto Where Danger Lurks, o autor dedica-se ao desvendamento das relações perigosas entre o pensamento dominante, as mazelas e omissões dos formuladores das políticas e as ilusórias condições sociais e econômicas que permitiram tal contubérnio. Blanchard dispara: “As técnicas que utilizamos afetam profundamente nosso modo de pensar, nem sempre de forma consciente. Esse é o caso da macroeconomia dominante nos anos que antecederam a crise. As técnicas estavam ajustadas para uma visão do mundo na qual as flutuações econômicas ocorriam de forma regular e autocorretiva”.

Para compreender como essa visão surgiu, diz Blanchard, é preciso retroceder à assim chamada “revolução das expectativas racionais” dos anos 1970. A ideia central não é nova: o comportamento dos indivíduos e das empresas não depende apenas das condições econômicas presentes, mas das expectativas a respeito do futuro”. A novidade está no suposto que afirma a capacidade dos indivíduos e das empresas em obter a melhor avaliação possível do futuro. Aqui, Blanchard introduz uma ligeira dificuldade “técnica”: as decisões dependem do futuro esperado, mas (na vida dos homens) o futuro esperado é “construído” pelas decisões do presente.

Se as dores não foram muitas, vale a pena arriscar a releitura do outrora menosprezado e ora celebrado Hyman Minsky, sobretudo dos indispensáveis John Maynard Keynes e Stabilizing the Unstable Economy. O primeiro livro leva o nome do maior economista do século XX e foi escrito com o propósito de libertá-lo do cativeiro em que o enfiaram seus discípulos do “keynesianismo bastardo” e livrar o infeliz das masmorras em que o enjaularam as forças, hoje desmoralizadas, porém persistentes, do espírito do tempo, esse atoleimado contubérnio entre informações instantâneas, mídia de massas e barbáries ciberespaciais.

Publicado em 1975, o texto era quase clandestino nas academias americanas e brasileiras – estas, abastecidas por aquelas. Minsky era apenas estudado nas escolas de economia em que predominava o pensamento livre, despojado dos preconceitos e de certezas, ou seja, das crenças e superstições da economia teoclássica que Blanchard destroça em seu artigo. (O dicionário do Word tenta me corrigir e insiste na expressão neoclássica. Coisas de dicionários desatualizados.)

Minsky procura mostrar que as decisões capitalistas supõem, portanto, a especulação permanente a respeito do futuro, o que envolve a contínua reavaliação do presente. “As decisões financeiras”, diz Minsky, “são tomadas em torno de um futuro imaginado por credores e devedores como resultado de negociações em que são trocadas informações e desinformações. O resultado reflete opiniões sobre um projeto particular à luz dos sucessos e fracassos da economia no passado recente e no mais distante... A incerteza em relação ao modelo adequado para formar as expectativas pode ser maior se muitos anos se passaram desde a última crise financeira... Essa incerteza fundamental significa que as margens de segurança calculadas pelos agentes devem variar”.

Os anos 70 do século passado registram a emergência da hipótese das expectativas racionais e de seus modelos mais tolos do que inúteis. A palavra de ordem proclamava a necessidade de desarticular os controles sociais e políticos criados para administrar a “economia de mercado” após a Grande Depressão dos anos 30.  Na primeira década do terceiro milênio, a aventura terminou em uma destemperada intervenção do Estado para “salvar o capitalismo destrambelhado de si mesmo”.

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