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Número 818,

Internacional

Protagonista

Bernardo Katz, o violoncelista caçado pela Interpol

por Eduardo Graça — publicado 26/09/2014 03h41
Brasileiro que fez fortuna com bolha imobiliária nos EUA afirma ter caído em desgraça depois de se ver no centro de disputa política e está na lista de procurados internacionais acusado de conspiração
Pedro Garrido
Bernardo Katz

"Queriam me calar", diz Bernardo Katz

Fale em voz alta o nome e o sobrenome no bairro de Beechview ou em Mount Lebanon, subúrbio de classe média alta limítrofe a Pittsburgh, na Pensilvânia, e as reações chegam em variantes da pergunta: “Não é aquele empreendedor que fugiu com uma mala de dinheiro para o Brasil e nunca mais voltou?”

Bernardo Katz é o tal empreendedor. Músico premiado, desde 2007 de volta ao Rio de Janeiro após 24 anos nos EUA, ele vive em um apartamento de fundos na Praia do Flamengo, sem vista para a Baía de Guanabara, avaliado em 850 mil reais. Sua outra propriedade é uma casa em Teresópolis, comprada sete anos antes de voltar a viver no País, por 260 mil. Seu carro é um Santana Quantum ano 2000. Sua família vive hoje da música. Katz acaba de gravar, de forma pioneira no Brasil, as seis suítes para violoncelo de Bach em um mesmo dia. Sua mulher, Holly, americana de origem, recebe um salário mensal de 3,5 mil reais da Universidade Federal Fluminense.

Um rápido olhar pelo apartamento simpático, mas simples, onde vive o casal Katz e quatro filhos (Deborah, David, Rafael e Rubem, todos nascidos nos Estados Unidos) impõe a questão: onde foram parar os milhões de dólares do brasileiro, que fez fortuna antes da explosão da bolha imobiliária nos EUA, afirma ter caído em desgraça depois de se ver no centro de uma disputa política na América Profunda, e aparece na lista dos procurados pela Interpol, acusado de fazer parte de uma conspiração para aumentar artificialmente o valor de três imóveis?

Frenético, ele tenta responder: “Entrei em pânico quando recebi a informação de que células americanas no Brasil estariam interessadas em me calar. Estou apto a esmiuçar a crise de corrupção por detrás da bolha imobiliária e, por ter dupla cidadania e viver no Brasil, não ser preso. Posso entregar muita gente poderosa, escritórios de advocacia, banqueiros, corretores, tenho um mapa pronto do caminho percorrido pelo dinheiro dos contribuintes americanos que poderia voltar para os cofres públicos em Pittsburgh”, elenca. “Tentei estabelecer um canal de comunicação com os procuradores do caso, propus um encontro no consulado americano do Rio, mas ninguém me responde. Só fui acionado judicialmente, e por e-mail, um ano e meio depois de me mudar para o Brasil. Eles não queriam me prender, e sim me calar. Não viajei com mala de dinheiro alguma, fui roubado e usado como bode expiatório para salvar a pele de gente muito mais importante do que eu.”

Intenso, na descrição da mulher com quem vive há 26 anos, Katz é uma figura caleidoscópica, capaz de elogiar o interlocutor entre uma e outra declaração grandiloquente sobre algum fato corriqueiro. Usa nomes e sobrenomes amiúde, tem um vasto vocabulário de citações e não se esforça para disfarçar o orgulho de sua trajetória profissional e de vida. Compara sua história àquela de Alfred Dreyfuss, acusado injustamente de traição à França no fim do século XIX e notória vítima de antissemitismo.

Filho de um dentista e uma professora de matemática, Katz, judeu, destacou-se ao ganhar, no início da adolescência, concorridos torneios de xadrez. Considerado um prodígio, aos 16 anos entrou na Faculdade de Música e logo seria fluente em seis línguas. Ganhou uma bolsa de estudos e viveu na Alemanha por seis anos. Aos 23 voltou ao Brasil e, 12 meses depois, partiu para uma pós-graduação nos EUA. Viveu os cinco anos seguintes na ponte aérea, entre o posto de professor titular no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio, e os estudos na América do Norte. Conheceu Holly, spalla da Orquestra de Phoenix, no Arizona, em 1989. Quando ela foi convidada para trabalhar sob a batuta do famoso maestro Lorin Maazel na Orquestra de Pittsburgh, o casal se mudou com a família em expansão, em 1992, para a segunda maior cidade da Pensilvânia, de cerca de 300 mil habitantes.

Chamada de “cidade do aço”, por conta da forte indústria siderúrgica, Pittsburgh reinventou-se como polo de tecnologia. A cidade é cortada por dois rios, o Allegheny e o Monongahela, que se unem para formar um terceiro, o Ohio. Seus montes oferecem belíssimas vistas, mas dificultam a locomoção. O pontapé da aventura no ramo imobiliário de Bernardo foi justamente a necessidade de aumentar a garagem de casa para guardar os carros da família. “A mão de obra era proibitiva e decidi tentar comprar uma casa maior, mas não tinha os valores em mãos nem conseguia vender minha casa tão rapidamente assim. Aí um corretor me disse: ‘Por que você não aluga sua casa e dá a entrada em outra?’”

Katz alugou a primeira casa, avaliada em 125 mil dólares, por 1,3 mil ao mês. E passou a pagar uma hipoteca de 1,2 mil dólares por uma propriedade muito maior, de 350 mil. “Saí com uma grana extra. Gostei do negócio e logo estava com uma segunda, uma terceira, uma quarta, dez casas. Os financiamentos eram tão fáceis que abandonei a função de primeiro-substituto nas sinfônicas de Pittsburgh e Nova York e criei uma estrutura para administrar as propriedades.” O brasileiro abriu três empresas: a Rio Properties, a Phoenix Properties, em sociedade com Angelo Misto, e a A&B, em parceria com Anthony Paravati. Misto e Paravati tornaram-se inimigos de Katz, que os acusa de roubo, e não atenderam aos pedidos de entrevista. Em Pittsburgh, o músico chegou a ser dono de 50 imóveis avaliados em 10 milhões de dólares. Também investiu na Flórida, onde comprou cem apartamentos em Fort Lauderdale, e em Omaha, no Nebraska, com outras 250 unidades.

A desgraça de Katz, que vivia em uma espaçosa casa “cuja sala era do tamanho do apartamento no Rio”, no subúrbio de Mt. Lebanon, endereço de várias propriedades suas, começou quando ele decidiu investir no bairro popular de Beachview. Com uma estação de bonde na rua principal a oferecer acesso fácil ao Centro e casas amplas, ocupadas até os anos 1970 por descendentes de imigrantes italianos, irlandeses e alemães, Beachview entrara em decadência por causa do fim da segregação racial das escolas públicas da cidade. A migração dos moradores caucasianos para subúrbios como Mt. Lebanon esvaziou e empobreceu a região.

“Quando Bernardo me procurou, a rua principal era tomada por dois bares barra-pesada e venda de heroína. Seu plano era gentrificar a área. Comprar os bares e instalar um restaurante mexicano e um cinema de arte. Ele conseguiu cartas de intenção da rede de sorvetes Ben&Jerry e de um dos principais rivais do Starbucks, o Best Coffee. O projeto era sensacional e a prefeitura adorou”, conta Michael Diven, ex-deputado.

Diven foi o mais jovem político eleito para a Assembleia Legislativa da Pensilvânia e interrompeu uma sequência de deputados no distrito em que fica Beach-
view com os sobrenomes Gigliotti ou Wagner, as duas famílias mais poderosas da área. Todos filiados ao Partido Democrata, que domina sem oposição a política local. Diven e o então prefeito Tom Murphy se empolgaram com o projeto e conseguiram garantir a aprovação de um financiamento de 500 milhões de dólares da Agência de Desenvolvimento Econômico da cidade para uma ampla reforma urbana em Beachview. A essa altura, Katz tinha se tornado dono da maioria das propriedades do distrito comercial do bairro e a expectativa, segundo Diven, era de que “os imóveis quadruplicassem de valor em dois anos”.

Enquanto o brasileiro esperava a aprovação do financiamento pela Câmara de Vereadores, Diven rompeu espetacularmente com a liderança democrata, em 2005, ao acusar os colegas de “ladrões e criminosos”. Migrou para o Partido Republicano e perdeu a cadeira para Chelsa Wagner. Foi a derrocada do projeto e do brasileiro. “Os vereadores passaram a segurar a aprovação. O cacique político da família, Jack Wagner, tio de Chelsa, tinha medo de que as melhorias no bairro jogassem seu reduto no colo de Diven. O novo prefeito, eleito em 2006, era ligado aos Wagner. Fiquei com as mãos atadas, não podia nem derrubar os prédios nem alugá-los, pois as cartas de intenção eram condicionadas à contrapartida da prefeitura. Embora a criminalidade no local tenha diminuído em 25%, mesma proporção da valorização dos imóveis, comecei a perder muito dinheiro”, recorda Katz.

De acordo com o músico e empreendedor, suas propriedades começaram a receber visitas constantes de fiscais municipais. Para manter a casa onde seria instalada a Câmara Hispano-Americana de Comércio, comprada, como o Centro dos Idosos, o principal imóvel da área, da família Wagner, Katz foi obrigado a reformar a estrutura de esgoto da propriedade, exigência incomum. Pouco tempo depois, a casa pegou fogo e foi completamente destruída. “Consegui acesso a um documento da polícia local, segundo o qual o incêndio teria sido criminoso, mas a investigação acabou arquivada. Passei a receber ameaças de morte e fiz duas reclamações formais”, afirma o brasileiro.

Um tempo depois, durante uma reunião de lideranças comunitárias para tratar do projeto, Katz teria, segundo ele mesmo, cometido um suicídio empresarial: “Disse em alto e bom som que todos eram comprados pelos Wagner, que dependiam deles para garantir os empregos”. No encontro seguinte, em novembro de 2006, conta Diven, o brasileiro foi linchado moralmente. “Não havia saída possível”, avalia o ex-deputado, que desenvolveu um câncer linfático e abandonou a política. Com a saúde da mulher em frangalhos (“ela chegou a tentar o suicídio”) e o clima hostil na cidade, Katz diz ter percebido a fragilidade de sua posição em Pittsburgh e decidiu voltar para o Rio.

Com exceção da propriedade destruída pelo fogo, um troféu para os Wagner, um lembrete do que acontece com quem se mete com eles, diz Katz, os imóveis foram devolvidos aos antigos donos. O empreendedor viu sua fortuna virar pó. “Calculo minha dívida em 5 milhões de dólares. Meus imóveis foram retomados pelos bancos sem qualquer auditoria, pois fui acusado de ser foragido. Se eu voltasse, teria de responder imediatamente ao processo, sem dinheiro para correr atrás. Não poderia arriscar meus filhos, minha família.”

Em julho de 2010, um júri condenou o advogado especializado em fechar contratos imobiliários na região de Pittsburgh, John L. Chaffo Jr., depois de uma investigação federal. Segundo documentos do FBI, em um período de seis anos, Chaffo foi o responsável por fechar 57 transações fraudulentas de financiamento no total de 10 milhões de dólares. As principais evidências foram justamente a inexistência das contrapartidas e de elevação artificial de preços de propriedades. Os documentos, tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos EUA, classificam Katz como um dos vendedores acusados judicialmente de participar do esquema. Chaffo foi condenado em dezembro de 2010 a quatro anos e nove meses de prisão.

Um acesso à internet é suficiente para encontrar o nome de Katz na lista de procurados da Interpol, acusado de conspiração e fraude financeira e bancária. Há ainda o pedido para “quem tiver informações sobre seu paradeiro informar imediatamente à polícia local ou federal”. Em seu primeiro endereço na volta ao Rio, diz Holly, ela teve de informar à síndica que passaria a gravar no celular todas as hostilidades contra a família. “Ela nos chamava de ladrões em áreas comuns do prédio. Um horror.” O músico esbraveja: “Não sou foragido. Saí pela porta da frente e tenho endereço certo e domicílio notadamente conhecido. E se o crime é de conspiração, por que não são acusados também os bancos, meus sócios, os escritórios de advocacia, os corretores financeiros e os compradores dos imóveis, todos cientes dos valores estabelecidos? E quem recebeu dinheiro meu por fora, como os Wagner, que me pediram uma segunda hipoteca para o imóvel deles, o que é ilegal?” Além do financiamento, afirma o brasileiro, foram pagos 50 mil dólares em dinheiro a Robert Wagner, irmão de Jack, para adquirir o Centro dos Idosos em Beachview.

Katz promete voltar um dia aos EUA e limpar seu nome. “Sou um carrapato. Pego no pé e não largo mais. Sei que não sou apenas uma vítima, participei da ganância, quis tirar vantagem, mas andava para a frente, como todo mundo. A diferença é que, comigo, foram dois pesos e duas medidas. Meu erro foi ter acreditado que nos EUA seria diferente.”

Ao contrário do Dreyfuss, que amargou a prisão na Guiana Francesa entre 1894 e 1899, o músico vive em liberdade graças à cidadania brasileira e à inexistência de um tratado de deportação entre os dois países. “Parece clichê, mas, quando a coisa começou a ficar muito ruim em Pittsburgh, eu corria todas as noites pelas ladeiras da cidade e cantava ‘verás que um filho teu não foge à luta’ e ‘terra adorada, dos filhos deste solo és mãe gentil’.”

O músico, um dos personagens mais inesperados das desventuras do mercado imobiliário americano, garante que o dinheiro jamais foi seu objetivo final. “Ele não traz a felicidade, mas oferece a oportunidade de se dizer não. De não se apresentar em uma sala sem o ar-condicionado adequado. De não tocar com um pianista que você não gosta. De comprar violoncelos melhores. O dinheiro não foi meu guia, e sim a integridade emocional que ele me proporcionava.”

Além de um dia voltar de cabeça erguida ao país onde nasceram seus filhos, o brasileiro sonha em transformar sua peculiar história em um livro, quem sabe um filme. Seria um daqueles thrillers políticos típicos de Hollywood.

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