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Número 818,

Sociedade

Futebol

Até onde o governo pode ir?

por Afonsinho publicado 25/09/2014 04h49
A discussão sobre a CBF e o futuro do esporte ganha novos interlocutores da sociedade civil: ABI e OAB
Diogo Rodrigues Gonçalves/Flickr
CBF

O futuro da CBF em discussão

A associação brasileira de Imprensa (ABI) promoveu seminário no Rio de Janeiro para discutir a situação do esporte brasileiro. O título – “ABI pensa a CBF e o legado da Copa atenta aos Jogos Olímpicos Rio-16” – mostrou a visão ampla da reflexão proposta. Painel extenso e, sobretudo, intenso a partir da Copa do Mundo de 2014, que deixou aparvalhado o País inteiro. A avaliação ainda recuou aos Jogos Pan-Americanos acontecidos há poucos anos, que deixaram balanço deplorável.

É outra demonstração da acurada sensibilidade do órgão de classe, tradicional baluarte de defesa das causas caras à sociedade brasileira. E mais uma entidade junta seu peso à mobilização pela recuperação do nosso esporte. A OAB-RJ empresta seu apoio aos jogadores na discussão dos graves problemas a serem enfrentados – organização igualmente atenta na promoção dos interesses do Brasil.

Nada dessa conversa fiada de que a CBF é entidade privada, de que não pode ser tocada. Superada há muito tempo a hipótese de intervenção do governo. Lá atrás, João Saldanha já deixava claro não haver necessidade da estatização do esporte. O que não significa descuido do Estado, o abandono dos valores da população ao deus-dará dos cartolas. O esporte é clausula da Constituição.
Não estão nada satisfeitos os poderes maiores da sociedade, patrocinadores e mídia, com o descrédito em que se afundou a atividade esportiva brasileira. Vergonhosa seria a submissão do Brasil inteiro a essa situação humilhante. Sem esquecer que, se chegamos a tal ponto de degradação, há responsáveis por isso.

A mobilização em curso vai nos conduzir a melhores dias, ainda que recuperar nossas conquistas esportivas possa custar algum tempo.

A participação do secretário de Futebol e Defesa dos Direitos dos Torcedores, Toninho Nascimento, na discussão da ABI, esclareceu o que se passa hoje na esfera do Ministério do Esporte. Deu contas de como se encontra o projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), antes chamado de Proforte. A proposta chegou a um ponto próximo de consenso entre as partes interessadas, apesar do corpo mole da CBF, que, em maus lençóis, procura deixar o tempo passar. O que acumula ressentimentos e provoca revolta – sentimento de todos os brasileiros.

A Lei de Responsabilidade Fiscal é o atalho que pode iniciar a recuperação do futebol e de todo o esporte por extensão, sem esquecermos de que, num prazo maior, a proposta é criar um Sistema Brasileiro de Esportes.

Toninho Nascimento reconheceu que a crise do esporte é bem mais ampla e de natureza nitidamente política, área na qual milita no momento. Defende ardorosamente o trabalho que vem realizando no Ministério do Esporte.

O Bom Senso F.C. cobrou posição da CBF, que vinha negaceando sobre o assunto da comissão de fiscalização. Meio a contragosto, a entidade pode ter sinalizado, enfim, para um acordo sobre a LRF.

Enquanto isso, o caos segue se instalando em todos os setores. A confusão na arbitragem, mais uma vez revelada esta semana, torna difícil controlar as manifestações de desagrado que vêm de todos os lados. Emerson, do Botafogo, ateia lenha na fogueira. Fez um desabafo sintomático, direto e extremado: da desmoralização ao desrespeito e deste ao descontrole. Situação insustentável.
Na administração interna dos clubes, outros tantos desacertos. Várias “lambanças” no registro legal dos jogadores, bagunça que já provocou a saída do diretor do setor na CBF e ameaça os campeonatos de não chegarem ao fim, de serem mais uma vez decididos no tapetão. No (ex?) aristocrático São Paulo, a lavagem de roupa suja vira briga de lavadeiras à beira do córrego.

Agravada ainda por eleições em clubes importantes como Vasco e Botafogo, a irregularidade e a instabilidade são a marca desta temporada do futebol brasileiro.

Embora tenha também seus problemas, a temporada europeia esquenta. Pelo menos ali dá para se falar de futebol, o que de fato interessa. Há muito tempo não assistia a um jogo tão empolgante como Chelsea e Schalke 04 – mais uma equipe alemã que se sobressai no cenário mundial. No time inglês, o excelente Ivanovic evoca saudades do grande zagueiro Orlando, campeão mundial de 1958 pela Seleção e vencedor nos clubes que sempre honrou (Vasco, Boca Juniors e Santos).

Oportunidade de refletir sobre os desequilíbrios entre a procura desenfreada pelos lucros e a qualidade dos esportes, além do predomínio absurdo das táticas sobre a criatividade e a emoção, o império do futebol mecânico e previsível, sem coração.
Pelo menos o vôlei segue vencendo. Vem aí a Olimpíada, vamos em frente.

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