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Número 817,

Economia

Artigo

O capitalismo em rede

por Ernesto van Peborgh* — publicado 23/09/2014 05h18
Como as novas tecnologias transformam a dinâmica do sistema
capitalismo

Emergem novos modos de produção, organização, consumo e distribuição

Há 50 anos, no ápice da Guerra Fria e das tensões de possíveis explosões nucleares iminentes entre Estados Unidos e União Soviética, o Departamento de Defesa norte-americano solicitou a Paul Baran, cientista polaco-americano especializado em desenho de redes de computação, o desenvolvimento de um sistema capaz de manter a comunicação com as Forças Armadas durante o colapso de um ataque nuclear.

Com a tecnologia precária dos computadores dos anos 1960, Baran conseguiu manter a comunicação da rede, mesmo desconectando vários de seus nós. Seu estudo revelou que as redes podiam não só se manter interligadas, como também experimentar um aumento significativo de seus níveis de resiliência, inclusive com a perda de 50% de seus nós.

Na última década e a partir da aparição e do boom nas mídias sociais, a humanidade acompanhou a lógica de Baran para criar uma rede distribuída de mentes hiperconectadas, que troca ideias e conhecimentos sem pausa, e o fez de forma tão abrupta e significativa que ainda estamos tratando de compreender esses fenômenos e de nos adaptar a eles.

Como resultado, uma nova cosmologia governa nossa ordem social e essa mudança tem implicações fundamentais em nossa cultura e nas estruturas socioeconômicas. Dessa forma, é impossível o capitalismo e o corporativismo ficarem de fora do impacto da estrutura matricial.

Para entender essa mudança, é preciso compreender o capitalismo como um sistema. A partir dessa perspectiva, é possível conceber como uma troca na matriz subjacente tem impacto na sua morfologia e no seu funcionamento.

Mas o que é realmente um sistema? Define-se como sistema um complexo de elementos em interação ordenada, unidos numa forma mais ou menos estável em função de algum tipo de objetivo.

S = E x I x P é uma fórmula que nos permite definir essa interdependência. Um sistema (S) é o conjunto de elementos (E) que, mediante a sua interconexão (I), busca alcançar um propósito (P) determinado.

De acordo com essa dinâmica, qualquer mudança nos elementos produz um efeito em todo o sistema. O mesmo ocorre quando se altera a interconectividade com a qual os elementos interagem entre si. Em qualquer dos casos, uma alteração em E ou I pode gerar uma mudança no propósito do sistema, que é, definitivamente, o objetivo para o qual existe.

Na última década, a humanidade evidenciou a mudança mais dramática de toda a nossa história como espécie, consequência da interconectividade entre as pessoas e dentro de todos os sistemas humanos. Nesse curto período, mais de um terço da população mundial conseguiu acesso à internet e mais de 85% se comunica por meio de telefones celulares. Devido a essa hiperconectividade, mudamos também nossa lógica matricial, passando de uma matriz centralizada para outra distribuída.

As diferenças entre a matriz central e a distribuída provocaram impactos muito mais amplos e profundos não somente em nível comunicacional e organizacional, como também pelo potencial gerado a partir da participação entre os nós da rede.

A lógica e a estrutura da matriz distribuída coincidem com as dos sistemas mais evoluídos. Sua organização entrelaçada permite a interação e reciprocidade entre os nós sem necessidade da coordenação de um nó central. Os nós podem colaborar entre si construindo valor a partir da reciprocidade de suas relações. Desse modo, incentiva a motivação e a autonomia de seus atores, que se reúnem ao redor de interesses e causas comuns para constituir, desde a criatividade colaborativa, um novo recurso coletivo.

A grande diferença entre esses dois paradigmas é a interconectividade. Na matriz central ela é limitada, já que os fluxos de comunicação devem passar por um nó central.

Na matriz distribuída, a comunicação flui independentemente dos nós, assim como Baran comprovou em seu experimento. Mas existe algo muito mais interessante. Dentro desse “sistema”, outras propriedades são reconhecidas – inexistentes em uma matriz centralizada –, ligadas à interdependência e ao autogoverno. Surge a capacidade de se vincular com outros atores para obter dados, informação e conhecimento, processados, recombinados e expostos novamente ao coletivo para uma nova reconstrução a partir dessas contribuições. Esse processo permite o surgimento de propriedades emergentes, coletivas, do conjunto de elementos integrantes do sistema e não dos individuais. O emergente é uma propriedade nova que esse sistema adquire e seus elementos isolados não possuem. O todo é mais que a soma de seus componentes.

E o que tudo isso tem a ver com o capitalismo? Por ser um sistema aberto, o capitalismo forçosamente se vê afetado em sua lógica e função primordial.

As redes distribuídas substituem nossas matrizes dominantes que capitulam diante dessa lógica e dão lugar a novos modelos de organização, produção, consumo e distribuição. Novas formas de organização social, inovação e construção de conhecimento já fazem parte do cotidiano.

Entender é 50% da solução. Devemos agora compreender as transformações causadas por essa nova matriz e reconhecer que o futuro está conosco, para nos preparar e aproveitar essa incrível oportunidade que se nos apresenta: a de evoluir a partir de um mundo mais conectado, equitativo e sustentável.

*Ernesto van Peborgh é fundador da Viagem de Odiseo, especializada em estratégias de comunicação nas redes sociais. É engenheiro com MBA pela Universidade Harvard. Foi vice-presidente do Citicorp Equity Investments e sócio-fundador do Argentine Venture Partners, fundo de investimentos capitalizado pelo AIG Southern Cone Fund. Publicou quatro livros, o último intitulado Redes: O despertar da consciência planetária, lançado pela editora DVS no Brasil.

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