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Número 817,

Política

Análise / Delfim Netto

Momento de reflexão

por Delfim Netto publicado 14/09/2014 04h54
A escolha versa sobre quem dará continuidade à construção da sociedade civilizada inscrita na Constituição de 1988
Valter Campanato/ABr e Heinrich Aikawa/Instituto Lula
FHC-Lula

Com a política do governo Lula, os cidadãos brasileiros puderam "sentir" se melhoraram ou não, social e economicamente, comparando a sua situação com o que tinham no governo FHC

A sociedade brasileira está num momento de reflexão. Deve escolher quem dará continuidade à construção da sociedade civilizada inscrita na Constituição de 1988. É tempo, portanto, de avaliações. É preciso reconhecer que essas nunca são “neutras”, mesmo as que, honestamente, se esforçam para sê-lo, utilizando métodos “objetivos”. Frequentemente, um descuidado adjetivo emerge aqui e ali, para provar a impossibilidade de qualquer analista de libertar-se dos valores ínsitos na sua “visão do mundo”.

Recentemente, três excelentes economistas condicionados, por formação, à análise mais objetiva e menor viés ideológico quanto possível, apresentaram um competente e extenso trabalho que vale a pena ler. Trata-se do texto para discussão nº 626, do Departamento de Economia da PUC, “A década perdida 2003-2012”, de autoria de Vinícius Carrasco, João M.P. de Mello e Isabela Duarte, 2014. O esforço é sério e, em larga medida, bem-sucedido. A metodologia utilizada, conhecida pelo nome de “controle sintético”, constrói “contrafactuais” agrupando países escolhidos “neutramente”, por algoritmos estatísticos para cada item da comparação desejada. Trata-se de um corajoso avanço da aplicação da inferência causal a problemas sociais inspirado nos trabalhos do sofisticado estatístico P.R. Rosenbaum.

O problema fundamental é o seguinte: com a política do governo Lula, os cidadãos brasileiros podem “sentir” se melhoraram ou não, social e economicamente, comparando a sua situação atual com a que tinham no governo FHC. O que eles não sabem nem podem avaliar é “quanto mais” ela poderia ter melhorado se Lula e Dilma tivessem adotado políticas diferentes. A proposta não é nada simples: consiste em mimetizar um efeito causal num experimento bem imaginado, mas que está longe de satisfazer as condições do controle dos experimentos da Física ou das Ciências Biológicas ou da aleatoriedade nos experimentos sociais. Têm razão os autores quando afirmam que o método do controle sintético é o “estado da arte” na inferência causal com dados não experimentais, ainda que, às vezes, a seleção objetiva do grupo de controle recuse a intuição ordinária.

Nas análises dos fatos econômicos o governo Lula-Dilma não se sai bem. A conclusão mais importante do trabalho é que crescemos no período, mas provavelmente 10% menos do que poderíamos. Nas questões sociais a coisa muda um pouco. Apenas para dar um aperitivo que aguce o paladar pela leitura do trabalho, vamos explorar a análise do crescimento da proporção da população ocupada e a redução do nível de desigualdade que, obviamente, não são variáveis independentes. O resumo está nos gráficos 1 e 2. A evolução da proporção da população ocupada comparada com o grupo de controle sintético mostra um razoável ajustamento antes de 2003 e um extraordinário avanço do Brasil sobre ele até 2012. O mesmo ocorre com a evolução do índice de Gini.

Dar emprego e combiná-lo com a redução da desigualdade é, certamente, uma forma eficiente de ampliar a cidadania. Aqui, como em todas as comparações, mesmo as mais “objetivas”, é que entram os “valores”. Como comparar uma eventual redução do crescimento do PIB com um aumento da cidadania? Tanto os ufanistas quanto os céticos devem ler o trabalho. Ele merece mais crédito do que o seu título.

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