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Número 817,

Cultura

Cinegastronomia

Merchan do Michelin

por Marcio Alemão publicado 13/09/2014 04h22
Comida é a onda da vez. E assim caminha a humanidade, que decide qual a onda cinematográfica é boa de surfar
Kobal/AFP
A 100 passos

A história de A 100 passos de um sonho é mal contada, tão previsível qaunto um arroz parbolizado e mais repleto de clichês do que um bufê de casamento

Vem de penca. Super-herói de HQ, super-herói bíblico, Iraque, monstros que desistiram de Tóquio e foram tentar a sorte em Nova York, vírus, zumbis. E assim caminha a humanidade, que decide qual a onda cinematográfica boa de surfar.

Comida é a onda da vez. Não tive apetite para ver todos. Tampouco tempo.

A 100 Passos de um Sonho eu vi. A história é mal contada. Cem passos, diz o protagonista, é a distância entre o seu restaurante, um restaurante de comida indiana, e o restaurante de seus sonhos, um francês de grande classe.

Qualquer um que for assistir ao filme concordará comigo: no máximo, 32 passos os separam. Vou além, A 32 Passos de um Sonho é um título muito mais emblemático. Teria feito milhões de espectadores. Enfim, o prato já foi para a mesa.

Sobre o filme enquanto conteúdo cinematográfico, diria que é tão previsível quanto um arroz parboilizado e mais repleto de clichês do que bufê de casamento.

O filme, qualquer um pode notar, respeita todas as regras do pior manual de roteiro. O que, talvez, nem todos reparam, é que tudo soa como uma tentativa do Guia Michelin de produzir um material institucional. O velho e bom merchandising.

Tenho comentado, até em demasia, confesso, sobre a ascensão bizarra das opiniões inglesas sobre o assunto gastronomia e do concurso realizado pela revista The Restaurant.

Mas a verdade é que emplacaram no mundinho gastrô, enquanto as estrelas Michelin começaram a perder o brilho e ganhar poeira.

E o filme tenta tirar essa poeira e polir as ditas. Não à toa, tudo começa com a família do jovem chef deixando Londres, “porque os vegetais aqui não têm vida”, e se dirigindo para outro lugar da Europa. O carro vai quebrar, não por coincidência, em uma pequena cidade da França.

Nenhum personagem poupa adjetivos para valorizar as estrelas. Em certo momento, Helen Mirren, a dona do restaurante francês coloca os chefs que conseguiram 3 estrelas no Olimpo e os chama de deuses.

O confronto com a cozinha molecular – a que está falecida – se estabelece e, obviamente, aquele que por um breve momento se torna o rei da “inovação” mergulha no álcool, na melancolia, cai na real e retorna ao clássico.

Mas, fazendo parte do briefing passado pelo cliente, “não podemos só valorizar o clássico; precisamos mostrar que apreciamos a evolução, em certa medida”.

Pois o jovem chef indiano une-se à jovem chef francesa e começam, por exemplo, a preparar boeuf bourguignon com toques de especiarias indianas e dizem: “Iremos atrás da terceira estrela!”

Ou seja, o Guia Michelin está aberto a inovações, está aberto ao intercâmbio de sabores e continua uma aspiração de qualquer jovem do planeta.

Briefing contemplado. Filme aprovado pelo cliente.

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