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Número 817,

Economia

Análise / Paul Krugman

A lacuna da qualificação

por Paul Krugman — publicado 16/09/2014 04h40
A alegação de parte do desemprego refletir uma força de trabalho com preparo inadequado é passível de discussão
The Natural Step Canada/Flickr
MBA

Claro que sempre há empregos vagos e trabalhadores desempregados. No entanto, o que isso tem a ver com qualificação?

As afirmações de que há uma enorme “lacuna de qualificação profissional” nos Estados Unidos – que grande parte de nosso desemprego é estrutural, refletindo uma força de trabalho com preparo inadequado ou coisa parecida – geralmente repousam em alegações de que existe uma situação incomum em que muitos empregos estão vagos, embora muitos trabalhadores continuem desempregados.

Por exemplo, no início deste ano, Jamie Dimon, o executivo-chefe do JP Morgan Chase, escreveu um artigo em Politico com Marlene Seltzer sobre a suposta lacuna de qualificação, que começava assim: “Hoje, quase 11 milhões de americanos estão desempregados. Mas ao mesmo tempo 4 milhões de empregos estão vagos. Essa é a ‘lacuna de qualificação’ – o abismo entre as capacidades que os candidatos a empregos têm atualmente e as capacidades que os empregadores precisam para preencher os cargos abertos”.

É claro que sempre há empregos vagos e trabalhadores desempregados. Afirmações sobre uma excepcional lacuna de qualificação só teriam alguma justificativa se a relação entre desemprego e vagas – a chamada Curva de Beveridge – tivesse piorado substancialmente. E durante algum tempo houve muitas alegações de que isso realmente havia acontecido.

Mas alguns analistas afirmaram que era uma interpretação errônea dos dados – a Curva de Beveridge sempre parece pior durante uma recessão e nas primeiras etapas da recuperação, depois retorna ao normal conforme a recuperação avança. E, certamente, os pesquisadores do banco Federal Reserve, em Cleveland, descobriram que a suposta mudança na Curva de Beveridge desapareceu.

E, de modo revigorante, eles até se permitiram um certo sarcasmo discreto e perdoável em seu relatório (que pode ser lido aqui: bit.ly/1uDeP9q): “Observadores acompanharam a Curva de Beveridge durante a recessão e a recuperação para obter certo entendimento das potenciais mudanças estruturais no mercado de trabalho”, escreveram os pesquisadores. “Se uma mudança implica ou não uma verdadeira mudança estrutural – especificamente, um declínio na eficiência relativa do mercado de trabalho – ainda é discutível. Entretanto, uma coisa é clara: não há mudança, para começar.”

O comentarista econômico Chris Dillow defendeu recentemente uma boa teoria em seu blog sobre economia e talvez assuntos públicos em geral: muitas vezes há uma tendência a se acreditar em histórias simples que não são verdadeiras. Como disse H. L. Mencken, “para todo problema complexo existe uma resposta que é clara, simples e errada”.

Mas muitas vezes também acontece de a resposta ser simples, e de as pessoas se recusarem a aceitar essa resposta simples. Isto é, o inverso da proposição de Mencken também se aplica: para cada problema simples há uma resposta que é obscura, complexa e errada.

Em seu post (bit.ly/1CtCJK7), Dillow usou como exemplo a escolha de ações: eu me vejo pensando (surpresa) sobre macroeconomia. Por que a produção está tão baixa e os empregos tão escassos? A resposta simples é a demanda inadequada, e todas as evidências que temos são coerentes com essa resposta. Mas as Pessoas Muito Sérias em geral se recusam a aceitar essa resposta simples: deve ser uma força de trabalho com as qualificações erradas (onde estão os salários de prêmio para trabalhadores com as qualificações certas?); disparidade geográfica (onde estão os estados com salários potentes?); e assim por diante.

Deve ser, insistem as Pessoas Muito Sérias, um problema difícil sem respostas fáceis, quando tudo diz que “gastar mais” é a resposta, ponto final.

Muito disso é político. Histórias pelo lado da demanda são inconvenientes para aqueles que querem usar a crise como desculpa para derrubar as proteções sociais. Mas não acredito que isso seja tudo. Existe um profundo desejo por parte das pessoas que querem parecer sérias de acreditar que grandes problemas devem ter raízes profundas e exigem muitas horas de solene deliberação por comissões bipartidárias.

Então como você sabe, se o discurso público sobre uma questão está ignorando as complexidades ou introduzindo uma complexidade gratuita? Faça sua lição de casa! É realmente muito simples.

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