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Número 816,

Política

Pernambuco

Comoção por Campos embala a alta de Paulo Câmara

por Rodrigo Martins publicado 08/09/2014 04h29, última modificação 08/09/2014 14h52
O salto espetacular de Paulo Câmara na corrida ao governo do estado após a morte de Eduardo Campos
PSB
Paulo Câmara e Eduardo Campos

Paulo Câmara ao lado de Eduardo Campos em ato público em 12 de julho, no Recife. O candidato do PSB não para de subir nas pesquisas

Em meio à comoção pela morte de Eduardo Campos, Pernambuco, terra do presidenciável falecido, tornou-se palco da mais impressionante reviravolta eleitoral deste ano. Em apenas três semanas, Paulo Câmara, do PSB, apadrinhado do ex-governador, cresceu 23 pontos e empatou no primeiro lugar com Armando Monteiro Neto, do PTB, apoiado por Lula. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada na quarta-feira 3, Câmara e Monteiro Neto têm 36% das intenções de voto. No levantamento anterior, divulgado pelo instituto em 15 de agosto, dois dias após o trágico acidente de avião que vitimou Campos e seis integrantes de sua equipe, o petebista ganharia no primeiro turno: tinha 47%, contra 13% do adversário. Se a tendência de alta continuar, a eleição pernambucana tende a acabar em 5 de outubro, sem a necessidade de um segundo turno e com a inversão do ganhador.

A rápida ascensão de Câmara acendeu um sinal de alerta na campanha de Monteiro Neto. O ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria aposta em Lula e Dilma Rousseff para estancar a sangria. Na quinta 4, os dois fizeram campanha em Pernambuco ao lado do candidato. Ninguém imaginava que Câmara, apoiado por 21 partidos e com o dobro do tempo no horário eleitoral gratuito, continuasse em patamar tão baixo de intenções de voto. O problema foi a velocidade do crescimento.

“Apoiado por esse conjunto de forças, ele tinha de crescer em algum momento, sobretudo após o início da propaganda eleitoral. Era um movimento previsível”, diz Monteiro Neto. “Com o trágico falecimento de Campos, houve comoção e uma grande exposição de seus aliados na mídia. Isso acelerou o processo. Antecipou o que estava previsto para acontecer a partir de meados de setembro.”

O candidato do PSB reconhece que seu crescimento nas pesquisas sofreu forte antecipação. “Com o falecimento de Eduardo, os eleitores passaram a se interessar mais pelas eleições. Queriam saber quem era esse candidato que ele tinha escolhido para dar continuidade ao seu trabalho em Pernambuco.”

Desconhecido pela maior parte do eleitorado até o início de agosto, Câmara disputa sua primeira eleição. Auditor concursado do Tribunal de Contas do Estado, o economista recebeu o convite para integrar o governo de Campos em 2007. Assumiu primeiro a Secretaria de Administração. Depois, migrou para as pastas do Turismo e da Fazenda. A filiação ao PSB ocorreu tardiamente, em outubro de 2013. A partir de então, iniciou uma peregrinação aos municípios pernambucanos e se apresentou à maioria dos prefeitos e vereadores. Nesse período costurou os acordos para reunir 21 partidos em torno de sua candidatura.

Apesar do êxito nas alianças, a garantir larga vantagem no horário eleitoral gratuito, dois percalços preocupavam a campanha socialista até há pouco tempo. Primeiro, o baixo envolvimento da população no debate eleitoral, atribuída, em grande medida, à realização da Copa no Brasil, que dominou o noticiário até o fim de julho. Além disso, Monteiro Neto ainda era visto por muitos pernambucanos como um aliado de Campos no estado. Em 2010, o petebista elegeu-se senador na mesma chapa do ex-governador. “Meu adversário nunca se preocupou em esclarecer que migrou para a oposição. Mas, de maneira rápida, essa confusão se dissipou.”

O candidato do PSB também acabou favorecido pela escalada de Marina Silva nas pesquisas. Em Pernambuco, a ex-senadora aparece com 41% das intenções de voto, contra 37% de Dilma, segundo levantamento divulgado pelo Ibope no fim de agosto. Em um gesto de deferência ao grupo de Campos, Marina escolheu o Recife para lançamento de sua candidatura à Presidência. E se dispôs a gravar depoimentos e participar de atos públicos ao lado de Câmara.

Não por acaso, Dilma e Lula decidiram intensificar a campanha no estado e reforçar o palanque de Monteiro Neto e de João Paulo, candidato do PT ao Senado. Na tarde da quinta 4, o ex-presidente participou de uma caminhada e um comício em Petrolina, no sertão pernambucano. À noite, uniu-se a Dilma em comício em Brasília Teimosa, zona sul do Recife.

“Lula é muito querido em Pernambuco. Mas sempre sublinhamos o seguinte: nossa chapa tem um lastro político próprio”, diz Monteiro Neto. “Campos tinha envergadura política e estatura. Tinha voz, liderança, diálogo nacional, capacidade de articulação. Mas o candidato que ele escolheu não tem esses atributos. É uma pessoa qualificada, mas que vem da burocracia.”

A afirmação do senador petebista desnuda uma de suas estratégias de campanha: apresentar Câmara como um político inexperiente, incapaz de encarar os grandes desafios do estado sem o suporte de seu padrinho político. Senador, Monteiro enfatiza que o crescimento econômico de Pernambuco na última década, bem acima da média nacional, expôs os gargalos de infraestrutura no estado. Para saná-los, seria inevitável recorrer a investimentos da União. A capacidade de articulação política no âmbito nacional seria, portanto, indispensável nessa nova fase de desenvolvimento.

Câmara rebate. Segundo ele, quem não tem experiência administrativa no setor público é o adversário. “Ele atuou apenas na iniciativa privada, onde coleciona vários fracassos empresariais”, provoca. De fato, boa parte dos negócios da família Monteiro naufragou após a quebra do Banco Mercantil. Administrada pelo pai do candidato, Armando Monteiro Filho, a instituição financeira sofreu intervenção do Banco Central em 1995.

À época, as autoridades identificaram uma extensa lista de irregularidades na gestão do Mercantil, acusado pelo Ministério Público Federal de conceder empréstimos irregulares a empresas ligadas aos próprios controladores, prática proibida pela legislação. Por ter participação societária em algumas dessas companhias, Monteiro Neto chegou a ser investigado pela Polícia Federal, mas o inquérito acabou arquivado pelo Supremo Tribunal Federal.

“O banco pertencia à família, mas eu nunca atuei lá. A instituição financeira era presidida por meu pai, e um dos diretores era meu irmão. Eu não, sempre atuei na área industrial”, explica o senador. “A intervenção do Banco Central impôs uma série de restrições às outras empresas do grupo. Pelo fato de o controlador do banco, no caso meu pai, ser acionista das outras companhias, houve uma série de restrições. Tivemos dificuldades financeiras e fomos obrigados a reduzir as operações.”

A despeito dos reveses empresariais, Monteiro Neto tirou 3,6 milhões de reais do próprio bolso para investir na campanha. É o triplo do patrimônio informado pelo candidato à Justiça Eleitoral em 2010, quando disputou uma vaga ao Senado. À época, ele dizia possuir 1,2 milhão de reais em bens. Na atual disputa, declarou ter uma fortuna estimada em 14,9 milhões de reais. Trata-se da segunda maior evolução patrimonial entre todos os candidatos a governador, atrás apenas do senador peemedebista Eunício Oliveira, que amealhou mais de 60 milhões de reais nos últimos quatro anos e lidera a corrida eleitoral no Ceará.

Na primeira etapa da campanha, a captação de recursos havia sido insuficiente, argumenta o petebista. Era preciso honrar compromissos assumidos, razão pela qual decidiu tirar dinheiro do próprio bolso. O enriquecimento nos últimos anos seria decorrente de uma doação feita pelo pai. “Tudo está devidamente registrado.”

A quatro semanas das eleições, Câmara e Monteiro Neto perseguem os votos dos indecisos, 17% do eleitorado, segundo o Datafolha. Embora o atual quadro revele a possibilidade de um segundo turno, ambos acreditam que a eleição, altamente polarizada, será decidida em uma única etapa. Isso porque os demais concorrentes somam apenas 3% das intenções de voto. Quem conseguir abrir uma vantagem superior a esse índice vence a disputa.