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Número 816,

Cultura

Artes Visuais

Bienal volta no tempo para os anos 1970

por Olivio Tavares de Araújo — publicado 14/09/2014 04h55
Desenhistas sem desenho, pintores sem pintura, vídeos antigos e instalações pobres marcam um evento “político”
Gustavo Lourenção
Bienal

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Criada em 1951, a Bienal Internacional de Arte de São Paulo mudou sua função. Não precisa mostrar novidades porque obras de vanguarda de todo o mundo chegam hoje fartamente, em segundos, pela internet, enquanto antes eram disponíveis apenas por meio de caras revistas importadas e com o atraso de meses. Torna-se legítimo que a Bienal se proponha outros papéis, e pensar e discutir questões diversas por meio da arte é um deles. Mas será que, por isso, pode andar artisticamente para trás?

A primeira, inevitável e justificadíssima impressão de quem visita a 31ª Bienal, com 86 artistas e duas centenas de obras entre 6 de setembro e 7 de dezembro, será a de que entrou na máquina do tempo e foi devolvido aos anos 1970. A grande maioria das obras parece muito antiga. Os mesmos materiais, formas, procedimentos de que os artistas se serviam naquela época para tratar (por assim dizer) de temas políticos. Talvez, mais até do que artística, a presente Bienal se reconheça como uma proposta política, o que fica claro em seu discurso oficial.

O grupo de curadores internacionais, liderado pelo inglês Charles Esche e alvo do protesto de 55 artistas contra a aceitação pela Fundação Bienal de dinheiro do governo israelense (90 mil reais em um orçamento de 24 milhões), desejou pinçar trabalhos que repercutissem o momento atual da crise do planeta, destacando, nela, os conflitos e misérias sociais. O intuito é válido e nobre, e, segundo os curadores, haveria muita novidade no que meditaram, trabalharam, descobriram, até na maneira de expô-lo. Não é, porém, infelizmente, o que os olhos percebem.

Sempre foi complexa a questão da arte política – e não será esta a hora de discuti-la amplamente. Toda arte é política, toda ela fornece testemunho de seu tempo e toma posições. Como regra, posições progressistas, visto que artistas são seres progressistas. Arte assumidamente de protesto é uma coisa um pouco diferente, embora também haja muita arte maravilhosa de protesto, e para isso basta lembrar as gravuras de Goya. O problema parece residir no balanço entre os dois polos, mais arte ou mais política. Quando não se é um grande artista e se pensa antes na segunda, o resultado costuma não dar certo. Não deu nesta Bienal, para a qual 60% das obras foram especialmente criadas, a pedido e com o apoio financeiro da entidade. Informação sobre a desigualdade, a injustiça, o caos social (em especial nos países em desenvolvimento, uma vez que a seleção privilegiou grandemente a América Latina e o Oriente Médio) não falta. Falta “artisticidade”.

Nem vamos falar de beleza. Por certo existe boa arte sem relação com os cânones tradicionais de beleza, a harmonia, o equilíbrio, fundada em seus próprios referenciais de valor. Mas para que essa boa arte exista é necessária determinada articulação formal, a estruturação de uma nova linguagem expressiva. Nesta Bienal, a articulação e até seus fundamentos são precários. Desenhistas com pouco desenho, pintores com deficiência na pintura, vídeos razoavelmente pobres e instalações (o maior segmento) que até parecem improvisadas. A grande quantidade de mapas inseridos ao longo das diversas obras sugere pouca imaginação.

Tem-se a impressão de que a biografia e a ação social dos artistas escolhidos representam o ponto de partida das escolhas, não sua trajetória artística anterior. Só isso explica vários dos equívocos, o déjà vu nos trabalhos, os ensaios despidos de qualidades básicas. Outra das preocupações da curadoria era “tomar a temperatura da arte atual”. A julgar por essa amostragem, ao menos nesse segmento, está muito baixa. Ou será que a arte política está hoje condenada a ser assim? Antiquada, enfática, pouco eficaz? Não dá mais conta do tamanho dos problemas, e outras formas de ação se fazem necessárias?

Nem é possível elaborar direito a tradicional lista de indicações, o que ver obrigatoriamente na Bienal, o que pode ser dispensado. Ao primeiro contato, pouquíssimos exemplos saltam da massa geral. Por virem de países onde a questão homossexual foi ou é ainda mais reprimida que no Brasil, têm interesse as salas Dios es Marica, de um coletivo formado por dois chilenos, um peruano, um mexicano e um catalão, e Linha de Vida/Museu Travesti do Peru, criado por um filósofo que é, simultaneamente, drag queen. Pena que a montagem, seja por contenção original peruana ou erro da museografia da Bienal, tenha inviabilizado a contundência natural do tema, criando um espaço cujo clima é, antes, o de um museu de entomologia ou botânica.

Também interessa a sala Errar de Dios, dos argentinos do grupo Etcétera, que dialoga com a obra antirreligiosa de Leon Ferrari (foto) e oferece ao público a oportunidade de interpelar Deus num interfone. Enquanto isso, aproveitando que o papa também é argentino, cobram-lhe a ab-rogação do inferno. Uma velha nômade egípcia, Anna Boghiguian, mostra no terceiro andar pinturas e desenhos vizinhos da chamada “arte incomum”, limítrofe daquelas de primitivos e insanos, cheios de autênticas (não buscadas) expressividade e energia. Filmes dos anos 1950 e 1960 do espanhol Val de Omar, de resistência à ditadura franquista e à repressão católica, oferecem momentos de real envolvimento.

Simetricamente, os desenhos pomposamente intitulados Escuras Nuvens do Futuro, do indiano Prabhakar Pachpute (um dos queridos da curadoria, tanto que lhe encomendaram a fraca ilustração do cartaz), apenas mostram grupos de despossuídos com o mais perfeito espírito e estilo de um artista médio dos anos 1970. Não possuem nenhuma força. Como costuma acontecer nos últimos 30 anos, abre-se um abismo entre o que os olhos veem e o que teóricos e críticos escrevem. Em palavras, as mais perfeitas banalidades são transformadas em realizações complexas, quem sabe transcendentes.

Um exemplo meio ao acaso mas fácil de ver, porque localizado na entrada: Aqueles de Quem, objetos escultóricos de Sheela Gowda, indiana. No guia da Bienal, sua obra “jogou com a elasticidade da borracha natural contra a rigidez do ferro reciclado de móveis e esquadrias, como se estendesse uma nova pele sobre os esqueletos remanescentes”. Somos ainda informados de que, “para essa instalação, Gowda trabalhou com cooperativas no estado do Acre, onde a extração de borracha contribui para evitar desmatamentos adicionais da Amazônia”. E daí? Trata-se de circunstâncias extraobra, incapazes de impedir um resultado inócuo.

Há paradoxos a cercar a Bienal. Todos os esforços dos curadores foram vãos para tentar lhe justificar o título, Como Falar de Coisas Que Não Existem. Só se fala, o tempo todo, de coisas terríveis que existem com impositiva, dramática, inelutável realidade. Isso de nomes ou “conceitos” para exposições tornou-se, obviamente, mero recurso de marketing. Não menos paradoxal é o fato de que a talvez melhor contribuição (se é possível uma escolha tão radical entre tantos trabalhos) venha de um artista morto, o polonês Edward Krasinski (1925-2004). A verdade é que o componente político de sua obra é tênue: ter feito arte abstrata, de filiação minimalista, numa Polônia ainda comunista. Associá-la à “precariedade social” ou a “uma nova imaginação popular”, como no guia da Bienal, é puro wishful thinking. Acabamos sem saber muito bem por que ele está aqui. Mas, de qualquer modo, que sorte. Trata-se de arte muito boa.