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Número 816,

Internacional

Ucrânia

A encenação do confronto

por Gianni Carta publicado 06/09/2014 06h22, última modificação 06/09/2014 06h50
Enquanto o Ocidente movimenta-se de um lado, a Rússia avança de outro. Por Gianni Carta
Christopher Jones/AFP
Putin-Poroshenko

Poroshenko acena a Putin com um cessar-fogo, mas fala grosso em casa

Como se não bastassem as carnificinas mundo afora, a chamada “comunidade internacional” se prepara para uma nova Guerra Fria. Desta feita representada pelos líderes de 28 países da Otan, a aliança militar ocidental, presentes em uma reunião de cúpula de dois dias em Newport, País de Gales, até a sexta-feira 5. Às vésperas do encontro, Barack Obama esteve na Estônia, onde assegurou aos líderes bálticos que a Otan os defenderia em qualquer ocasião. “Estaremos aqui para a Estônia. Estaremos aqui para a Letônia. Estaremos aqui para a Lituânia.”

O motivo do encontro em Newport foi arquitetar programas de apoio. Um deles promete defesa rápida: 4 mil homens assessorados por forças multinacionais aéreas e navais estarão sempre de prontidão para proteger ex-países soviéticos de possíveis invasões da Rússia. E embora a Ucrânia não integre a Otan, o presidente Petro Poroshenko foi convidado a participar do evento pelo anfitrião, o premier britânico David Cameron. Encorajado por Obama, Cameron anunciou a intenção de enviar tropas para realizar exercícios em território ucraniano. Celebrou um articulista de um suposto diário esquerdista britânico: a Otan, criada em 1949, terá motivos para justificar sua existência. A Guerra Fria terminou em 1991.

Responsável em março deste ano pela anexação da Crimeia ao território russo e por fornecer apoio financeiro e militar à região separatista pró-Rússia de Donbass (Donetsk e Luhansk), o presidente russo Vladimir Putin virou uma espécie de demônio no Ocidente. Putin e sua Rússia estão repletos de problemas. E ele está no poder desde 1999. Ataca com brutalidade seus opositores, inclusive na mídia. Cameron foi, porém, demasiado longe ao compará-lo a Adolf Hitler, enquanto se mostra solidário ao premier israelense Benjamin Netanyahu, cujo exército massacrou, em três semanas de ação em Gaza, mais de 2 mil palestinos, a vasta maioria civis. A mídia “neutra” global segue a agenda de Cameron, Obama, Hollande etc. Uma revista neoliberal europeia disse que Putin foi responsável pela morte dos 298 passageiros do voo MH17 da Malaysia Airlines. Investigações revelaram, porém, que separatistas pró-russos lançaram um míssil contra o avião por confundi-lo com uma aeronave do Exército ucraniano.

Andres Rasmussen, secretário-geral da Otan, tornou públicas fotografias feitas via satélite de uma suposta invasão da Ucrânia por soldados russos. Glacial, o presidente russo admite que alguns mercenários russos poderiam estar envolvidos nos conflitos na Ucrânia. Provas da ação de veteranos russos sem insígnia na região não escasseiam. De fato, dez desses “voluntários” russos em território pró-russo da Ucrânia recentemente deram depoimentos à tevê ucraniana. O que Putin pretende fazer de Donbass?

Responde Oleg Varfolomeyev, cientista político ucraniano: “Ele quer criar novas repúblicas semiautônomas como a Ossétia do Sul e a Abecázia, na Geórgia, mais a Transnístria, na Moldávia”. Quanto à Crimeia, antes de sua anexação já possuía status semifeudal. “Perto de 60% dos habitantes são de etnia russa. Sebastopol, onde está a Marinha russa, era administrada pela Rússia, que lá mantinha tropas”, explica o cientista político e historiador alemão Andreas Umland.

Poucos sabem, mas assim como os separatistas pró-russos, o Exército ucraniano é auxiliado por mercenários, estes de extrema-direita, inclusive neonazistas, como alguns integrantes do Batalhão de Donbass. Em maio, quando entrevistei na Praça Maidan a advogada Gaide, responsável pelo assentamento de milhares de refugiados, vários homens dormiam no fundo da barraca. Eram do Pravy Sektor (Setor de Direita) vários envolvidos nos conflitos em Donbass. Três ministros nomeados após a eleição de maio deste ano pertencem à legenda de extrema-direita Sovoboda (Liberdade), o que macula a imagem democrática da Ucrânia.

Com a dissolução da Rada Suprema (Parlamento) em 25 de agosto, e com eleições legislativas marcadas para outubro, as chances de legendas populistas crescem. Em recente entrevista a CartaCapital, o economista Andriy Novak previu uma contração de 6,5% do PIB neste ano. O nível de desemprego é de 30%, o que explica o êxodo de 6,5 milhões de ucranianos para o exterior. Poroshenko acena a Putin com um conciliatório cessar-fogo. Ao mesmo tempo, fez um pronunciamento patriótico quando da dissolução da Rada. À época, disse o presidente camaleão: “Forças ilegais só podem ser enfrentadas com força”.

Entre goles de café, Édouard Bailby, escritor e ex-correspondente do semanário francês L’Express na Rússia, observa: “Putin é um estadista que sabe mexer suas peças melhor que ninguém no tabuleiro de xadrez”. É acusado, continua, de invadir a Crimeia. “E as invasões do Afeganistão, do Iraque e de Guantánamo, mais o leasing dos EUA de Cuba?” Pergunta e responde: “E quem iniciou o conflito na Ucrânia? A Otan, que na nova ordem mundial comandada pelos EUA continuou a se expandir”.

Varfolomeyev, o cientista político ucraniano, concorda: “Putin, como os soviéticos, sempre viram a Otan como o inimigo número 1”. Por isso, aliás, anexou a Crimeia e iniciou o conflito em Donbass. “Mas, por ora, o tiro saiu pela culatra”, pondera. “Antes havia ceticismo na Ucrânia em relação à Otan. Agora a maioria a apoia. E a organização vai aumentar sua presença em vários países.” As peças se movem.