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Número 815,

Cultura

Refô

Quem é bom de formiga?

por Marcio Alemão publicado 31/08/2014 09h44
Ser o melhor onde muitos são bons é tão desafiador quanto inventar modas
Estella Maris e Shuttestock
Formiga

Concorrência, seja qual for e em que setor for, é sempre estimulante

Em quantos restaurantes já lhe ofereceram um bom prato de formiga e quantas vezes você, depois de provar, concluiu: “Não tem jeito, a do fulano é a melhor”?

Você já elegeu o melhor jeito de comer formiga, a preparação que mais lhe apraz?

A concha de caramujo do The Fat Duck é a melhor para se ouvir o ruído do mar, enquanto se aprecia uma variedade de sushis. Essa é uma afirmação complicada de fazer, certo? Eu não faria sem antes percorrer a orla de Santos, Praia Grande, Mongaguá e demais recantos praianos de São Paulo. Jogo isso para nossa costa, que a brisa do Atlântico beija e repito a pergunta: a do The Fat Duck é a melhor? Sem querer jogar gasolina na fogueira, ouvi dizer que em Perequê, no Guarujá, criaram um fone de ouvido com conchas. Você ouve o mar em estéreo, enquanto come camarãozinho sete-barbas frito, que na minha vira-lata e honesta opinião, dá de 100 no melhor sushi do mundo.

Espumas, geleias e gelatinas de coisas sólidas que andaram fazendo aos montes por aí. Em tempo, tá na hora de alguém falar sobre o ocaso da cozinha molecular ou vamos deixar o assunto em banho-maria (ou em baixa temperatura)?

Geleias, espumas e gelatinas. Você chegou a eleger suas prediletas? Nesse quesito até foi possível fazer comparações, posto ter virado febre. E febre ruim, tipo peste. Muita gente perdeu tempo e dinheiro tentando ser Ferran Adrià.

Mas agora vamos para o outro lado: um camarada decide abrir uma trattoria, uma cantina e servir macarrão com molho à carbonara, alho e óleo, cacio e pepe. Decide assar cabrito, frango. Teima em fazer uma pizza espetacular. Vai atrás da melhor carne de boi para fazer o melhor churrasco.

Lembro da conversa do poeta russo Maiakovski com seu amigo. E lhe disse o amigo: “Seu trabalho é fácil. Enquanto você vai ter de responder para a posteridade, eu tenho de responder para o comitê do bairro toda semana”.

Não tiro o valor de ninguém nem seria trouxa de afirmar que não precisamos de poetas criando novas estrofes gastronômicas, mas tão somente de bons intérpretes para velhas e consagradas partituras.

Minha intenção é dividir um pouco essas medalhas.

Querer ser o melhor onde muitos são excelentes é tão desafiador quanto transformar um boi em bola de gude comestível.

Por isso é comum dizer que a concorrência, seja qual for e em que setor for, é sempre estimulante.

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