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Número 815,

Cultura

Literatura

Os dias fundamentais

por Ana Ferraz publicado 02/09/2014 04h35, última modificação 02/09/2014 05h08
A Mesa da Ralé, de Michael Ondaatje, narra a história de três garotos que embarcam para Londres na classe menos prestigiosa de um navio
Divulgação

A Mesa da Ralé
Michael Ondaatje
Companhia das Letras, 288 págs., R$ 43

Michael tem 11 anos, viaja do Ceilão a Londres, onde a mãe o espera. Sem supervisão de nenhum adulto, tem por companhia dois garotos que conhece a bordo do Oronsay, o fascinante navio que levará 21 dias para cruzar o Oceano Índico, o Mar da Arábia e o Mar Vermelho, atravessar o Canal de Suez e o Mar Mediterrâneo para só então atracar. Os meninos ocupam a nada prestigiosa mesa da ralé, a mais distante daquela destinada ao capitão. Desimportantes, aproveitam-se dessa condição para conhecer os meandros da grande embarcação, engendrarem-se pelo convés onde circulam os abastados e observar o misterioso prisioneiro retirado do porão às escondidas somente durante as madrugadas.

O garoto guarda muitas semelhanças com o autor, Michael Ondaatje, que afasta qualquer conexão com o personagem e se define como um híbrido de lugares, raças e culturas. Nascido em Colombo, no Sri Lanka, deixou o país aos 11 anos (a bordo do Oronsay) rumo a Londres. Aos 19 radicou-se no Canadá. Ganhou projeção mundial com O Paciente Inglês, vencedor do Booker Prize em 1992, cuja versão cinematográfica dirigida por Anthony Minghella angariou nove Oscar.

Narrador da própria história, Michael, o personagem, relembra os dias fundamentais em que teve os primeiros lampejos da vida adulta. Na condição do poeta que sempre foi, revelado muito antes do prosador, Ondaatje embebe de lirismo a epopeia dos garotos em formação. Como na passagem em que o menino solitário é confortado por uma prima adulta e quase acredita numa segurança que não existe ou no trecho em que os aventureiros imberbes “mergulham como agulhas na piscina pintada de dourado da primeira classe, levantando um mínimo de água”.

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